Moisés Laureano de Santana
A URNA COMEÇA NO CELULAR
Redes sociais, algoritmos e inteligência artificial transformam o ambiente digital em uma das principais arenas de informação e propaganda das eleições de 2026.
A URNA COMEÇA NO CELULAR
Redes sociais, algoritmos e inteligência artificial transformam o ambiente digital em uma das principais arenas de informação e propaganda das eleições de 2026.
Por Moisés Laureano de Santana
Antes de escolher um número na urna eletrônica, o eleitor já terá escolhido — consciente ou não — quais informações viu, em quais fontes confiou e o que decidiu compartilhar.
A urna eletrônica continua esperando pelo eleitor no dia da votação. Mas, em 2026, a eleição começa muito antes. Começa na tela do celular.
É ali que candidatos apresentam propostas, partidos disputam atenção, influenciadores comentam política, usuários compartilham informações e sistemas automatizados decidem, em frações de segundo, o que aparece diante de cada pessoa.
A novidade é que o eleitor não está apenas diante de uma campanha eleitoral. Está diante de uma disputa pela atenção. E atenção, na economia digital, vale tanto quanto audiência.
1. A eleição entrou no algoritmo
Durante décadas, rádio, televisão, jornais, comícios e material impresso organizaram boa parte da comunicação eleitoral. A internet mudou esse modelo. Agora, cada usuário pode receber uma experiência política diferente.
Duas pessoas sentadas lado a lado podem abrir a mesma rede social e encontrar conteúdos completamente distintos.
Isso acontece porque plataformas utilizam sistemas de recomendação baseados em diferentes sinais de comportamento. Curtidas, compartilhamentos, comentários, tempo de visualização e histórico de navegação podem influenciar aquilo que aparece na tela.
O efeito político é profundo: a praça pública tornou-se personalizada.
O cidadão não recebe necessariamente aquilo que é mais importante para a sociedade. Pode receber aquilo que o sistema considera mais provável de mantê-lo conectado.
É uma diferença sutil, mas decisiva.
2. A inteligência artificial muda o jogo
Se os algoritmos já haviam alterado a circulação da informação, a inteligência artificial acrescentou uma ferramenta ainda mais poderosa: a capacidade de produzir, em escala, textos, imagens, vozes e vídeos sintéticos.
Um candidato pode aparecer dizendo algo que nunca disse. Uma voz pode ser reproduzida artificialmente. Uma fotografia pode ser alterada. Um vídeo pode parecer real sem ser verdadeiro.
O desafio, portanto, deixou de ser apenas descobrir se uma informação é verdadeira. Em determinados casos, tornou-se necessário descobrir se aquilo sequer aconteceu.
O TSE atualizou as regras eleitorais para 2026 e determinou que conteúdos sintéticos produzidos ou significativamente alterados por IA sejam identificados de forma explícita e acessível. A regulamentação também impõe restrições específicas a conteúdos manipulados e ao uso de deepfakes, que consiste em uma imitação digital realista usada para criar uma situação que nunca aconteceu.
Em 1º de setembro, o Tribunal fixou critérios para caracterizar deepfake: entre outros elementos, o conteúdo precisa ser produzido ou manipulado por IA ou tecnologia equivalente, apresentar realismo ou verossimilhança e alterar imagem, voz ou manifestação de uma pessoa.
A preocupação é especialmente relevante porque a velocidade da tecnologia pode ser maior que a velocidade da checagem.
Uma mentira pode atravessar milhares de telas antes que a explicação correta alcance a primeira.
3. O que o TSE está tentando controlar?
As regras para 2026 não tratam apenas de conteúdos falsos. Elas também alcançam a maneira como plataformas e sistemas de inteligência artificial participam do ambiente eleitoral.
Entre as normas aprovadas pelo TSE está a proibição de que provedores que ofereçam sistemas de IA forneçam, mediante solicitação do usuário, recomendação de candidaturas. A ideia prevista na regulamentação é impedir que uma ferramenta automatizada interfira diretamente na definição do voto.
Também há restrições à circulação de novos conteúdos sintéticos que alterem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores à eleição.
Não se trata, portanto, de proibir a tecnologia. Trata-se de estabelecer limites para seu uso durante o processo eleitoral.
4. As plataformas também estão na berlinda
Em setembro, o TSE informou que nove plataformas haviam apresentado planos de conformidade para as eleições: Google, Kwai, LinkedIn, Mercado Livre, Meta, OpenAI, Telegram, TikTok e X.
Os documentos descrevem medidas de prevenção e resposta a conteúdos considerados capazes de afetar a integridade eleitoral, incluindo procedimentos para remoção de publicações, suspensão de contas, fornecimento de dados e interrupção de propaganda irregular.
