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Barra Mansa,29/09/2026

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    Marcelo Soares

    Educação, Movimento e Saberes Ancestrais:

    A Escola como Território de Inclusão e Pluralidade


    Educação, Movimento e Saberes Ancestrais:

    Educação, Movimento e Saberes Ancestrais: A Escola como Território de Inclusão e Pluralidade

    ​Por Prof. Marcelo Soares

    Professor de Educação Física, Especialista em Psicomotricidade e Pioneiro do Korfebol no Brasil

    ​A escola pública contemporânea enfrenta o desafio diário de transcender os limites curriculares tradicionais e se consolidar como um espaço vivo de cidadania, acolhimento e reconhecimento histórico. Na Escola Municipal Expedicionário Aquino de Araújo, em Duque de Caxias (RJ), essa premissa ganhou materialidade e potência pedagógica por meio do projeto "Saberes e Cultura dos Povos Originários do Brasil: Diálogos que constroem uma educação mais justa e plural".  

    ​A iniciativa, idealizada e coordenada pelo Professor Leandro Azevedo, transformou as dependências escolares em um verdadeiro itinerário formativo e cultural. A acolhida institucional liderada pela diretora Jaqueline Pacheco, ao lado do corpo docente e dos funcionários, assegurou a infraestrutura e a sensibilidade necessárias para que estudantes e a comunidade escolar mergulhassem nas raízes mais profundas da identidade brasileira.  

    ​O Corpo em Movimento: Psicomotricidade e as Brincadeiras Indígenas

    ​Na condição de Professor da Casa e especialista em Psicomotricidade, coube-me conduzir as vivências corporais estruturadas a partir das brincadeiras tradicionais dos povos originários. Longe de constituírem meros passatempos desprovidos de intencionalidade, os jogos indígenas representam sistemas complexos de transmissão cultural, desenvolvimento psicomotor e socialização.  

    ​A prática das atividades revelou dimensões essenciais da motricidade humana:  

    ​Consciência corporal e equilíbrio dinâmico: vivenciados em dinâmicas de deslocamento e agilidade inspiradas em práticas de caça e rastreamento;  

    ​Coordenação óculo-manual e precisão: trabalhadas no manuseio lúdico de arcos, flechas e arremessos, demandando tônus muscular controlado e foco atencional;  

    ​Ritmo, percepção auditiva e esquema corporal: estimulados pelo uso de instrumentos rituais como maracás e chocalhos, conectando pulsação rítmica ao movimento coletivo;  

    ​Cooperação e convivência pacífica: o brincar comunitário indígena não prioriza a eliminação do outro, mas a integração do indivíduo ao grupo, lição basilar para a redução de conflitos em ambiente escolar. 

    ​Essa articulação prática demonstra que a educação psicomotora ganha solidez quando integrada à valorização da ancestralidade, permitindo à criança compreender o próprio corpo enquanto sujeito histórico e cultural.  

    ​A Sinergia com o Korfebol: Equidade e Cooperação

    ​A reflexão sobre os jogos ancestrais conecta-se diretamente com a trajetória de mais de duas décadas de implementação do Korfebol no Brasil. Criada para romper paradigmas no cenário esportivo mundial, a modalidade baseia-se na exigência estatutária de equipes mistas (quatro homens e quatro mulheres em campo), na ausência de contato físico desleal e na impossibilidade de avanço individual com a bola.  

    ​No Korfebol, assim como na cosmovisão originária, a individualidade está a serviço do coletivo. Nenhum ponto é convertido sem a cooperação ativa, a escuta tática e o respeito às capacidades de cada integrante do time. As brincadeiras indígenas e o Korfebol convergem no mesmo ponto: provam que o esporte escolar deve educar para a igualdade de gênero, a empatia e a construção de ambientes livres de violência.  

    ​Presenças que Inspiram: Ancestralidade Viva no Espaço Escolar

    ​O projeto destacou-se ainda pela riqueza das mostras temáticas — abrangendo artefatos, cestarias, grafismos, etnobotânica, língua guarani e a memória arqueológica dos sambaquis litorâneos —, bem como pela participação direta de lideranças dos povos originários.  

    ​Rendemos as mais sinceras homenagens a:

    ​Ana Maria Kariri, cuja presença marcante, altivez e generosidade no repasse oral de saberes emocionaram alunos e educadores, demonstrando o protagonismo feminino na salvaguarda das memórias e territórios indígenas;  

    ​Simba Kariri, comunicador e jovem liderança de destacada articulação socioeducativa no estado do Rio de Janeiro, que conduziu diálogos fundamentais sobre superação de estereótipos, resistência e a urgência de uma sociedade antirracista.  

    ​Conclusão: Por uma Educação Descolonizadora

    ​A experiência vivida na E.M. Expedicionário Aquino de Araújo reforça que cumprir a Lei nº 11.645/08 vai além do cumprimento de uma exigência legal: é um compromisso ético com a formação humana. Quando a escola abre suas portas para a ancestralidade viva e coloca o corpo para aprender através do jogo cooperativo, ela rompe com a passividade e cumpre a máxima freiriana expressa nos murais do evento: transforma as pessoas que irão transformar o mundo.  

    ​O Portal e a Web Rádio Komunic@ registram e celebram essa iniciativa como um exemplo paradigmático de inovação pedagógica, rigor metodológico e respeito à diversidade cultural brasileira.



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