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Barra Mansa,30/08/2026

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    JJ

    Entrevistas Estranhas

    A democracia brasileira precisa urgentemente elevar o nível de seu debate público


    Entrevistas Estranhas

    Entrevistas Estranhas

    Por JJ

    A democracia brasileira precisa urgentemente elevar o nível de seu debate público, sobretudo quando se aproxima uma campanha eleitoral decisiva. Nesse contexto, o papel de uma emissora com o alcance da Rede Globo e de seus profissionais é ainda maior. Por isso, considero que o formato e a postura adotados por alguns entrevistadores representaram um desserviço ao necessário esforço de esclarecer o eleitor. A impressão que ficou não foi a de jornalistas empenhados prioritariamente em produzir informação, contextualizar propostas e ajudar o telespectador a compreender os candidatos. Em vários momentos, pareceu prevalecer a busca pela pergunta capaz de criar desconforto, provocar constrangimento ou produzir um corte de impacto para as redes sociais.

    Não se trata, evidentemente, de defender entrevistas cordiais, reverentes ou sem perguntas duras. O jornalismo tem a obrigação de confrontar candidatos, investigar contradições, cobrar explicações e submeter o poder ao escrutínio público. Mas existe uma diferença fundamental entre questionar com rigor e transformar a entrevista em uma espécie de arena. Em determinados momentos, os jornalistas se aproximaram mais do comportamento de certos profissionais do jornalismo esportivo que, depois de uma derrota, parecem menos interessados em compreender o jogo do que em encurralar o treinador diante das câmeras. A política não precisa dessa caricatura. O eleitor não ganha nada quando a entrevista deixa de ser instrumento de esclarecimento e se transforma numa competição para descobrir quem consegue constranger quem.

    Renan, do MBL, foi provavelmente quem melhor compreendeu essa dinâmica e decidiu enfrentá-la no próprio terreno. Na forma, foi eficaz: respondeu quando quis, recusou a premissa de perguntas que considerou mal formuladas e, em alguns momentos, encurralou os próprios entrevistadores. Demonstrou inteligência, rapidez e capacidade de compreender a lógica midiática daquele confronto. Mas forma não substitui conteúdo. E aí reside seu principal problema: por trás da desenvoltura retórica, suas propostas me parecem ocas, reacionárias e, frequentemente, importadas de realidades profundamente distintas da brasileira. Seu fascínio por El Salvador, por exemplo, revela uma simplificação grotesca de problemas complexos e uma disposição perigosa de importar soluções autoritárias como se sociedades, histórias e instituições fossem intercambiáveis. Renan me parece representar um tipo social bastante reconhecível: o jovem playboy arrogante, petulante, autoconfiante e inteligente, convencido de que sua desenvoltura intelectual é prova suficiente da superioridade de suas ideias. É um perfil que não causa estranhamento em determinados círculos privilegiados de São Paulo, inclusive nas baladas da Vila Nova Conceição. O problema é que a política exige mais do que inteligência performática, frases rápidas e disposição para afrontar adversários.

    Lula, por sua vez, pareceu particularmente desconfortável quando o tema foi corrupção. Às vezes tenho a impressão de que, pela dimensão de sua trajetória, por sua estatura histórica e por ser uma liderança reconhecida internacionalmente, o presidente espera dos entrevistadores uma combinação maior de respeito e parcimônia. Lula tem oitenta anos, uma bagagem política épica e uma trajetória que poucos dirigentes brasileiros podem reivindicar. Mas sua formação política, marcada também por um humanismo de matriz cristã e por uma concepção conciliadora da política, talvez o deixe menos preparado emocionalmente para o tipo de guerra comunicacional que caracteriza o ambiente contemporâneo.

    Quando surgem acusações envolvendo familiares, personagens do crime organizado ou terceiros apresentados como suspeitos, a resposta deveria ser firme e precisa. Acusação não é condenação; investigação não é conclusão. Um entrevistador tem o direito de perguntar, mas também tem o dever de não apresentar como fato consumado aquilo que ainda pertence ao terreno da suspeita. Lula poderia ter reagido com maior contundência: recordar que acusações precisam ser comprovadas, que conclusões judiciais e provas não podem ser substituídas por insinuações e que sua relação histórica com a própria Globo foi marcada por décadas de disputas, enquadramentos e, na sua avaliação, tratamentos injustos — inclusive em momentos emblemáticos da política brasileira, como o debate presidencial de 1989.

    Em vez disso, Lula se enrolou em determinados momentos e terminou entrando numa zona defensiva que lhe foi desfavorável. Ao negar conhecer determinada pessoa e depois ver circular nas redes sociais uma fotografia que aparentemente contrariava a afirmação ou, no mínimo, exigia contextualização, acabou alimentando exatamente o ambiente que deveria evitar. Não acredito que tenha perdido ou conquistado votos de maneira significativa naquela entrevista. Mas, sinceramente, ficou a sensação de que o custo político foi maior do que qualquer benefício. Talvez, sob essa perspectiva, fosse melhor sequer ter participado de um formato que parecia estruturalmente mais interessado no embate do que no esclarecimento.

    Isso não significa que Lula tenha tido um desempenho ruim em todos os campos. Ao contrário: nas discussões sobre economia, segurança pública e política em geral, mostrou domínio de temas, experiência e capacidade de articular argumentos. É justamente aí que sua trajetória se torna mais evidente. São décadas de participação direta na vida pública, de negociação institucional, de formulação de políticas e de convivência com os dilemas concretos do Estado brasileiro. Quando a entrevista permitiu discussão substantiva, Lula mostrou por que continua sendo uma das maiores figuras políticas da história contemporânea do país.

    O problema é que, no saldo final, o carimbo da corrupção — explorado sistematicamente pelos adversários de Lula — recebeu mais tinta. E isso revela também uma responsabilidade editorial da emissora e de seus profissionais. Perguntar sobre corrupção é legítimo e necessário; transformar a entrevista numa sequência de armadilhas e associações destinadas a produzir suspeitas é outra coisa. Uma emissora do tamanho da Globo tem influência suficiente para compreender que não está apenas registrando a campanha: está ajudando a construir o ambiente em que ela acontece. Se realmente queremos uma eleição de alto nível, precisamos exigir candidatos mais preparados, mas também um jornalismo mais comprometido com a informação do que com o constrangimento. Democracia não se fortalece quando entrevistadores procuram vencer candidatos; fortalece-se quando o eleitor termina uma entrevista sabendo mais do que sabia antes.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira 





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