Carmem Teresa Elias
O País que Lê Sem Compreender:
Como a Falta de Interpretação de Texto se Tornou a Crise Silenciosa do Brasil
O País que Lê Sem Compreender:
Como a Falta de Interpretação de Texto se Tornou a Crise Silenciosa do Brasil
Pesquisas afirmam que cerca de um terço da população brasileira não consegue entender o que lê. O problema, que pode parecer uma questão restrita à precariedade da Educação e sala de aula, na verdade, afeta e contamina drasticamente todas as esferas sociais: a política, o trabalho e as relações nas redes, por exemplo.
Consideremos por exemplo um brasileiro que lê a bula de um remédio, entende as palavras, mas não consegue seguir a dosagem. Lê um contrato de trabalho, assina, mas não percebe a cláusula que retira seus direitos. Lê uma manchete no WhatsApp e compartilha, sem perceber a ironia, o sarcasmo ou a mentira embutida no texto. Ele consegue ler as letras, sílabas e palavras: não é analfabeto. Porém ele não consegue extrair significado. Ele é o chamado analfabeto funcional.
Segundo a edição mais recente do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), divulgada em 2024, 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. São cerca de 40 milhões de pessoas que sabem decodificar letras e números, mas não conseguem interpretar, relacionar informações ou usar o que leem para resolver problemas simples do dia a dia. 
Recentemente estive numa região em que garçons de um restaurante não conseguiam fechar a conta porque não sabiam usar a máquina e não sabiam somar com lápis e papel !
O índice de analfabetismo funcional , que parecia estável desde 2018, esconde um alerta ainda mais grave: entre os jovens de 15 a 29 anos, o analfabetismo funcional cresceu de 14% para 16% de 2018 a 2024. A geração mais conectada da história é, paradoxalmente, a que mais tem dificuldade de compreender o que consome. 
Não consegue interpretar o conteúdo das mensagens de forma efetiva para compreender, tomar decisões e resolver problemas. 
Como chegamos aqui?
A falta de interpretação não nasce do nada. Ela é o resultado de uma tempestade perfeita. Por um lado, a Escola perdeu seu papel formativo: ensina a decodificar letras e palavras e considera que o processo de alfabetização está completo. Porém em nada o aluno aprendeu a pensar. O conteúdo, a leitura, a decodificação da mensagem não evoluem.
O sistema educacional passou a priorizar a localização de informações óbvias no texto. A capacidade de interpretar, de inferir o não dito, de avaliar a intenção do autor, ficou em segundo plano. Com a desculpa de que o aluno não pode ficar traumatizado, não se conduz o estudante a níveis maiores de entendimento.
Como apontam análises das matrizes de avaliação, a habilidade de interpretação crítica muitas vezes nem chega a ser contemplada de forma profunda. 
Para piorar, a cultura do mundo digital, focada unicamente em resumo e vídeos de 15 segundos, aboliu até o tempo de atenção mínimo que o cérebro necessita para processar informações.
A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil já apontava queda no número de leitores, de 55% em 2007 para números menores hoje, mas também uma diminuição da capacidade de concentração e compreensão. Trocamos o parágrafo complexo pelo carrossel com 5 dicas, o capítulo pelo áudio acelerado em 2x. O cérebro, treinado para a velocidade, desaprendeu a lidar com a nuance, a ambiguidade e a argumentação longa. 
Nas redes sociais, não lemos para entender. Lemos para confirmar o que já pensamos. Um texto longo é escaneado em busca de uma palavra-gatilho que nos permita atacar ou aplaudir. Ironia vira ofensa literal. Crítica vira apoio. É por isso que discussões nos comentários parecem diálogos entre surdos: cada um responde a um texto que só existe na sua própria cabeça.
O preço que todos pagamos
As consequências ultrapassam o boletim escolar.
No trabalho, o Inaf 2024 mostra a relação direta entre analfabetismo funcional e desemprego e subemprego. Um quinto dos jovens que nem estudam nem trabalham: é o analfabeto funcional e social . São pessoas incapazes de preencher um currículo, interpretar um edital ou seguir um manual de procedimentos. 
Na saúde pública, pacientes não entendem a prescrição médica, a posologia, a frequência do medicamento. Na justiça, é o cidadão que assina o que não compreende. Na democracia, é o eleitor mais vulnerável à desinformação. Quando 3 em cada 10 brasileiros não conseguem compreender e interpretar um simples texto, a fake news não precisa ser sofisticada. Basta ser curta e emocional. 
"Trata-se de um desafio civilizatório", resume o linguista Carlos André, ao comentar os dados do Inaf 2024. 
O antídoto não é ler mais, é ler melhor
A solução não está em campanhas que dizem apenas "leia mais livros". O Brasil precisa de um choque de letramento profundo.
Na escola: Trocar a pergunta "o que o texto diz?" por "o que o texto quer dizer e o que ele esconde?". Trabalhar intencionalmente as quatro habilidades avaliadas pelo próprio Inaf: localizar, integrar, elaborar e avaliar informações. 
Em casa e no trabalho: Resgatar a leitura lenta. Um artigo por dia lido até o fim, sem pular para os comentários. Perguntar a si mesmo: qual é a tese do autor? Qual argumento é mais fraco? O que eu entendi que não estava escrito?
No debate público: Entender que interpretar não é concordar. É possível compreender perfeitamente um argumento oposto e, justamente por isso, discordar dele com mais inteligência. É o que nos separa da barbárie discursiva que vemos hoje.
O Brasil venceu, em grande parte, a luta contra o analfabetismo absoluto. Resta agora vencer uma batalha mais sutil e talvez mais difícil: a de fazer com que as palavras, depois de lidas, finalmente façam sentido.
Carmem Teresa Elias




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