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Barra Mansa,17/10/2026

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    Moisés Laureano de Santana

    BRASIL PÓS-1º TURNO:

    A DISPUTA PELO PAÍS QUE VIRÁ


    BRASIL PÓS-1º TURNO:

    BRASIL PÓS-1º TURNO: A DISPUTA PELO PAÍS QUE VIRÁ

    Por Moisés Laureano de Santana 

    Entre a continuidade e a mudança, o Brasil entra em uma nova etapa de sua história política. O resultado das urnas fortaleceu a direita no Congresso, manteve o país dividido na disputa presidencial e colocou economia, segurança, instituições, democracia e capacidade de governar no centro do futuro nacional.

    O Brasil acordou depois do primeiro turno das eleições de 2026 com uma certeza e muitas perguntas.

    A certeza é que a disputa presidencial ainda não terminou. Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltarão às urnas em 25 de outubro, depois de uma das eleições presidenciais mais equilibradas desde a redemocratização. Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%, uma diferença de apenas 1,87 ponto percentual. 

    A principal pergunta, porém, ultrapassa o nome do próximo presidente: que país sairá das urnas e que Brasil será possível governar a partir de 2027?

    O resultado do primeiro turno oferece algumas pistas. E elas apontam para um país politicamente mais conservador, socialmente dividido, economicamente pressionado e diante de uma agenda de transformação que não poderá ser adiada.

    1. O eleitor não entregou um cheque em branco

    O primeiro dado político relevante é que nenhum dos dois principais candidatos recebeu autorização eleitoral para governar sozinho.

    Flávio Bolsonaro chegou à frente, mas não alcançou a maioria absoluta. Lula ficou logo atrás. O eleitorado, portanto, produziu uma eleição de dois turnos em sua forma mais clássica: agora, cada voto terá peso ainda maior, e os candidatos precisarão conquistar parcelas do eleitorado que não estavam integralmente em suas bases.

    A eleição também revelou a força extraordinária do campo conservador.

    O PL tornou-se a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, enquanto a federação PT-PCdoB-PV terá 88. No Senado, o PL elegeu 19 dos 54 senadores em disputa e chegará a 2027 com 28 integrantes. Isso muda profundamente o jogo.

    Mesmo que Lula vença a Presidência, terá diante de si um Congresso muito mais conservador. Se Flávio Bolsonaro vencer, por outro lado, poderá encontrar um ambiente legislativo potencialmente mais favorável à sua agenda, embora isso não signifique apoio automático: partidos de centro continuarão tendo peso decisivo.

    Em outras palavras, o segundo turno escolherá o presidente, mas o primeiro turno já escolheu boa parte do Congresso que condicionará seu governo.

    2. O novo poder do Congresso

    Durante anos, o debate político brasileiro foi excessivamente concentrado no Palácio do Planalto. O resultado de 2026 mostra que essa leitura ficou incompleta.

    A próxima legislatura terá um Congresso com forte presença da direita. Na Câmara, 121 deputados do PL representam a maior bancada de um único partido desde a redemocratização. Ao mesmo tempo, União Brasil, PSD, PP, Republicanos e MDB continuarão relevantes para formar maiorias. 

    Isso significa que o chamado centro político não desapareceu. Ele mudou de posição.

    O próximo governo, qualquer que seja o vencedor, terá de negociar. Orçamento, reforma administrativa, segurança pública, tributação, infraestrutura, saúde, educação e mudanças constitucionais dependerão de acordos no Legislativo.

    A grande diferença é que negociar será ainda mais necessário e governar por confronto poderá custar caro.

    O Brasil poderá experimentar uma nova fase de presidencialismo de coalizão, mas com uma característica adicional: uma oposição mais numerosa, organizada e ideologicamente mobilizada.

    3. Economia: o verdadeiro teste começa depois da eleição

    É na economia, contudo, que a política encontrará seu limite mais concreto.

    O próximo presidente herdará uma economia que apresenta capacidade de crescimento, mercado de trabalho resistente e forte inserção no comércio internacional, mas também enfrentará uma dívida pública elevada, custo financeiro expressivo e necessidade permanente de credibilidade fiscal.

    A Dívida Pública Federal chegou a R$ 9,29 trilhões em agosto de 2026, segundo o Tesouro Nacional. O custo médio acumulado em 12 meses alcançou 12,59% ao ano, enquanto os títulos remunerados por taxa flutuante representaram 52,74% da dívida, maior participação da série histórica iniciada em 2000. 

    O número, sozinho, não determina uma crise. Mas revela o tamanho do desafio.

    O próximo governo precisará responder a uma equação delicada: como financiar políticas públicas, investimentos e programas sociais sem deteriorar a confiança fiscal e pressionar ainda mais juros, inflação e dívida?

    Esse será um dos grandes temas do período 2027-2030.

    A reforma tributária acrescentará outra camada de complexidade. O país já entrou na fase de preparação operacional do novo sistema, cuja transição se estenderá até 2033. A CBS e o IBS começam a alterar gradualmente a estrutura tributária brasileira, com mudanças profundas para empresas, consumidores, estados e municípios. 

