Moisés Laureano de Santana
25 DE OUTUBRO:
O VOTO ESCOLHE. O FUTURO COBRA
25 DE OUTUBRO: O VOTO ESCOLHE. O FUTURO COBRA
Por Moisés Laureano de Santana
Entre promessas, expectativas e desafios reais, o Brasil decide seu próximo presidente — mas a democracia não termina nas urnas: começa, de fato, quando o poder precisa responder à sociedade.
O Brasil chegará a 25 de outubro diante de uma escolha que ultrapassa os limites de uma disputa eleitoral. O segundo turno das eleições presidenciais colocará frente a frente projetos distintos de país, visões diferentes de Estado e expectativas que refletem as preocupações de milhões de brasileiros. De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva (PT); do outro, Flávio Bolsonaro (PL). A decisão caberá aos eleitores. As consequências, entretanto, alcançarão toda a sociedade. [1]
Em uma democracia, votar significa escolher quem receberá a responsabilidade de governar. Entretanto, também significa decidir quais prioridades deverão orientar o orçamento público, quais problemas exigirão respostas imediatas e quais compromissos serão cobrados ao longo dos próximos quatro anos.
A pergunta fundamental, portanto, não é apenas quem vencerá a eleição. É outra, mais profunda: que Brasil sairá das urnas e que sociedade estaremos dispostos a construir a partir dele?
O título deste artigo sintetiza essa responsabilidade: o voto escolhe, mas o futuro cobra. Cobra das lideranças, das instituições e, igualmente, de uma cidadania que não pode transferir integralmente aos governantes a responsabilidade pelo destino coletivo.
1. Uma eleição entre expectativas e realidades
A disputa presidencial de 2026 ocorre em um ambiente de forte polarização política, divergências ideológicas e cobranças sobre a capacidade do poder público de responder às necessidades da população. O resultado do primeiro turno, realizado em 4 de outubro, mostrou uma disputa acirrada: Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. Nenhum dos candidatos ultrapassou a maioria necessária para vencer naquela etapa. [2]
Os números revelam uma sociedade dividida entre alternativas políticas que apresentam diferenças relevantes em suas propostas, prioridades e concepções de governo. Contudo, a pluralidade eleitoral não deve ser confundida com uma autorização para transformar adversários em inimigos.
A democracia pressupõe divergência, competição e alternância de poder. Exige, porém, respeito às regras, à liberdade de expressão, aos direitos fundamentais e à legitimidade das instituições.
Por isso, o segundo turno não deveria ser reduzido a uma disputa de popularidade, ataques pessoais ou confrontos nas redes sociais. O país precisa de uma comparação responsável entre propostas, resultados anteriores, compromissos assumidos e condições reais de execução.
Afinal, prometer é fácil. Governar é enfrentar limites, administrar conflitos, definir prioridades e responder pelas consequências das decisões.
2. Economia: o país também é medido no fim do mês
Para grande parte dos brasileiros, a política não é uma discussão distante, restrita aos palácios de Brasília. Ela aparece no preço dos alimentos, no valor do aluguel, na conta de luz, nos juros, no custo do transporte e na dificuldade de fazer o salário durar até o fim do mês.
É nesse cotidiano que as decisões econômicas demonstram seus efeitos mais concretos.
O próximo governo precisará enfrentar desafios relacionados ao crescimento econômico, à inflação, ao equilíbrio das contas públicas, à geração de empregos, à produtividade e à redução das desigualdades. Também deverá criar condições para que empresas, trabalhadores autônomos e pequenos empreendedores possam produzir, investir e gerar renda.
Nesse cenário, não basta anunciar crescimento sem explicar como seus benefícios chegarão à população. Tampouco basta prometer redução de despesas sem avaliar os efeitos sobre os serviços públicos e os grupos mais vulneráveis.
A questão central é conciliar responsabilidade fiscal, desenvolvimento econômico e justiça social. São dimensões que precisam ser debatidas com seriedade, sem simplificações que apresentem problemas complexos como se tivessem soluções instantâneas.
O eleitor precisa perguntar não apenas quanto uma proposta promete entregar, mas quanto custará, de onde virão os recursos e quem sentirá seus efeitos.
3. Segurança pública: proteger sem abandonar os direitos
A violência figura entre as preocupações que exigem respostas firmes e efetivas. Famílias querem circular com tranquilidade, comerciantes desejam trabalhar sem medo e trabalhadores precisam retornar para casa em segurança.
Entretanto, enfrentar a criminalidade exige mais do que discursos contundentes.
