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Barra Mansa,30/08/2026

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    O preço das bets

    A lógica do negócio, entretanto, é outra: para que as plataformas lucrem, o conjunto dos apostadores precisa perder.


    O preço das bets

    O preço das bets

    Por JJ

    A expansão das bets no Brasil está sendo tratada, frequentemente, como uma nova fonte de arrecadação e um mercado promissor. Mas olhar apenas para os impostos recolhidos é ignorar o impacto econômico mais amplo. Em 2025, a transferência de renda das famílias para as plataformas de apostas reduziu o consumo e provocou uma perda estimada entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões na atividade econômica, o equivalente a até 1,1% do PIB e a cerca de metade do crescimento brasileiro no ano.

    A arrecadação direta do setor, estimada em R$ 9 bilhões, não compensa esse impacto. A menor atividade econômica pode ter reduzido a arrecadação tributária em valores entre R$ 31 bilhões e R$ 55 bilhões. O resultado fiscal líquido, portanto, seria negativo, entre R$ 22 bilhões e R$ 46 bilhões. Não basta contabilizar o dinheiro que entra com as bets sem considerar o que deixa de entrar em razão da redução do consumo e da atividade econômica.

    A dimensão desse prejuízo potencial ajuda a compreender sua gravidade. O custo fiscal estimado equivale a uma parcela entre 10% e 20% de todo o orçamento federal destinado à saúde em 2025. Evidentemente, não se trata de afirmar que esse dinheiro seria automaticamente aplicado na saúde, mas de demonstrar a dimensão dos recursos que podem deixar de circular na economia e de chegar aos cofres públicos.

    Existe também uma questão distributiva. O dinheiro das apostas sai do orçamento de milhões de famílias e termina concentrado nas plataformas e em seus proprietários. Dependendo de quem se apropria efetivamente dos lucros, essa transferência pode ter elevado a parcela da renda concentrada no 1% mais rico entre 0,5% e 2,1%. Em um dos países mais desiguais do mundo, esse efeito não pode ser tratado como secundário.

    As bets vendem a possibilidade de ascensão individual, a ideia de que um palpite pode mudar uma vida. A lógica do negócio, entretanto, é outra: para que as plataformas lucrem, o conjunto dos apostadores precisa perder. Milhões de pessoas transferem pequenas e grandes parcelas de sua renda para um sistema cuja rentabilidade depende exatamente dessa perda coletiva e da concentração dos ganhos em poucas mãos.

    O problema se torna ainda maior porque a legalização não eliminou o mercado clandestino. Uma parcela expressiva das apostas continua ocorrendo fora do ambiente regulado. Somados aos cassinos clandestinos, às máquinas caça níqueis, ao jogo do bicho e a outras modalidades ilegais, os valores envolvidos são muito maiores do que aqueles captados pelas estatísticas oficiais e pela arrecadação tributária.

    Não se trata de moralismo ou de negar aos adultos o direito de apostar. Trata se de reconhecer que a expansão do jogo tem consequências econômicas e sociais que precisam ser enfrentadas. Endividamento, comprometimento da renda familiar, redução do consumo e concentração de riqueza não podem ser considerados simples efeitos colaterais de um mercado que movimenta bilhões.

    O debate, portanto, precisa mudar. A pergunta não pode ser apenas quanto as bets arrecadam, mas quanto elas retiram das famílias, quanto a economia deixa de crescer, quanto o Estado deixa de arrecadar e quem se apropria dos lucros. Quando toda essa conta é feita, o que parece ser uma fonte de receitas pode revelar um custo muito maior para a sociedade. E é a sociedade, no fim, que está pagando a conta.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira 




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