    Portanto, independentemente do vencedor, o próximo governo não começará diante de uma folha em branco. Começará em meio a uma reforma estrutural que já está em andamento.

    4. Emprego, renda e desigualdade: a política que chega à vida real

    Para a maioria da população, entretanto, o debate econômico não começa na dívida pública ou na curva de juros. Começa no supermercado. Começa no aluguel, na prestação da casa, no preço dos medicamentos, no transporte, na conta de luz, no salário e na possibilidade de conseguir um emprego melhor.

    Por isso, o principal desafio social do próximo ciclo será transformar crescimento econômico em mobilidade social.

    O Brasil continuará convivendo com uma contradição histórica: é uma das maiores economias do mundo, possui recursos naturais extraordinários e um setor empresarial sofisticado, mas ainda apresenta profundas desigualdades regionais, sociais e educacionais.

    O governo que conseguir combinar responsabilidade fiscal com aumento de produtividade, investimento e geração de renda poderá construir uma agenda de longo prazo.

    O que tentar resolver tudo apenas por gasto público ou, no extremo oposto, apostar exclusivamente na redução do Estado poderá produzir resultados insuficientes. O desafio será encontrar equilíbrio.

    5. Segurança pública: menos slogan, mais inteligência

    A segurança pública será outro eixo central dos próximos anos.

    Os dados mostram um cenário contraditório. O Brasil registrou em 2025 a menor taxa de mortes violentas intencionais desde o início da série histórica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mas, simultaneamente, houve aumento de diferentes formas de violência contra mulheres, crianças e adolescentes e crescimento dos crimes digitais. Isso muda a natureza do problema.

    O crime organizado não é mais apenas uma questão de tráfico de drogas ou disputa territorial. Ele envolve lavagem de dinheiro, mercados ilegais, corrupção, fronteiras, portos, tecnologia e infiltração na economia formal.

    Ao mesmo tempo, golpes digitais passaram a fazer parte do cotidiano de milhões de brasileiros.

    O próximo ciclo exigirá, portanto, uma política de segurança que combine policiamento, investigação, inteligência, integração entre União e estados, controle financeiro das organizações criminosas e prevenção social.

    A disputa ideológica entre “mais polícia” e “mais prevenção” tende a ser insuficiente. O país precisa de ambos, mas com estratégia e avaliação de resultados.

    6. Saúde e educação: o teste silencioso dos governos

    Na saúde, o grande desafio continuará sendo transformar o tamanho do SUS em qualidade percebida pelo cidadão.

    Filas, consultas especializadas, exames, atendimento de emergência, medicamentos, saúde mental e envelhecimento da população estarão entre os principais problemas.

    Na educação, o Brasil terá de enfrentar uma questão ainda mais estrutural: a qualidade do ensino básico determinará a produtividade econômica das próximas décadas.

    A disputa política poderá continuar girando em torno de modelos pedagógicos e ideologias. Entretanto, a realidade exigirá resultados mensuráveis: alfabetização, aprendizagem, redução da evasão, formação profissional, ensino técnico e adaptação à economia digital.

    O país que não educar sua população para a nova economia ficará dependente de empregos de menor produtividade.

    7. Meio ambiente: de bandeira política a ativo econômico

    O meio ambiente também ganhará importância estratégica. O Brasil conseguiu reduzir os alertas de desmatamento na Amazônia em 36% no ciclo de agosto de 2025 a julho de 2026, chegando ao menor resultado da série histórica do Deter para o período. O desafio agora é transformar esse avanço em política permanente.

    A Amazônia, o Cerrado, a matriz energética, o mercado de carbono, a bioeconomia e os minerais estratégicos não serão apenas temas ambientais. Serão temas de comércio exterior, investimentos, segurança nacional e desenvolvimento.

    O mundo está entrando em uma economia em que energia limpa, minerais críticos, tecnologia e segurança alimentar terão valor crescente.

    O Brasil possui vantagens competitivas extraordinárias. A questão será saber se conseguirá transformá-las em empregos, inovação e renda sem destruir os próprios recursos que lhe conferem vantagem.

    8. Um país entre Washington, Pequim e seus próprios interesses

    Na política externa, o Brasil também terá de navegar em águas mais turbulentas.

    A relação com os Estados Unidos continuará estratégica. A China permanecerá indispensável para o comércio brasileiro. O Mercosul seguirá sendo relevante. E os BRICS continuarão oferecendo ao país uma plataforma de atuação internacional.

    A balança comercial mostra a dimensão dessa realidade: em setembro de 2026, as exportações brasileiras cresceram 12,9% sobre o mesmo mês do ano anterior, enquanto o país acumulava superávit comercial de US$ 62,4 bilhões no ano. 

    O próximo governo terá de evitar uma armadilha: transformar política externa em extensão da polarização interna.

    O interesse brasileiro exige pragmatismo.