O Google, por exemplo, apresentou ao TSE medidas envolvendo Busca, YouTube e Gemini, incluindo identificação de conteúdo produzido por IA, mecanismos de denúncia e ações contra informações falsas sobre votação. A empresa também informou utilizar sistemas automatizados combinados com revisão humana.
O X, por sua vez, informou ao Tribunal que passou a excluir das recomendações do recurso “Para Você” contas oficiais de candidatos e publicações desses perfis para usuários que não os seguem.
São mudanças importantes porque revelam uma transformação silenciosa: as plataformas deixaram de ser apenas canais de comunicação e passaram a ocupar um lugar central na arquitetura da informação eleitoral.
5. O perigo não está apenas na mentira
Existe uma questão ainda mais complexa.
O problema democrático não começa necessariamente quando alguém inventa uma informação. Pode começar quando uma informação verdadeira é retirada do contexto, apresentada de maneira parcial ou impulsionada artificialmente para atingir determinado público.
Um vídeo legítimo pode ser editado para produzir outra interpretação. Uma declaração antiga pode reaparecer como se fosse recente. Uma fala pode ser cortada antes ou depois da frase que lhe dá sentido.
Por isso, combater a desinformação não significa apenas perguntar: “Isso é falso?” Às vezes, a pergunta correta é: “O que está faltando aqui?”
6. O eleitor também virou parte do sistema
Há outro personagem nessa história que nenhuma regulamentação consegue substituir: o próprio usuário.
Cada compartilhamento ajuda a determinar o que outras pessoas verão. Cada comentário aumenta a circulação de determinado conteúdo. Cada clique fornece sinais aos sistemas de recomendação.
Em outras palavras, o eleitor não é apenas receptor da propaganda digital. Ele também pode se tornar seu distribuidor.
Isso não significa atribuir ao cidadão a responsabilidade exclusiva pelo ambiente informacional. Plataformas, partidos, candidatos, imprensa, autoridades e empresas de tecnologia possuem responsabilidades diferentes.
Mas existe uma responsabilidade individual que permanece indispensável: verificar antes de compartilhar.
Fonte desconhecida, título explosivo, vídeo sem contexto, áudio sem origem e imagem emocionalmente provocativa deveriam acender uma luz amarela.
Em uma eleição marcada pela inteligência artificial, desconfiar não é negar tudo. É pedir evidências.
7. A nova alfabetização eleitoral
Durante muito tempo, alfabetização política significou compreender instituições, partidos, cargos e propostas.
Em 2026, isso já não basta.
É preciso compreender também como funciona um algoritmo, reconhecer sinais de manipulação, identificar conteúdo sintético, procurar a origem de uma informação e distinguir opinião de fato.
A democracia digital exige uma espécie de alfabetização informacional.
Não é necessário ser especialista em tecnologia. É necessário desenvolver o hábito de perguntar: quem publicou? Quando? Com qual fonte? Há outras versões? O conteúdo foi alterado? Existe documento original?
São perguntas simples. Mas, em uma eleição hiperconectada, podem ter enorme valor.
8. A disputa pela verdade será também uma disputa pelo tempo
A grande questão de 2026 talvez não seja se a tecnologia será usada na política. Ela já é. A questão é quem conseguirá controlar o ritmo da informação.
A mentira pode ser instantânea. A investigação não é.
O conteúdo artificial pode ser produzido em segundos. A verificação pode levar horas.
A emoção cabe em uma postagem. O contexto pode exigir uma reportagem inteira.
Essa assimetria é um dos grandes desafios eleitorais da era da inteligência artificial.
9. A urna começa muito antes da urna
No dia 4 de outubro, mais de 155 milhões de brasileiros estarão aptos a votar no primeiro turno das eleições gerais de 2026. Serão escolhidos presidente, governadores, senadores e deputados federais, estaduais ou distritais. Se houver segundo turno, a votação ocorrerá em 25 de outubro. Mas a decisão não nascerá naquele domingo.
Ela será construída nos dias, semanas e meses anteriores — nas conversas familiares, nas manchetes, nos grupos de mensagens, nos vídeos curtos, nos podcasts, nas redes sociais, nos debates e, cada vez mais, nas respostas produzidas por sistemas de inteligência artificial.
A urna eletrônica continuará sendo o lugar onde o voto será registrado. Mas a formação da escolha terá acontecido muito antes.
Talvez seja essa a principal característica da eleição de 2026: a cabine de votação permanece física, mas a campanha eleitoral tornou-se permanentemente digital.
Por isso, antes de apertar o primeiro número na urna, haverá uma decisão ainda mais silenciosa: decidir em quem acreditar. E, na era dos algoritmos, essa pode ser a escolha mais difícil de todas.
Moisés Laureano de Santana é advogado, pós-graduado em Direito Público, Tributário e Eleitoral, com ampla e sólida experiência na Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro, atuando em diversos cargos de direção e chefia em instituições governamentais




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