Moisés Laureano de Santana
Depois de 4 de outubro: que Brasil sairá das urnas?
A eleição passa, mas o Brasil permanece.
Depois de 4 de outubro: que Brasil sairá das urnas?
Por Moisés Laureano de Santana
Mais do que apontar vencedores e derrotados, o primeiro turno das eleições de 2026 deixará um retrato das prioridades, das expectativas e das divisões de um país que continuará enfrentando desafios econômicos, sociais e institucionais
A eleição passa, mas o Brasil permanece.
Depois de 4 de outubro, quando os votos do primeiro turno forem contabilizados, o país terá novos sinais sobre os rumos que a sociedade deseja para os próximos anos. O resultado definirá quem avançará na disputa presidencial e quais forças políticas ganharão espaço no Congresso, nos governos estaduais e nas assembleias legislativas.
Mas há uma pergunta maior do que saber quem venceu ou quem perdeu: que Brasil emerge das urnas e quais serão as consequências dessas escolhas para a vida dos brasileiros?
A resposta não estará apenas nos percentuais de votação. Ela poderá ser encontrada também na composição do Legislativo, nas prioridades apresentadas pelos eleitores e na capacidade dos futuros governantes de transformar promessas em políticas públicas.
1. O voto não termina na urna
Uma eleição é um momento decisivo da democracia, mas não é o ponto final da política.
O presidente eleito precisará negociar com o Congresso. Governadores dependerão das assembleias legislativas. Estados e municípios continuarão responsáveis por uma parcela importante das políticas públicas. E decisões nacionais terão de considerar diferenças profundas entre regiões, cidades e grupos sociais.
Por isso, o resultado de 4 de outubro deverá ser observado em várias dimensões.
A primeira será a disputa presidencial. A segunda, a formação do Congresso. A terceira, os governos estaduais. E a quarta, talvez a mais importante para o cidadão, será a capacidade de transformar essas escolhas em resultados concretos.
O Tribunal Superior Eleitoral mantém a apuração e a totalização como processos públicos, com divulgação dos resultados a partir das 17h, no horário de Brasília.
2. Um país que cobra respostas concretas
O eleitor brasileiro chega a esta eleição diante de uma agenda extensa.
Saúde, segurança pública, educação, emprego, inflação, impostos, infraestrutura, habitação, meio ambiente e custo de vida estão entre os temas que exigem decisões de curto, médio e longo prazo.
Não por acaso, especialistas ouvidos pela Câmara dos Deputados apontam educação, segurança, saúde mental, agronegócio e meio ambiente como alguns dos assuntos que deverão exigir atenção dos próximos governantes e parlamentares.
Na saúde, por exemplo, existe uma distância importante entre apresentar uma proposta e conseguir executá-la. Um levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde mostrou que 95% das propostas de saúde analisadas nos planos de governo dos principais presidenciáveis exigem recursos adicionais, e muitas não especificam claramente a fonte de financiamento.
Esse é um ponto essencial para o eleitor acompanhar depois da eleição: não basta saber o que foi prometido; será necessário observar como será pago, executado e fiscalizado.
3. A economia será um dos grandes testes
O próximo governo encontrará uma economia que combina avanços e desafios.
O Banco Central reduziu para 1,8% sua projeção de crescimento do PIB brasileiro em 2026. O mesmo relatório apontou que a inflação acumulada em 12 meses havia recuado para 4,22% em agosto, mas permanecia acima da meta de 3%. A autoridade monetária também destacou a desaceleração da atividade econômica, embora o mercado de trabalho permanecesse aquecido.
O cenário exige equilíbrio.
De um lado, o país precisa crescer, gerar empregos, ampliar investimentos e aumentar a produtividade. De outro, precisa controlar a inflação e preservar a sustentabilidade das contas públicas.
O desafio está justamente na combinação desses objetivos.
Uma política econômica que estimule a atividade sem considerar seus efeitos sobre preços e contas públicas pode produzir desequilíbrios. Da mesma forma, um ajuste excessivamente concentrado na contenção de despesas pode afetar investimentos e serviços essenciais.
Por isso, o debate pós-eleitoral deverá ser menos sobre slogans e mais sobre prioridades, números, fontes de financiamento e capacidade de execução.
4. O bolso continuará sendo a medida mais sensível
Para milhões de brasileiros, a avaliação do novo ciclo político será feita longe dos palácios e gabinetes.
Será feita no supermercado.
Será percebida no preço do aluguel, da energia, do combustível, do transporte, dos medicamentos e dos serviços. Será sentida também na facilidade — ou dificuldade — de conseguir crédito, abrir um negócio, encontrar emprego ou aumentar a renda.
As expectativas do mercado divulgadas no fim de setembro projetavam inflação de 4,99% para 2026 e crescimento de 1,86% para o PIB.
Essas projeções não são resultados inevitáveis. São expectativas que podem mudar conforme a economia, as decisões do governo e as condições externas evoluem.
Ainda assim, revelam a dimensão do desafio: o próximo ciclo político precisará administrar uma economia na qual crescimento, inflação, juros e equilíbrio fiscal estarão profundamente conectados.
5. Segurança pública: entre a urgência e a estratégia
Poucos temas provocam tanta sensação de urgência quanto a segurança.
O cidadão quer poder trabalhar, estudar, circular e voltar para casa com segurança. Entretanto, combater a criminalidade exige mais do que respostas imediatas.
O enfrentamento das organizações criminosas, a investigação policial, o sistema penitenciário, o controle de fronteiras, a prevenção, a inteligência e a integração entre União e estados fazem parte de um problema que não respeita fronteiras administrativas.
A experiência mostra que nenhuma esfera de governo resolve sozinha uma questão dessa dimensão.
