MK - Marcelo Kieling
Querem transformar o Brasil numa empresa.
Só não dizem quem manda.
Querem transformar o Brasil numa empresa.
Só não dizem quem manda.
Por Marcelo Kieling
A sala cheira a café frio e um PowerPoint.
Na tela, um organograma impecável: no topo, uma caixa dourada que diz "Holding Brasil S.A."; embaixo, o Congresso rebaixado a conselho de administração; mais abaixo, os Estados como filiais de uma rede que nunca abre as portas. O consultor — um economista com uma gravata impecável, sorriso de quem já vendeu a mesma história para três governos — avança o slide e fala em "metas", "indicadores de desempenho", "eficiência gerencial". As palavras deslizam macias, como se o país fosse um balanço patrimonial esperando por um bom contador. Ninguém na sala se atreve a fazer a pergunta que o organograma esconde: quem, afinal, define as metas dessa holding?
Não é a primeira vez que o Brasil se apaixona por essa fantasia. Há mais de um século, em cada crise, reaparece a mesma promessa: a de que os problemas do país não são problemas de poder, de história, de gente — são problemas de método. Acham que bastaria importar a lógica das empresas e dizem que a máquina pública finalmente funcionaria. É uma ideia sedutora porque parece prática, moderna, acima da briga política. Mas é justamente aí que mora o perigo. Por trás do vocabulário limpo de "alinhamento estratégico" e "otimização de processos", o que se propõe é algo bem mais ambicioso — e bem mais perigoso: esvaziar o Estado da sua política.
Gerência não substitui política. O Brasil não precisa de menos política; precisa de política melhor. Metas claras, prestação de contas, continuidade de projetos: tudo isso é exigência legítima de qualquer gestão pública séria, e quem diz o contrário mente ou nunca geriu nada. O problema é quando a caixa de ferramentas vira um projeto ideológico. Em nome da eficiência, propõe-se trocar a negociação — que é a essência da democracia — por uma planilha tecnocrática — que não é. A diferença não é de método; é de natureza. Uma empresa tem um dono e um conselho que decidem aonde ela quer chegar. Uma república tem uma Constituição, cidadãos e urnas que fazem esse papel. Confundir as duas coisas não é modernização; é apenas um jeito educado de tentar ainda mais de concentrar o poder.
A pergunta que a proposta evita responder não é retórica. Numa holding, as metas descem do centro para as filiais, e o desempenho é medido por indicadores definidos lá de cima. Aplicada ao Brasil, essa lógica significa exatamente o que o tal "alinhamento estratégico" sugere: o Planalto dizendo o que cada canto do país deve ser, do Acre a Pernambuco, como se a nação fosse uma rede de lojas. A resistência jurídica e política que a proposta vai encontrar não é ruído a ser eliminado — é a democracia funcionando. Federalismo não é ineficiência a corrigir; é uma escolha da Constituição sobre como repartir o poder num país do tamanho do nosso. Quem chama isso de gargalo operacional confunde a pátria com apenas um centro de distribuição.
Cabe aqui o parêntese que a fantasia gerencial insiste em esconder: o déficit fiscal virou instrumento total de exploração política. Com a ampla divulgação da mídia tradicional, totalmente dominada por interesses do mercado financeiro, sempre que o fantasma do rombo nas contas públicas aparece, as propostas de desenvolvimento somem da pauta. Corta-se o investimento em infraestrutura, adia-se a reindustrialização, engaveta-se o financiamento da ciência e da tecnologia — tudo em nome de um ajuste que nunca chega e de um mercado que nunca se satisfaz. O Estado abre mão de ser agente do desenvolvimento para virar o refém do curto prazo, e a nação fica órfã de projetos: não de metas, de propósito. Não é por acaso que a proposta da holding nasce nesse cenário. Se o país é tratado como empresa em crise, quem ganha com isso é justamente quem lucra com a crise.
Os pilares da proposta merecem o mesmo ceticismo. Na infraestrutura, as Zonas de Processamento de Exportação são o exemplo perfeito de anúncio sem entrega. Discutidas desde os anos 1990, com marco legal de 2007, o Brasil criou treze ZPEs por decreto — e apenas quatro funcionam de verdade. O retorno recente do tema repete o roteiro: Barcarena, oficializada pelo Decreto 12.823, de janeiro de 2026, com R$ 1 bilhão prometido; Cáceres, em 2025, inaugurada depois de três décadas de espera. Quem propõe acerta no diagnóstico: o gargalo nunca foi o projeto no papel, mas a insegurança jurídica, o licenciamento e a descontinuidade. Ora, esses são exatamente os problemas que a metáfora corporativa não resolve — são problemas do Estado, do direito e da política. Quem garante que as regras não mudam no meio do jogo não é uma holding; é um Estado que respeita as próprias regras.
Na saúde, a proposta é mais delicada do que o termo "integração" sugere. Abrir o SUS às operadoras privadas é o caminho clássico da seleção de riscos: o setor privado fica com o paciente barato; o SUS, com o caro. Isso não é inovação gerencial — é o conhecido esvaziamento por sucção: uma privatização branca, que dispensa leilões e leis porque avança por dentro da gestão. Na segurança, há um ponto real: onde o Estado não ocupa o território com serviços e proteção, o vazio é ocupado pela economia do crime. Mas a "lógica de filial" não resolve nada quando o problema é, precisamente, a ausência do Estado. Na educação, o "fim da aprovação automática" é o discurso do bode expiatório: culpa-se o aluno pela falência do sistema enquanto se adia a reforma da formação e do salário dos professores. E na sustentabilidade, colocar preço na "floresta em pé", na linguagem ESG, trata o meio ambiente como mercadoria cujo valor é definido pelo mercado — com a pergunta incômoda: o que acontece com a floresta que não vale dinheiro?
Defender o público não é defender a ineficiência. É defender outra régua: não o lucro de uma planilha, mas a nossa dignidade. E essa régua não é definida por um conselho de administração — é definida pela Constituição, pela cidadania e pelo voto.
Na próxima vez que alguém oferecer ao Brasil uma planilha no lugar de uma república, a resposta certa não é recusar a planilha; é perguntar quem a preenche, quem a fiscaliza e quem responde por ela diante de quem elegeu. Se a resposta for "um conselho", a democracia já está convocada a se demitir. E nas democracias, ao contrário das empresas, não têm um dono para assinar a carta de demissão.
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.




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