JJ
Outsider de Luxo
E milionário filantropo não é sinônimo de representante popular.
Outsider de Luxo
Por JJ
Há algo muito estranho acontecendo em torno da candidatura do Dr. Augusto Cury. Desde o debate da Bandeirantes que, apesar de toda a repercussão posterior, registrou modestos 1,6% de audiência, as redes sociais foram tomadas por uma avalanche de cortes, vídeos, emojis, elogios e conteúdos enaltecendo o candidato. De repente, os algoritmos parecem ter descoberto um novo fenômeno político. Estranho. Mas, no mundo digital, dinheiro compra alcance, impulsionamento, equipes especializadas e mecanismos capazes de fabricar a aparência de espontaneidade. A pergunta é inevitável: estamos diante de um fenômeno ou de uma operação cuidadosamente construída para produzir uma novidade eleitoral?
Também chama atenção a quantidade de afagos, gentilezas e cordialidades dispensadas ao candidato em determinados espaços, como ocorreu na sabatina da CBN. Por quê? O que explica tamanho acolhimento? Augusto Cury não é um homem que surgiu das anglurias sociais, tampouco alguém que tenha construído sua vida enfrentando as mesmas dificuldades do povo brasileiro. É um homem muito rico, que sempre circulou confortavelmente entre os ricos e as elites, construiu fortuna com livros, palestras, cursos e uma sofisticada indústria de autoajuda. Agora surge dizendo ter “cabeça capitalista e coração social”. Uma frase pronta para virar corte de rede social, mas politicamente vazia. O que significa, concretamente, ter coração social quando se defende uma visão de mundo que preserva privilégios?
Sua fortuna e sua trajetória de sucesso são apresentadas como se fossem certificados automáticos de competência para governar. Não são. Vender milhões de livros não é compreender o Estado brasileiro. Fazer palestras não habilita ninguém a enfrentar desigualdade, pobreza, orçamento público, saúde, educação, moradia e os conflitos sociais que atravessam o país. Augusto Cury parece representar uma nova versão do velho empresário salvador, aquele que, por ter enriquecido, acredita ter descoberto também a fórmula para governar a vida dos outros. É a velha arrogância das elites travestida de competência técnica e meritocracia.
Seu discurso, educado e afável, é apenas uma embalagem mais sofisticada para ideias profundamente conservadoras e reacionárias. Menos agressivo na forma, mas não necessariamente menos regressivo no conteúdo. Em determinados aspectos, apresenta posições mais reacionárias do que as do próprio candidato Renan.
Fala muito, fala bonito para incautos, empilha conceitos, produz frases de efeito e, ao final, permanece uma enorme interrogação: qual é, afinal, o projeto? Quais são as propostas concretas? O que pretende fazer com o poder? Porque frases de efeito não substituem pensamento político, e palavras de ordem não resolvem problemas estruturais. Há momentos em que suas ideias parecem retiradas de um museu reacionário e apresentadas como se fossem inovação.
A comparação com Pablo Marçal talvez incomode, mas não é inteiramente descabida. Cury parece ser uma versão mais polida, afável e socialmente aceitável do mesmo fenômeno: a transformação da comunicação motivacional em capital político. Um fala aos gritos; o outro sorri. Um agride; o outro acaricia. Um vende brutalidade; o outro vende serenidade. Mas ambos exploram a simplificação da política e a construção de uma relação quase messiânica entre o comunicador e seu público. Augusto Cury é, em muitos aspectos, um Pablo Marçal de aparência mais séria e educada: menos extravagante, porém talvez mais palatável para setores que desejam um outsider sem os constrangimentos do outsider grosseiro.
E, como outros ricaços que já tentaram transformar riqueza em credencial moral, apresenta-se como alguém disposto a fazer um grande sacrifício para servir ao povo. Diz que, se eleito, destinará seu salário a uma instituição de caridade. Mais uma vez, a velha encenação do milionário generoso. Como se abrir mão de um salário público fosse um ato de heroísmo para quem possui patrimônio suficiente para viver sem ele. O Brasil não precisa de ricos exercendo caridade através do poder. Precisa de políticas públicas, distribuição de riqueza, justiça tributária e representantes comprometidos com direitos. Caridade não é justiça social. E milionário filantropo não é sinônimo de representante popular.
Mas talvez o mais revelador seja a insistência em dizer que “não é político”. Claro que é. Quem disputa uma eleição para ocupar um cargo público está fazendo política. Esse discurso antipolítico é um velho truque: entrar na política atacando a política, disputar o poder fingindo desprezar o poder e tentar convencer o eleitor de que todos são políticos — menos aquele que quer governá-lo. É quase como o sujeito que bate a carteira e sai correndo pela rua gritando: “Pega o ladrão!”. Talvez seja esse o verdadeiro fenômeno que está sendo construído: não o surgimento espontâneo de uma liderança popular, mas a fabricação de um outsider de luxo, rico, midiático, cuidadosamente embalado, afável na superfície e funcional demais aos interesses das elites para que não se pergunte: quem está realmente por trás dessa súbita onda de entusiasmo?
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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