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Barra Mansa,29/08/2026

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    JJ

    O Sorriso de Miss Universo

    Porque, enquanto as perguntas ficavam mais difíceis, o sorriso continuava lá.


    O Sorriso de Miss Universo

    O Sorriso de Miss Universo 

    Por JJ

    Há entrevistas políticas que ajudam um candidato a crescer. Há outras que, de tão reveladoras, acabam funcionando como uma espécie de teste de estresse — e mostram justamente aquilo que a campanha tenta esconder.

    As aparições de Ronaldo Caiado, candidato do PSD à Presidência, na Globo e, posteriormente, na sabatina promovida por O Globo, Valor e CBN, pertencem, a meu ver, à segunda categoria. Foram oportunidades enormes para um candidato que pretende se apresentar como alternativa à polarização entre Lula e Bolsonaro. Mas, em vez de demonstrar a densidade de um projeto nacional, Caiado pareceu, em vários momentos, estar procurando descobrir qual personagem deveria interpretar diante das câmeras.

    E isso começa pela própria imagem.

    Não se trata de discutir se Caiado é bonito, feio, elegante ou deselegante. Isso seria irrelevante. O problema é a comunicação corporal. Durante boa parte das entrevistas, o candidato apareceu sorrindo quase permanentemente, inclusive diante de perguntas que exigiam gravidade, precisão e serenidade. O sorriso parecia tão constante que, em alguns momentos, dava a impressão de ser menos uma expressão espontânea e mais um recurso de marketing.

    Era como se alguém tivesse dito ao candidato: sorria, candidato, sorria para parecer simpático.

    O resultado foi justamente o contrário.

    Em vez de transmitir segurança, o excesso de sorriso produziu uma estranha sensação de artificialidade. A imagem lembrava, em alguns momentos, aqueles concursos de beleza em que a candidata precisa manter um sorriso congelado enquanto espera a pergunta sobre “qual é o maior problema da humanidade”.

    Só faltou a faixa atravessada no peito.

    Até os dentes excessivamente brancos — que, isoladamente, obviamente não constituiriam qualquer problema — acabaram compondo esse conjunto visual um tanto artificial. A questão não é a cor dos dentes. É o contraste entre uma aparência cuidadosamente produzida e um discurso que, em vários momentos, não parecia igualmente preparado.

    E aí chegamos ao problema realmente importante: o conteúdo.

    Na entrevista da Globo, conduzida por Renata Vasconcellos e César Tralli, Caiado teve diante de si uma oportunidade preciosa para apresentar-se como estadista e mostrar por que deveria ocupar o Palácio do Planalto. A série da Globo havia sido criada justamente para permitir que os presidenciáveis detalhassem propostas e respondessem a questões centrais da eleição.

    Mas o candidato frequentemente foi mais categórico quando atacava adversários do que quando precisava explicar como governaria.

    Na economia, por exemplo, defendeu limitar os gastos públicos a 50% do PIB, mas não conseguiu oferecer a mesma clareza quando pressionado sobre onde efetivamente faria cortes. A dificuldade ficou especialmente evidente na discussão sobre Previdência. Quando Renata Vasconcellos insistiu em saber quais mudanças pretendia fazer, Caiado reagiu dizendo que não estava diante de uma “mesa examinadora”.

    Mas, convenhamos: uma eleição presidencial é, sim, uma espécie de exame.

    Não um exame escolar, evidentemente. É algo muito mais sério: é o eleitor examinando quem pretende administrar o país.

    Quem quer ser presidente precisa aceitar perguntas difíceis. Precisa saber explicar o desagradável, o impopular, o complexo. Precisa dizer onde economizará, o que mudará, quem será afetado e quanto custará.

    Não basta dizer que haverá responsabilidade fiscal. É preciso apresentar a conta.

    E foi justamente aí que Caiado pareceu mais confortável com a retórica do que com a matemática.

    Na segurança pública, sua proposta de criação de uma força policial sul-americana, batizada de “SulPol”, chamou atenção. A ideia de cooperação internacional contra o narcotráfico pode ser discutida seriamente. O problema é que, novamente, o candidato pareceu mais interessado na força da expressão do que na explicação minuciosa de como essa estrutura funcionaria diante das soberanias nacionais.

    Mas foi na questão política que o desempenho se tornou ainda mais preocupante.

    Caiado insiste numa anistia ampla para os envolvidos nos atos de 8 de janeiro. Até aí, pode-se concordar ou discordar. Faz parte do debate democrático. O problema aparece quando um candidato à Presidência é questionado diretamente sobre a natureza daqueles acontecimentos e responde que não sabe se houve tentativa de golpe porque “não estava lá”. Na sabatina de O Globo, Valor e CBN, ele classificou a questão como uma “questão de interpretação”.

