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Barra Mansa,29/08/2026

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    JJ

    Barba e Cabelo

    É preciso chamar as coisas pelo nome.


    Barba e Cabelo

    Barba e Cabelo

    Por JJ

    O sequestro do presidente eleito da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua retirada coercitiva do território venezuelano por forças dos Estados Unidos abriram uma nova e gravíssima etapa na longa história de intervenções norte-americanas na América Latina. Pode-se criticar Maduro, seu governo e a condução política da Venezuela — e críticas não faltam —, mas nenhuma divergência política concede a uma potência estrangeira o direito de invadir uma nação soberana, sequestrar seu presidente e, em seguida, pretender conduzir o destino daquele país. O que se apresenta como ação de força, justiça ou segurança nacional tem, na prática, o cheiro conhecido da tutela imperial: Washington intervém, impõe seu poder e transforma a soberania venezuelana numa concessão condicionada aos seus próprios interesses.

    A sequência dos acontecimentos torna ainda mais explícita a natureza da operação. Depois do sequestro e da intervenção, Donald Trump anuncia negociações destinadas a garantir aos Estados Unidos o controle majoritário sobre cerca de 65 bilhões de barris de petróleo das reservas venezuelanas. O Pentágono, segundo as informações divulgadas, esteve envolvido nesse processo, enquanto o mandatário norte-americano comemora que a operação não custará “um único dólar” ao contribuinte dos Estados Unidos. Eis a pergunta que deveria escandalizar o mundo: se o contribuinte americano não pagará a conta, quem pagará? A resposta parece óbvia: mais uma vez, pretende-se que a conta seja debitada da própria Venezuela, de sua riqueza, de seu petróleo e de seu futuro.

    É preciso chamar as coisas pelo nome. Uma negociação realizada depois que a maior potência militar do planeta invade um país, sequestra seu presidente e passa a exercer enorme pressão sobre as estruturas políticas daquela nação não pode ser analisada como se fosse uma simples transação comercial entre partes livres e equivalentes. Há uma brutal assimetria de poder. Há força militar, ameaça, constrangimento e uma soberania profundamente violada antecedendo qualquer assinatura de contrato. Chamar isso apenas de “parceria” ou “oportunidade de investimento” é tentar perfumar aquilo que, no essencial, se parece com uma operação de rapina sob proteção militar.

    Os Estados Unidos são useiros e vezeiros em invadir, intervir, sancionar, desestabilizar e reorganizar países conforme seus interesses geopolíticos e econômicos. O roteiro é velho, ainda que agora apareça de maneira particularmente explícita: primeiro surge o discurso sobre democracia, segurança, liberdade ou estabilidade; depois vêm a força e a intervenção; por fim, quase sempre, aparece a disputa pelas riquezas estratégicas. Neste caso, nem há grande esforço para esconder o objetivo. O petróleo venezuelano passa a ser apresentado como instrumento para atender aos interesses energéticos e econômicos dos Estados Unidos, como se a maior riqueza da Venezuela pudesse ser naturalmente colocada à disposição da potência que acaba de subjugar politicamente o país.

    A Venezuela merece solidariedade, não tutela; respeito à sua soberania, não administração estrangeira; e o direito de decidir o próprio destino, inclusive o destino de suas imensas riquezas naturais. Criticar um governo não significa autorizar o sequestro de seu presidente. Defender mudanças políticas não significa entregar o subsolo venezuelano às grandes corporações e aos interesses estratégicos de Washington. O que está em curso precisa ser denunciado com toda a contundência: sequestram o presidente e depois avançam sobre o petróleo; violam a soberania e depois chamam a rapina de negócio. Barba e cabelo.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira 




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