O país precisa discutir inteligência policial, investigação, integração entre forças de segurança, combate ao crime organizado, controle de armas ilegais, prevenção da violência, modernização do sistema penitenciário e políticas capazes de reduzir o recrutamento de jovens por organizações criminosas.
As propostas apresentadas pelos candidatos diferem em aspectos importantes, especialmente quanto aos instrumentos de repressão, à organização institucional e às estratégias de prevenção. Cabe ao eleitor examinar sua viabilidade, seus custos, seus fundamentos jurídicos e os resultados que podem produzir.
A segurança pública não deve ser tratada como uma escolha entre tolerar o crime e desrespeitar direitos. O desafio democrático é proteger a população com eficiência, responsabilizar criminosos e assegurar que a atuação estatal permaneça submetida à Constituição e à lei.
A população tem direito à segurança. E o Estado tem o dever de oferecê-la.
4. Saúde e educação: o futuro não pode esperar
Uma eleição presidencial também precisa ser avaliada pela capacidade de transformar direitos constitucionais em serviços públicos de qualidade.
Na saúde, isso significa enfrentar filas, ampliar o acesso a consultas e exames, garantir medicamentos, fortalecer a atenção básica e melhorar o atendimento especializado. Significa, ainda, valorizar profissionais e administrar recursos para que o Sistema Único de Saúde responda às necessidades da população.
Na educação, o desafio envolve alfabetização, aprendizagem, permanência escolar, valorização dos professores, formação técnica, acesso ao ensino superior e preparação dos jovens para um mercado de trabalho em transformação.
Não se constrói um país desenvolvido apenas com indicadores econômicos favoráveis. É necessário assegurar que crianças aprendam, jovens encontrem oportunidades e adultos possam viver com dignidade.
Por isso, promessas nessas áreas precisam vir acompanhadas de metas verificáveis, planejamento, financiamento e mecanismos de avaliação.
Uma escola que não ensina e um serviço de saúde que não atende representam mais do que falhas administrativas: significam direitos que deixam de alcançar quem deles necessita.
5. Democracia, instituições e responsabilidade pelo poder
Nenhum projeto de desenvolvimento se sustenta plenamente quando as instituições democráticas são tratadas como obstáculos descartáveis.
A Constituição Federal estabelece os fundamentos e os limites do exercício do poder. A liberdade de imprensa, a independência dos Poderes, o respeito às decisões judiciais, a transparência administrativa e o controle dos atos governamentais não são privilégios de partidos ou governos. São garantias da sociedade.
Isso não significa que instituições públicas sejam infalíveis ou estejam dispensadas de críticas. Ao contrário: toda instituição democrática deve prestar contas, corrigir erros e permanecer aberta ao escrutínio público.
A diferença está entre criticar para aperfeiçoar e atacar para enfraquecer as regras que tornam possível a convivência democrática.
O presidente eleito terá de governar também para aqueles que não votaram nele. Essa é uma das exigências mais importantes do mandato: compreender que a vitória eleitoral confere legitimidade para governar dentro da Constituição, mas não concede propriedade sobre o Estado nem autorização para ignorar a pluralidade nacional.
O Brasil não pertence a um candidato, a um partido ou a uma corrente ideológica. Pertence ao conjunto de seus cidadãos.
6. Meio ambiente e soberania: decisões que atravessam gerações
Outro desafio incontornável é conciliar crescimento econômico, proteção ambiental e soberania nacional.
A preservação dos biomas, o enfrentamento do desmatamento ilegal, a segurança hídrica, a transição energética e a adaptação às mudanças climáticas têm consequências sobre a saúde, a produção de alimentos, a infraestrutura e a competitividade brasileira.
Da mesma forma, a política externa influencia as relações comerciais, os investimentos, a cooperação internacional e a posição estratégica do país.
Essas questões exigem pragmatismo, conhecimento técnico e visão de longo prazo. Nem o desenvolvimento sustentável pode ser reduzido a um slogan, nem a exploração econômica deve ignorar os custos ambientais e sociais.
A pergunta que precisa orientar o debate é simples: as escolhas de hoje ampliarão as oportunidades das próximas gerações ou transferirão a elas uma conta ainda mais pesada?
O futuro não se limita ao próximo mandato. Ele também pertence às crianças que ainda não votam e aos brasileiros que viverão as consequências das decisões tomadas agora.
7. Informação, polarização e o dever de pensar
Em períodos eleitorais, a informação disputa espaço com boatos, manipulações, conteúdos descontextualizados e mensagens criadas para provocar indignação. A velocidade do compartilhamento, muitas vezes, supera o tempo necessário para verificar a veracidade dos fatos.
