Moisés Laureano de Santana
O ELEITOR PRAGMÁTICO:
QUANDO A IDEOLOGIA PERDE ESPAÇO PARA O BOLSO
O ELEITOR PRAGMÁTICO: QUANDO A IDEOLOGIA PERDE ESPAÇO PARA O BOLSO
Por Moisés Laureano de Santana
Inflação, emprego, renda, preço dos alimentos, impostos e custo de vida entram na equação eleitoral de 2026. Mas será que o brasileiro está deixando de votar por identidade política para votar pelo que sente no orçamento? A resposta é menos simples — e mais reveladora — do que parece.
A política pode começar em grandes ideias, mas frequentemente termina diante de uma pergunta muito pequena: quanto vai sobrar no fim do mês?
É na fila do supermercado, na conta de luz, no preço do combustível, no aluguel, na prestação, no contracheque e na procura por emprego que boa parte da política deixa de ser discurso e passa a ser experiência.
Por isso, às vésperas das eleições de 2026, uma questão ganha força: o eleitor brasileiro estaria se tornando mais pragmático? Em vez de escolher apenas pela identidade ideológica, estaria avaliando quem promete — ou demonstra — capacidade de melhorar sua vida material?
Os dados sugerem que a economia ocupa espaço importante nessa avaliação. Mas também mostram que não existe um eleitor único. O voto é formado por uma combinação de valores, experiências pessoais, identidade política, expectativas e percepção sobre o futuro.
1. O bolso fala — mas não fala sozinho
Os indicadores econômicos atuais ajudam a explicar por que o tema estará no centro da conversa eleitoral.
Segundo o IBGE, o desemprego estava em 5,4% no segundo trimestre de 2026, enquanto o IPCA acumulava 4,22% em 12 meses até agosto. No mesmo mês, o índice oficial registrou variação mensal de -0,32%.
Os números, entretanto, contam apenas uma parte da história.
Inflação é uma média. A vida real é uma cesta de compras.
O preço de um alimento que pesa muito no orçamento de uma família pode subir mesmo quando o índice geral apresenta comportamento mais moderado. Para famílias de menor renda, essa diferença é particularmente importante porque uma parcela maior do orçamento costuma ser destinada a itens essenciais.
O próprio IBGE explica que o INPC acompanha famílias com renda de um a cinco salários mínimos, mais expostas ao impacto de preços de alimentação, medicamentos e transporte.
É por isso que existe uma distância possível entre “a inflação está controlada” e “minha vida está mais barata”.
São afirmações diferentes.
2. A economia medida e a economia sentida
Esse talvez seja um dos maiores desafios de qualquer governo em ano eleitoral.
Um indicador pode melhorar enquanto a percepção da população continua negativa. Afinal, o eleitor não vive dentro de uma planilha econômica. Ele compara preços, oportunidades e expectativas.
A pesquisa Ipsos-Ipec de setembro de 2026 mostra essa tensão. Embora a avaliação positiva do governo Lula esteja em 33%, a avaliação negativa chegou a 43%. Em março, entre as áreas avaliadas, controle de gastos públicos e combate à inflação estavam entre as de pior avaliação, com 51% e 50%, respectivamente, classificando a atuação como ruim ou péssima.
Isso não significa que o eleitor esteja necessariamente responsabilizando o governo por cada dificuldade econômica. Significa que a percepção sobre economia, governo e futuro se conecta de maneira complexa.
E percepção, em uma eleição, também é realidade política.
3. O supermercado virou uma espécie de termômetro
Poucos lugares traduzem melhor a economia em emoção do que o supermercado.
O consumidor não precisa saber a taxa oficial de inflação para perceber que determinados produtos ficaram mais caros. Também não precisa dominar conceitos de política fiscal ou monetária para sentir o peso de uma dívida.
É nesse ponto que o debate econômico ganha dimensão eleitoral.
O governo pode apresentar PIB, emprego, investimentos e indicadores fiscais. A oposição pode destacar preços, impostos, endividamento ou poder de compra. O eleitor, por sua vez, confronta essas narrativas com aquilo que encontra no próprio cotidiano.
Nenhuma dessas percepções, isoladamente, conta toda a história.
Mas todas ajudam a explicar como a economia é transformada em voto.
4. O pragmatismo não significa o fim da ideologia
É tentador concluir que o eleitor abandonou a ideologia e passou a votar exclusivamente com a calculadora.
Os dados não autorizam uma conclusão tão simples.
A Ipsos descreve 2026 como um cenário de polarização afetiva persistente entre os campos políticos associados a Lula e ao bolsonarismo. Em análise publicada no início do ano, o instituto destacou que a divisão política brasileira ultrapassa diferenças programáticas e alcança identidades e relações sociais.
Ou seja: o bolso importa, mas a identidade continua importando.
O eleitor pode defender determinada visão sobre costumes, economia, segurança, democracia ou papel do Estado e, simultaneamente, avaliar o governo pela capacidade de melhorar sua situação financeira.
Uma coisa não elimina necessariamente a outra.
