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Barra Mansa,17/10/2026

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    Moisés Laureano de Santana

    A campanha termina. A escolha começa

    Entre promessas, dúvidas, esperanças e urgências, o eleitor chega à reta final de uma eleição que será decidida muito além dos palanques


    A campanha termina. A escolha começa

    A campanha termina. A escolha começa

    Por Moisés Laureano de Santana 

    Entre promessas, dúvidas, esperanças e urgências, o eleitor chega à reta final de uma eleição que será decidida muito além dos palanques

    Durante semanas, o Brasil foi atravessado por discursos, debates, propagandas, pesquisas, acusações, promessas e disputas nas redes sociais. Candidatos falaram. Marqueteiros criaram slogans. Militantes defenderam posições. Influenciadores comentaram. As redes amplificaram certezas e também espalharam dúvidas.

    Agora, a campanha entra em sua reta final.

    E talvez seja justamente quando os discursos começam a silenciar que a eleição fique mais interessante.

    Porque, depois de tudo o que foi dito, permanece a pergunta essencial: o que o eleitor fará com tudo aquilo que ouviu?

    No próximo domingo, 4 de outubro, 158.745.463 brasileiras e brasileiros estarão aptos a votar no primeiro turno das Eleições Gerais de 2026. Serão seis escolhas diante da urna: presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital. São milhões de pessoas. Milhões de histórias. Milhões de critérios diferentes. E é nessa diversidade que a democracia revela sua complexidade.

     1. A eleição que existe fora do palanque

    Há um Brasil que acompanha atentamente cada debate. Há outro que mal consegue acompanhar a campanha porque precisa trabalhar, cuidar dos filhos, enfrentar longos deslocamentos ou resolver problemas que não podem esperar o resultado das urnas. Para esse eleitor, a política não termina na televisão. Ela começa no preço do supermercado. Está no aluguel, no salário, no emprego, na qualidade do transporte, na segurança para voltar para casa, na consulta médica que precisa ser marcada, na vaga da escola, na rua que espera pavimentação, no esgoto que ainda corre a céu aberto, na dificuldade de abrir ou manter um pequeno negócio. É nesse território cotidiano que muitas decisões eleitorais são construídas.

    O jovem que votará pela primeira vez pode olhar para a eleição e enxergar uma porta de entrada para o futuro. Quer saber se encontrará oportunidades, educação, emprego e condições para construir a própria vida.

    O trabalhador pode chegar à urna pensando em renda, estabilidade, inflação, serviços públicos e condições de trabalho.

    O empreendedor talvez esteja mais atento ao crédito, à carga tributária, ao consumo, à burocracia e à capacidade de manter seu negócio funcionando.

    Na periferia, as prioridades podem ser ainda mais imediatas: segurança, transporte, saneamento, saúde, educação e oportunidade.

    Para quem envelheceu, outras questões podem ganhar peso: aposentadoria, atendimento médico, medicamentos, segurança e qualidade de vida.

    Nenhum desses eleitores está necessariamente errado por enxergar a eleição a partir de uma realidade diferente.

    Eles apenas vivem o país a partir de lugares diferentes.

    O eleitor não é uma estatística

    É fácil transformar uma eleição em números.

    Pesquisas têm percentuais. Partidos têm votos. Candidaturas têm índices. Redes sociais produzem milhões de visualizações.

    Mas nenhuma porcentagem revela completamente a pessoa que está por trás dela.

    O eleitor não cabe em uma planilha.

    Existe uma mãe que pensa no futuro dos filhos. Um trabalhador que quer preservar o emprego. Um jovem que deseja a primeira oportunidade. Um aposentado preocupado com a saúde. Uma comerciante tentando fechar as contas. Um morador que deseja voltar para casa sem medo. Um estudante que ainda procura seu lugar no mundo.

    Existe também aquele eleitor que mudou de opinião.

    E essa talvez seja uma das dimensões mais importantes — e menos compreendidas — de uma eleição.

    Mudar de posição não significa necessariamente falta de convicção. Pode significar que uma informação nova apareceu, que uma experiência pessoal mudou uma percepção, que uma proposta foi reconsiderada ou simplesmente que o eleitor passou a enxergar determinado problema por outro ângulo.

    Da mesma forma, permanecer na própria escolha também pode ser resultado de reflexão.

    A democracia não exige que todos pensem da mesma maneira.

    Exige que diferentes pessoas possam escolher.

    Quando a informação vira disputa

    Há, entretanto, um desafio adicional nesta eleição: decidir em meio a um ambiente informacional cada vez mais veloz.

    Uma mensagem chega pelo celular. Um vídeo aparece nas redes. Uma frase é recortada. Uma imagem circula. Um áudio é compartilhado milhares de vezes. Em poucos minutos, uma afirmação pode alcançar uma multidão antes mesmo que alguém tenha tempo de verificar sua origem.

