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Barra Mansa,30/08/2026

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    LUIZ GAMA, A VOZ QUE A ESCRAVIDÃO NÃO CALOU

    Luiz Gama não pertence apenas ao século XIX.


    LUIZ GAMA, A VOZ QUE A ESCRAVIDÃO NÃO CALOU

    LUIZ GAMA, A VOZ QUE A ESCRAVIDÃO NÃO CALOU

    Por JJ

    Em 24 de agosto de 1882, morria em São Paulo, aos 52 anos, Luiz Gama, uma das maiores figuras da história brasileira e, certamente, uma das consciências mais extraordinárias que este país já produziu. Negro, nascido livre, vendido como escravo ainda criança, alfabetizado tardiamente e transformado pela própria força da inteligência em poeta, jornalista, jurista e abolicionista, Gama realizou uma das mais impressionantes travessias individuais de nossa história. O menino que a sociedade escravocrata transformou em mercadoria tornou se o homem que dedicaria sua vida a libertar outros homens e mulheres das correntes físicas e jurídicas que sustentavam a riqueza do Brasil.

    Sua biografia, por si só, é uma denúncia contra o país que o produziu. Filho de uma mulher negra livre, Luísa Mahin, e de um homem branco, Luiz Gama foi vendido ilegalmente como escravo pelo próprio pai e levado da Bahia para São Paulo. Viveu a condição daqueles que a lei e os senhores tratavam como propriedade, até conquistar a própria liberdade e, já adolescente, aprender a ler e escrever. A educação abriu lhe uma porta que a sociedade desejava manter fechada. Luiz Gama compreendeu rapidamente que o conhecimento era uma forma de poder e decidiu utilizar esse poder contra aqueles que haviam construído sua autoridade sobre a ignorância e a submissão dos outros.

    Sem formação acadêmica formal em Direito, tornou se um profundo conhecedor das leis e passou a atuar na defesa de pessoas escravizadas. Nos tribunais, utilizou as próprias contradições do ordenamento jurídico imperial para contestar a escravidão e arrancar da condição de cativeiro centenas de homens e mulheres. Não era apenas um advogado improvisado, como durante muito tempo tentaram reduzir sua figura. Era um jurista de enorme inteligência, capaz de compreender que a lei, frequentemente utilizada para proteger os poderosos, também podia ser transformada em instrumento de libertação. Anos mais tarde, o reconhecimento oficial de sua condição de advogado e jurista seria uma reparação histórica, embora tardia, a quem já havia feito do Direito uma trincheira contra a escravidão.

    Luiz Gama também compreendeu que a batalha não seria vencida apenas nos tribunais. Jornalista e escritor, utilizou a imprensa e a literatura como armas políticas, enfrentando escravocratas, aristocratas e falsos defensores da liberdade. Sua escrita era inteligente, irônica, contundente e corajosa. Não procurava agradar aos salões que o desprezavam por sua origem e por sua cor. Preferia confrontá los. Sua palavra possuía a força de quem conhecia por experiência própria a violência que denunciava e, ao mesmo tempo, a sofisticação intelectual de quem dominava os códigos culturais utilizados pela elite contra a qual lutava.

    É nesse contexto que sua frase permanece como uma das mais devastadoras acusações já feitas à sociedade brasileira: “Essa cor é a origem da riqueza de milhares de ladrões que nos insultam.” Luiz Gama expunha, com poucas palavras, a perversidade central do racismo brasileiro. A mesma sociedade que desprezava o negro enriquecia com seu trabalho. A mesma elite que insultava a cor negra acumulava patrimônio graças à exploração dos corpos negros. O insulto racial e a exploração econômica não eram fenômenos separados. Faziam parte do mesmo sistema. O racismo não era apenas uma expressão de preconceito ou ignorância, mas também uma poderosa estrutura de dominação destinada a justificar a concentração de riqueza e a perpetuação dos privilégios.

    Gama morreu seis anos antes da Lei Áurea, mas não morreu derrotado. A abolição foi resultado de uma longa luta coletiva, protagonizada por pessoas negras, escravizadas e livres, quilombolas, intelectuais, jornalistas, advogados e militantes que recusaram a versão confortável segundo a qual a liberdade teria sido uma generosa concessão da monarquia. Luiz Gama esteve entre os maiores protagonistas desse processo. Seu sonho de um país sem escravos estava ligado também à defesa de uma República verdadeiramente comprometida com a cidadania. Para ele, não bastava mudar os governantes se permanecessem intactas as estruturas sociais que produziam desigualdade e submissão.

    A tragédia brasileira é que a abolição chegou sem reparar os séculos de exploração. A liberdade jurídica não foi acompanhada de terra, moradia, educação, trabalho digno ou integração social para a população negra recém saída do cativeiro. Os antigos escravizados foram abandonados à própria sorte, enquanto a riqueza acumulada durante gerações permaneceu, em grande medida, nas mãos daqueles que haviam se beneficiado do regime escravista. Por isso, Luiz Gama continua contemporâneo. Suas palavras ajudam a compreender um Brasil em que a desigualdade racial ainda possui profundas raízes históricas e em que tantas vezes se tenta esconder a relação entre o passado escravista e as injustiças do presente.

    Hoje, ao lembrar os 144 anos de sua morte, não devemos transformar Luiz Gama em uma estátua silenciosa ou em um personagem confortável de uma história já encerrada. Luiz Gama foi incômodo em vida e deve continuar sendo incômodo depois da morte. Sua trajetória nos obriga a perguntar quem construiu a riqueza do Brasil, quem se beneficiou dela e por que a igualdade prometida pela abolição ainda permanece incompleta. O homem que foi vendido como escravo tornou se libertador, enfrentou uma nação construída sobre a escravidão e deixou uma obra cuja força permanece intacta. Luiz Gama não pertence apenas ao século XIX. Enquanto houver racismo, desigualdade e privilégios construídos sobre a exclusão, sua voz continuará viva, exigindo do Brasil aquilo que ele compreendeu como poucos: não existe liberdade verdadeira enquanto a dignidade de uma parte do povo continua sendo negada.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira 




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