5. O eleitor independente é uma peça importante
Há, entretanto, um grupo que ajuda a iluminar a mudança de comportamento: os eleitores que não se identificam com os dois polos principais da disputa.
Pesquisa BTG/Nexus divulgada em setembro apontou que 19% dos entrevistados não se identificavam nem com Lula nem com Flávio Bolsonaro. Nesse grupo, saúde e segurança apareciam como principais preocupações, enquanto desemprego, crescimento econômico, inflação e custo de vida também faziam parte da agenda.
O dado é importante não porque permita definir como essas pessoas votarão, mas porque revela uma demanda por problemas concretos.
Para uma parcela do eleitorado, a pergunta pode estar mudando de “quem representa o meu lado?” para “quem apresenta uma resposta convincente para o meu problema?”.
Ainda assim, isso não significa o desaparecimento da ideologia. Significa que a identidade política pode disputar espaço com uma avaliação mais prática da vida cotidiana.
6. Impostos: quando o Estado aparece na carteira
Poucos assuntos traduzem tão diretamente a relação entre cidadão e Estado quanto os impostos.
O brasileiro pode não acompanhar cada mudança tributária, mas percebe o impacto quando o preço final aumenta ou quando o rendimento disponível diminui.
No levantamento Ipsos What Worries the World de julho, impostos foram apontados como preocupação por 30% dos brasileiros, ocupando posição relevante entre os principais problemas mencionados.
A questão eleitoral, portanto, não é simplesmente cobrar menos ou gastar mais.
É perguntar: o cidadão acredita que aquilo que paga retorna em serviços, oportunidades e qualidade de vida?
Essa percepção pode ser decisiva para a avaliação de qualquer administração.
7. Mas há vida além do contracheque
Seria igualmente equivocado transformar toda a eleição em uma disputa sobre inflação.
Segurança, saúde, corrupção, educação, pobreza, impostos e outros temas continuam presentes na agenda pública. No levantamento Ipsos de julho, crime e violência apareciam em primeiro lugar entre as preocupações, seguidos por corrupção, saúde, pobreza e desigualdade e impostos.
Isso mostra que o eleitor não chega à cabine carregando apenas uma calculadora.
Carrega também medo, esperança, memória, valores, experiências familiares e expectativas para o futuro.
O voto é econômico, mas também é emocional, social e político.
8. A memória pesa
Há ainda um elemento frequentemente esquecido: o eleitor compara.
Compara o preço de hoje com o de ontem. O emprego atual com o anterior. O salário com as despesas. A situação da própria família com aquilo que esperava viver.
Também compara governos, discursos e resultados.
Essa memória pode ser seletiva, influenciada por informações recebidas nas redes sociais e pelas narrativas de partidos e grupos políticos. Por isso, a avaliação econômica não ocorre em um vácuo: ela é disputada diariamente.
Um mesmo indicador pode ser apresentado como conquista por um lado e como insuficiência pelo outro.
Cabe ao eleitor separar propaganda, opinião e evidência.
9. A pergunta que ficará para 2026
No fim, talvez a questão não seja saber se o eleitor deixou de ser ideológico.
Talvez seja perceber que ele pode ser ideológico e pragmático ao mesmo tempo.
Pode defender valores políticos e, simultaneamente, perguntar quanto custa viver. Pode ter uma identidade partidária e cobrar resultados. Pode rejeitar determinado campo político e, ainda assim, mudar de opinião diante de uma melhora ou piora concreta em sua vida.
Essa combinação torna a eleição menos previsível e, ao mesmo tempo, mais humana.
Porque democracia não é feita de eleitores abstratos. É feita de pessoas que pagam contas, procuram emprego, alimentam filhos, enfrentam filas, pagam impostos e carregam convicções.
10. No fim, a política encontra o bolso
O desafio para candidatos e governos será transformar grandes projetos em respostas compreensíveis para problemas concretos.
Não basta falar de crescimento: o eleitor quer saber se haverá emprego.
Não basta falar de inflação: ele quer saber quanto pagará no supermercado.
Não basta anunciar aumento de renda: importa saber quanto dessa renda continuará existindo depois das contas.
Não basta discutir impostos: é preciso explicar quem paga, quanto paga e o que recebe em troca.
É nesse ponto que a política encontra a vida real.
O eleitor pragmático talvez não seja aquele que abandonou suas convicções. Pode ser simplesmente aquele que decidiu acrescentar uma pergunta à sua escolha: “E o que isso muda na minha vida?”
Em 2026, essa pergunta pode atravessar ideologias, partidos e discursos.
Porque, quando a campanha termina e a propaganda desaparece da tela, uma coisa permanece: o preço da comida, a conta que vence, o salário que entra, o emprego que existe — ou não existe.
A urna registra o voto.
O bolso, muitas vezes, ajuda a explicar por que ele foi escolhido.
Moisés Laureano de Santana é advogado, pós-graduado em Direito Público, Tributário e Eleitoral, com ampla e sólida experiência na Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro, atuando em diversos cargos de direção e chefia em instituições governamentais




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