    Em 2026, a inteligência artificial acrescentou uma camada inédita a esse cenário. As regras eleitorais estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral exigem identificação explícita de conteúdos sintéticos produzidos ou significativamente alterados por IA e estabelecem restrições específicas para esse tipo de material no período próximo à votação. A Justiça Eleitoral também mantém mecanismos de enfrentamento à desinformação.

    Isso impõe ao eleitor uma responsabilidade que não aparece na tela da urna: antes de decidir, verificar.

    Não compartilhar automaticamente. Não confundir viralização com verdade. Não transformar uma mensagem recebida em fato apenas porque ela confirma aquilo que já se acreditava.

    Em uma eleição marcada por excesso de informação, talvez uma das atitudes mais difíceis seja parar por alguns segundos e perguntar:

    De onde veio isso? Quem está dizendo? Há evidências? O contexto foi preservado?

    Essa pausa também é uma forma de participação democrática.

    O fim da campanha não é o fim da política

    Existe uma tentação de imaginar que a eleição termina quando as urnas forem fechadas.

    Não termina.

    O voto encerra uma etapa e começa outra.

    Depois da disputa, virão governos, parlamentos, decisões administrativas, leis, orçamentos, políticas públicas e cobranças. Virão acertos e erros. Promessas cumpridas e promessas que precisarão ser cobradas.

    É por isso que votar não deveria ser entendido apenas como escolher alguém.

    É também escolher quais questões merecem atenção.

    Qual problema deve ser enfrentado primeiro? Que proposta parece mais consistente? Que compromisso é verificável? Que trajetória pública merece ser examinada? Que informações são fatos e quais são apenas argumentos de campanha?

    São perguntas diferentes para pessoas diferentes.

    E justamente por isso não existe uma fórmula única para a escolha.

    A urna é silenciosa. A sociedade, não.

    No domingo, cada eleitor estará sozinho diante da urna.

    Não haverá debate, palanque, comentarista, militante ou influenciador dentro da cabine. Haverá apenas uma pessoa diante de uma decisão.

    Esse instante tem algo de silencioso e extraordinário.

    Do lado de fora, uma sociedade inteira é feita de diferenças. Dentro da cabine, cada cidadão exerce a mesma prerrogativa eleitoral.

    É um dos momentos em que a ideia abstrata de democracia ganha rosto.

    A mulher que atravessou a cidade para trabalhar. O jovem que estreia no voto. O trabalhador que conhece o peso de cada real no fim do mês. O empresário que teme pelo futuro do negócio. O morador da periferia que quer segurança e serviços públicos. O aposentado que espera atendimento digno. O eleitor que ainda não decidiu. O eleitor que já decidiu e não pretende mudar.

    Todos entram na mesma fila.

    Todos encontram a mesma urna.

    Todos fazem suas escolhas.

    E é justamente aí que a eleição se torna maior do que a campanha.

    Depois do voto, vem a cobrança

     A campanha é, por natureza, o momento da promessa.

    A democracia, porém, é muito maior do que a promessa.

    Ela continua quando o eleitor deixa a seção eleitoral. Continua quando o resultado é anunciado. Continua quando os eleitos assumem. Continua quando uma política pública precisa sair do papel. Continua quando uma decisão afeta o preço, o emprego, a escola, o hospital, a segurança ou a vida cotidiana.

    Por isso, talvez a pergunta mais importante desta semana não seja apenas “em quem votar?”

    Pode ser também:

    “Que país espero encontrar depois da eleição — e o que estou disposto a fazer para acompanhá-lo, fiscalizá-lo e participar dele?”

    A resposta pertence a cada eleitor.

    A escolha começa agora

    No dia 4 de outubro, o Brasil não colocará apenas números na urna. Colocará nela expectativas, memórias, preocupações, esperanças, experiências e visões diferentes sobre o futuro.

    A campanha termina.

    Os palanques se desmontam. Os jingles desaparecem. As bandeiras são recolhidas. As redes sociais encontrarão novos assuntos.

    Mas a vida real continuará.

    E será nela que as escolhas feitas nas urnas serão testadas.

    Por isso, talvez o verdadeiro encerramento da campanha não aconteça quando o último discurso terminar. Ele acontece quando o eleitor percebe que não precisa carregar para a cabine a voz mais alta, a propaganda mais bonita ou o argumento mais compartilhado.

    Pode carregar perguntas.

    Pode carregar dúvidas.

    Pode carregar convicções.

    Pode, sobretudo, carregar a responsabilidade de decidir por si mesmo.

    Porque uma eleição não é apenas o momento em que alguém pede um voto.

    É o momento em que uma sociedade inteira decide, de maneiras diferentes, que futuro está disposta a construir — e, depois, a cobrar.

    A campanha termina.

    A escolha começa.

    Moisés Laureano de Santana é advogado, pós-graduado em Direito Público, Tributário e Eleitoral, com ampla e sólida experiência na Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro, atuando em diversos cargos de direção e chefia em instituições governamentais 


     

     



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