Assim, uma das perguntas para o período pós-eleitoral será se haverá capacidade política para transformar a preocupação legítima da população em políticas coordenadas, permanentes e avaliáveis.
6. Saúde e educação: resultados que levam tempo
Na educação, o desafio é ainda mais evidente.
Uma criança que entra hoje na escola não pode esperar uma década para que decisões políticas produzam resultados. Ao mesmo tempo, políticas educacionais consistentes exigem continuidade e planejamento de longo prazo.
Alfabetização, aprendizagem, formação de professores, ensino técnico, acesso ao ensino superior e preparação para as novas profissões precisam ser tratados como política de Estado, e não apenas como promessa de campanha.
Na saúde, o cenário é semelhante. Reduzir filas, ampliar atendimento, melhorar a atenção básica, fortalecer a prevenção e garantir medicamentos dependem de financiamento, gestão e integração entre União, estados e municípios.
São áreas em que mudanças reais raramente acontecem por decreto.
7. O Congresso será tão importante quanto o Planalto
Um dos maiores equívocos do debate eleitoral é imaginar que o presidente governa sozinho.
Não governa.
Deputados e senadores aprovam leis, discutem o orçamento, fiscalizam o Executivo e participam das decisões que definem o funcionamento do Estado.
Portanto, a composição do Congresso será fundamental para compreender o Brasil que surgirá das urnas.
Um governo pode ter um programa ambicioso, mas precisará construir maioria política para aprovar determinadas medidas. Da mesma maneira, um Congresso fragmentado pode aumentar a necessidade de negociação.
Isso não significa que negociação seja sinônimo de concessão indevida. Em uma democracia, diferentes interesses precisam conviver dentro das regras institucionais.
O desafio está em distinguir diálogo político legítimo de práticas que comprometam a transparência, a responsabilidade pública ou o interesse coletivo.
8. Meio ambiente e clima entram definitivamente na agenda
O Brasil também enfrentará uma agenda ambiental cada vez mais relevante.
Eventos climáticos extremos, produção agrícola, segurança hídrica, energia, infraestrutura e preservação ambiental estão relacionados.
Uma pesquisa divulgada em setembro mostrou que 91% dos brasileiros consideram importante que candidatos tratem da questão climática, embora o tema ainda apareça atrás de outras prioridades no debate eleitoral.
O desafio será conciliar desenvolvimento econômico e proteção ambiental sem transformar a discussão em uma falsa escolha entre crescimento e preservação.
O Brasil possui uma posição estratégica nessa área. Agricultura, energia, biodiversidade e transição energética podem representar tanto desafios quanto oportunidades econômicas.
9. Democracia: o teste continua depois da apuração
Existe ainda uma dimensão que nenhum indicador econômico consegue medir sozinho: a qualidade da convivência democrática.
Depois da divulgação dos resultados, será necessário respeitar as regras, reconhecer os resultados oficiais, preservar as instituições e manter o direito à divergência.
A disputa eleitoral pode ser intensa. O país, entretanto, continuará pertencendo a todos.
Isso significa que eleitores de diferentes posições políticas continuarão compartilhando escolas, hospitais, cidades, estradas, empresas, espaços públicos e o mesmo futuro nacional.
O desafio democrático será transformar divergências em debate institucional, e não em ruptura permanente.
10. O que as urnas realmente podem mudar?
As urnas podem mudar governos, bancadas e prioridades. Não podem, sozinhas, resolver problemas estruturais.
O Brasil continuará tendo desigualdades regionais, desafios fiscais, déficits de infraestrutura e demandas sociais depois da eleição.
Por isso, o resultado eleitoral deve ser entendido como o início de uma nova etapa, e não como a solução automática para os problemas nacionais.
A partir daí, será preciso acompanhar o cumprimento das promessas, a execução do orçamento, as decisões legislativas, os indicadores econômicos e sociais e a qualidade das políticas públicas.
O eleitor que vota exerce sua responsabilidade. O cidadão que acompanha, fiscaliza e cobra também.
11. Que Brasil sairá das urnas?
Talvez a resposta mais honesta seja: ainda não será possível saber completamente no dia seguinte.
As urnas revelarão uma escolha política. Os meses e anos seguintes mostrarão o que será feito com ela.
O Brasil que sairá de 4 de outubro será, portanto, resultado de uma combinação de fatores: o voto popular, a composição do Congresso, os governos estaduais, a situação econômica, a capacidade administrativa, o ambiente internacional e, sobretudo, as decisões tomadas depois da eleição.
Mais do que procurar um vencedor absoluto, será necessário compreender os sinais deixados pelo eleitorado.
Que prioridades foram escolhidas? Que propostas ganharam força? Quais problemas continuam sem resposta? Que compromissos serão transformados em políticas públicas? E quais promessas enfrentarão as limitações do orçamento e da realidade?
Essas perguntas serão mais importantes do que a celebração de uma noite eleitoral.
Porque, quando as urnas forem fechadas e os discursos terminarem, a vida real continuará.
O trabalhador continuará procurando emprego ou tentando melhorar sua renda. A família continuará pagando suas contas. O estudante continuará precisando de uma boa escola. O paciente continuará esperando atendimento. O cidadão continuará exigindo segurança.
Depois de 4 de outubro, o Brasil não começará do zero. Mas poderá começar um novo capítulo.
E a qualidade desse capítulo dependerá menos das promessas feitas antes do voto e muito mais das escolhas, responsabilidades e resultados construídos depois dele.
Moisés Laureano de Santana é advogado, pós-graduado em Direito Público, Tributário e Eleitoral, com ampla e sólida experiência na Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro, atuando em diversos cargos de direção e chefia em instituições governamentais




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