Nesse ambiente, a responsabilidade do eleitor começa antes de apertar as teclas da urna.
É fundamental conferir informações, consultar fontes confiáveis, comparar programas de governo e desconfiar de conteúdos que exploram o medo ou prometem soluções milagrosas. Também é necessário distinguir fatos comprovados de opiniões, acusações e interpretações partidárias.
A liberdade de expressão é indispensável à democracia, mas não elimina o dever de responsabilidade na circulação de informações.
Discordar não exige humilhar. Defender uma candidatura não obriga ninguém a aceitar todas as suas posições. Reconhecer méritos de um adversário tampouco significa abandonar convicções próprias.
O voto consciente não é aquele orientado pela ausência de dúvidas, mas aquele construído com informação, reflexão e disposição para assumir as consequências da escolha.
8. Depois das urnas, começa a cobrança
O resultado de 25 de outubro definirá quem receberá o mandato presidencial. Entretanto, nenhuma vitória resolverá automaticamente os problemas nacionais, assim como nenhuma derrota encerrará a participação política de quem apoiou a candidatura adversária.
A democracia não pode funcionar como um cheque em branco entregue a cada quatro anos.
Ao governo eleito caberá apresentar resultados, executar políticas públicas, respeitar as instituições e prestar contas à população. Ao Congresso Nacional, exercer suas funções legislativas e fiscalizadoras. Aos órgãos de controle, cumprir suas atribuições com independência. À imprensa, investigar e informar com responsabilidade. À sociedade, acompanhar decisões, questionar prioridades e exigir transparência.
Isso significa observar o orçamento público, acompanhar indicadores, cobrar promessas e avaliar se os recursos estão sendo utilizados em benefício coletivo.
Também significa reconhecer que cidadania não se resume ao momento de votar. Ela se manifesta na participação comunitária, no controle social, no respeito às diferenças, na defesa dos direitos e na disposição de contribuir para soluções coletivas.
Não se pode exigir responsabilidade pública enquanto se tolera a desinformação, a corrupção ou o abandono do interesse coletivo quando essas práticas favorecem o próprio grupo político.
A cobrança democrática precisa ser permanente, coerente e dirigida a todos os que exercem poder.
Conclusão: o voto termina na urna; a responsabilidade, não
Em 25 de outubro, milhões de brasileiros terão a oportunidade de participar de uma decisão que influenciará os rumos do país. Cada eleitor chegará à urna com sua história, suas convicções, suas necessidades e suas expectativas. Todas essas experiências merecem respeito.
Independentemente do resultado, o Brasil continuará enfrentando desafios que não desaparecem com a contagem dos votos. A desigualdade não escolhe partido. A violência não respeita ideologia. A pobreza não espera o fim dos discursos. E a democracia não sobrevive apenas da legitimidade conquistada nas eleições: precisa ser fortalecida diariamente.
Por isso, a escolha presidencial deve ser acompanhada de uma exigência coletiva: que as promessas se transformem em políticas públicas, que o poder seja exercido com responsabilidade e que os direitos da população não sejam subordinados a interesses particulares.
O eleitor não precisa concordar com todos para defender o país. Precisa compreender que a divergência faz parte da democracia e que o compromisso com o bem comum deve ser maior do que a fidelidade a qualquer liderança.
O voto escolhe quem governa. A cidadania decide o quanto esse governo será cobrado. A história, por sua vez, registrará as consequências.
No dia 25 de outubro, o Brasil escolherá um presidente. A partir do dia seguinte, será responsabilidade de todos exigir que o mandato esteja à altura das necessidades nacionais.
Porque o futuro não cobra apenas dos vencedores. Cobra de quem governa, de quem fiscaliza, de quem se omite e de quem aceita trocar a responsabilidade de pensar pela facilidade de seguir uma multidão.
A urna entrega o poder. A democracia exige vigilância. E o Brasil precisa de cidadãos dispostos a transformar escolha em compromisso, esperança em participação e indignação em atitude.
Moisés Laureano de Santana é advogado, pós-graduado em Direito Público, Tributário e Eleitoral, com ampla e sólida experiência na Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro, atuando em diversos cargos de direção e chefia em instituições governamentais
Fontes para checagem editorial
[1] Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — Planos de governo dos candidatos à Presidência no segundo turno de 2026.
Tribunal Superior Eleitoral
[2] Agência Brasil — Resultado do primeiro turno e data do segundo turno presidencial




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