    Ora, um candidato pode defender anistia. Pode discordar das decisões judiciais. Pode criticar o STF. Pode propor uma solução política para o conflito.

    O que não parece razoável é tratar uma questão dessa magnitude como se fosse uma discussão semântica.

    O Brasil passou por uma tentativa de ruptura institucional, houve invasão e depredação das sedes dos três Poderes e existe uma extensa investigação judicial sobre o episódio. O candidato que pretende comandar a República precisa demonstrar muito mais do que uma frase de efeito: precisa demonstrar compreensão histórica, institucional e jurídica.

    Na CBN, em parceria com O Globo e Valor, o problema continuou aparecendo sob outras formas. Caiado atacou Lula, criticou a família Bolsonaro pelo comportamento diante das tarifas americanas e chegou a chamar o ministro Sidônio Palmeira de “Sifrônio”.

    É curioso.

    Caiado tenta ocupar o espaço de uma terceira via. Quer apresentar-se como alternativa ao lulismo e ao bolsonarismo. Mas, quando tem diante de si microfones e jornalistas preparados para discutir o futuro do país, frequentemente retorna ao velho roteiro da política brasileira: Lula isso, Bolsonaro aquilo, STF aquilo outro.

    E assim fica difícil enxergar Caiado por trás de tanto “anti-Lula”, “anti-Bolsonaro” e “anti-STF”.

    Um candidato presidencial precisa ser mais do que o homem que sabe dizer o que está errado nos outros. Precisa ser capaz de explicar o que fará certo.

    Também chamou atenção sua defesa do impeachment de ministros do STF como uma espécie de “remédio” contra a impunidade.  Mais uma vez, há um debate legítimo a ser feito sobre os limites e responsabilidades de todos os Poderes. Mas a Presidência da República exige uma postura institucional especialmente cuidadosa.

    Não basta demonstrar indignação. É necessário demonstrar método.

    E esse talvez tenha sido o maior problema das entrevistas: Caiado mostrou indignação, mostrou frases fortes, mostrou disposição para atacar adversários. Mas mostrou pouco daquilo que deveria ser o centro de uma candidatura presidencial: um projeto coerente, detalhado e executável para o Brasil.

    É claro que há qualidades em sua trajetória. Caiado tem experiência política, foi governador de Goiás e tenta apresentar a segurança pública e a gestão como credenciais para a Presidência. Seus apoiadores podem perfeitamente argumentar que sua experiência administrativa o diferencia dos adversários. E isso precisa ser levado a sério.

    Mas experiência administrativa não é uma procuração em branco.

    Governar Goiás e governar o Brasil são desafios de escalas completamente diferentes.

    O eleitor brasileiro não precisa de um candidato que apenas pareça seguro. Precisa de alguém que saiba o que está fazendo.

    E talvez seja justamente por isso que aquele sorriso permanente tenha se tornado tão simbólico.

    Porque, enquanto as perguntas ficavam mais difíceis, o sorriso continuava lá.

    Enquanto faltavam respostas detalhadas sobre Previdência, sorria-se.

    Enquanto se discutia anistia, sorria-se.

    Enquanto se discutiam gastos públicos, sorria-se.

    Enquanto se discutia democracia, instituições e 8 de janeiro, sorria-se.

    E chega um momento em que o sorriso deixa de transmitir tranquilidade e começa a transmitir desconforto.

    Não é preciso parecer carrancudo para parecer sério. Nem todo presidente precisa falar de cara fechada. O problema é quando a expressão facial parece não acompanhar a gravidade do assunto.

    Presidência da República não é concurso de simpatia.

    Não é programa de auditório.

    Não é desfile de candidato.

    E definitivamente não é concurso de Miss Universo.

    O eleitor pode até perdoar um candidato por não ter a resposta perfeita para todas as perguntas. O que dificilmente deveria perdoar é a tentativa de substituir respostas por pose, propostas por slogans e planejamento por segurança cênica.

    Caiado teve duas vitrines importantes — Globo de um lado; O Globo, Valor e CBN de outro — e conseguiu uma façanha curiosa: falou bastante sem conseguir deixar suficientemente claro o que pretende fazer com o Brasil.

    Talvez o maior problema de sua performance não tenha sido ter errado uma ou outra resposta.

    Foi ter deixado uma pergunta muito mais incômoda no ar:

    Ronaldo Caiado sabe exatamente por que quer ser presidente — ou ainda está tentando descobrir como parecer um?

    Porque, no fim das contas, o Brasil não precisa de um candidato com dentes perfeitamente brancos, sorriso impecável e respostas ensaiadas.

    Precisa de alguém capaz de encarar um país cheio de problemas sem sorrir para eles — e, principalmente, sem fugir das perguntas quando chega a hora de apresentar a conta.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira 




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