    O país precisa vender para a China, dialogar com os Estados Unidos, fortalecer o Mercosul, atrair investimentos, defender seus interesses nos organismos multilaterais e, ao mesmo tempo, ampliar sua autonomia estratégica.

    9. Democracia: o desafio que não termina com a urna

    Há ainda uma dimensão menos visível, mas talvez decisiva: a reconstrução da confiança.

    Durante o primeiro turno, uma falha temporária na divulgação nacional dos resultados alimentou nas redes sociais alegações falsas de fraude. O TSE esclareceu que o problema afetou a visualização dos dados, não a apuração nem a totalização dos votos. 

    O episódio é um alerta.

    A democracia brasileira não será testada apenas pela existência das eleições. Será testada pela capacidade de uma parcela da sociedade aceitar resultados desfavoráveis, pela disposição dos vencedores de respeitar limites institucionais e pela capacidade das instituições de explicar suas decisões com transparência.

    A inteligência artificial acrescentará uma dificuldade inédita.

    Deepfakes, áudios falsos, vídeos manipulados e campanhas automatizadas poderão tornar cada vez mais difícil distinguir informação de fabricação política. O próprio TSE estabeleceu regras específicas para conteúdos produzidos ou alterados por IA nas eleições de 2026. 

    Nos próximos anos, educação midiática e confiança institucional serão tão importantes quanto urnas e leis.

    10. O que pode acontecer depois de 25 de outubro?

    Existem, essencialmente, dois grandes cenários.

    Se Lula vencer, terá de governar diante de um Congresso mais conservador e de uma oposição fortalecida. Sua capacidade de articulação política será decisiva. O desafio será combinar políticas sociais e desenvolvimento com disciplina fiscal e construir uma relação funcional com o Legislativo.

    Se Flávio Bolsonaro vencer, assumirá com uma correlação de forças legislativas potencialmente mais favorável, mas herdará a mesma economia, os mesmos problemas sociais e as mesmas instituições. Terá de transformar a força eleitoral da direita em capacidade administrativa e estabilidade política.

    Nos dois casos, existe uma verdade que a polarização costuma esconder: o presidente não governa sozinho.

    Estados e municípios terão papel decisivo. O Congresso controlará parte relevante da agenda. O Judiciário continuará exercendo funções importantes. O setor privado será fundamental para investimento e emprego. E a sociedade civil terá papel crescente na fiscalização.

    11. O Brasil que emerge das urnas

    O primeiro turno de 2026 não produziu simplesmente dois finalistas. Produziu um novo mapa político.

    A direita saiu fortalecida. O PL tornou-se protagonista nacional. O PT preservou uma base robusta, especialmente em parte do Nordeste. O centro continua necessário para formar maiorias. E os governos estaduais ficaram distribuídos entre diferentes forças políticas, confirmando que o Brasil não cabe em uma única fotografia ideológica. 

    Também ficou evidente que a política brasileira entrou definitivamente em uma era de competição permanente.

    A eleição de 2026 já influencia 2030. Novas lideranças surgiram. Outras desapareceram. Governadores ganharam projeção nacional. Parlamentares passaram a ter força própria nas redes sociais. E o eleitor parece cada vez menos disposto a entregar fidelidade permanente a uma única legenda.

    12. Conclusão: mais do que escolher um presidente

    O segundo turno definirá quem ocupará o Palácio do Planalto. Mas não definirá sozinho o futuro do Brasil.

    O país que começa a se desenhar depois do primeiro turno será moldado pela combinação entre Presidência, Congresso, governos estaduais, economia, sociedade e instituições.

    O próximo presidente terá diante de si uma sociedade cansada da polarização, mas ainda profundamente mobilizada por ela; uma economia com potencial, porém limitada por desafios fiscais; um sistema de segurança que precisa responder tanto ao crime tradicional quanto ao digital; uma educação que precisa elevar produtividade; uma saúde pressionada; uma agenda ambiental que pode se transformar em vantagem econômica; e uma democracia que precisará recuperar, todos os dias, a confiança de seus cidadãos.

    O Brasil não está diante de uma escolha simples entre passado e futuro. Está diante da escolha sobre como construir o futuro a partir de um passado que continua presente.

    A eleição termina nas urnas. O trabalho de governar começa no dia seguinte.

    E, qualquer que seja o vencedor em 25 de outubro, a pergunta mais importante permanecerá a mesma: o Brasil conseguirá transformar sua extraordinária capacidade de sobreviver às crises em capacidade de planejar, crescer e construir um projeto nacional de longo prazo? Essa resposta não estará apenas nas mãos do próximo presidente. Estará nas instituições, no Congresso, nos governos locais, no setor produtivo e, sobretudo, na capacidade da sociedade brasileira de substituir a guerra permanente de narrativas pela disputa concreta por resultados.


    Moisés Laureano de Santana é advogado, pós-graduado em Direito Público, Tributário e Eleitoral, com ampla e sólida experiência na Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro, atuando em diversos cargos de direção e chefia em instituições governamentais 




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