MK - Marcelo Kieling
Quem teme a justiça apressa-se em virar a página
A pergunta que o candidato não quer responder
Quem teme a justiça apressa-se em virar a página
A pergunta que o candidato não quer responder
Por Marcelo Kieling
Há um gesto que diz mais sobre um homem do que qualquer discurso: o gesto de fechar um livro que não está terminado. O candidato à presidência da extrema direita radical, senador da República, repete que o caso Dark Horse é uma "página virada" — uma página que, segundo ele, só o presidente da República teria de explicar. Uma página que, na realidade, permanece aberta, com inquéritos policiais em andamento e sem que uma única auditoria sobre os investimentos do projeto cinematográfico tenha sido apresentada aos olhos do público. A literatura brasileira, que há séculos se dedica a medir a distância entre o que os homens dizem e o que os homens fazem, poderia oferecer ao senador uma lição. Mas ele parece não ler. Ou ler apenas o que o confirma.
Machado de Assis, o grande anatomista da hipocrisia brasileira, conhecia bem esse gesto. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador defunto nos conta que o "humanitismo" é uma filosofia que justifica tudo — até pisar no outro — porque, afinal, "ao vencedor, as batatas". A elite brasileira, percebeu Machado, sempre teve o talento de transformar o abuso de poder em lei natural. A página vira quando convém. A verdade se curva ao narrador. Mas Machado também advertiu: a história pode ser contada pelo morto, porém é o leitor quem julga. E é o leitor — o povo, o eleitor, o cidadão — quem tem diante de si um homem público que trata um inquérito como quem vira uma folha de romance.
Padre Antônio Vieira, no Sermão da Sexagésima, distinguiu a palavra da obra: as palavras são as folhas, as obras são os frutos. Um homem público que responde a uma investigação com uma frase, e não com documentos, oferece folhas em que o povo pediu frutos. A retórica do senador — "é página virada", "quem tem de explicar é o presidente" — é a retórica de quem quer mudar o assunto da conversa, não o assunto do inquérito. Vieira reconheceria o truque: a arte de dizer muito e explicar nada. O sermão sem frutos é apenas vento; a defesa sem auditoria é apenas encenação.
A inversão é velha e conhecida na política brasileira: responder à acusação com contra-acusação, mover o holofote, apontar para outro lugar. É a estratégia do espelho — em vez de mostrar o que está à frente, refletir o que está atrás. Mas o ônus da prova, como lembra o próprio enquadramento que sustenta esta análise, recai sobre quem geriu os recursos sob escrutínio. Nenhum dedo apontado para o adversário substitui uma única auditoria. Nenhuma "página virada" encerra um inquérito aberto. As instituições — a Polícia Federal, o Ministério Público, o Poder Judiciário — não viram páginas ao sabor de um discurso; viram-nas quando os fatos estão estabelecidos. Quem tenta fechá-las antes disso não acelera a justiça: apenas confessa, diante de todos, que teme o que ela possa encontrar.
Drummond sabia das pedras que não desaparecem. "No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho". O inquérito é essa pedra. Não se move porque um candidato declara que se moveu. Permanece ali, no meio do caminho, indiferente aos discursos, esperando os fatos. O político que tenta contorná-la declarando-a "página virada" não remove a pedra; apenas revela a própria dificuldade em enfrentá-la. E há algo de profundamente revelador nessa dificuldade: o homem que quer governar uma República trata a lei como um incômodo a ser superado pela narrativa, e não como o chão sobre o qual a República se sustenta.
Chegamos, então, à pergunta mais incômoda, a que o senador evita: o que significa, para quem aspira à Presidência, tratar a investigação como um capítulo a ser encerrado por decreto de vontade? Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, escreveu que "o diabo não existe, existe é o homem". A moral do sertão é a moral da responsabilidade: ninguém é possuído por uma força externa; cada um responde pelas próprias escolhas. O candidato que declara fechado o que está aberto assume, com esse gesto, o oposto exato da virtude republicana: assume que a história lhe pertence, que a página lhe pertence, que a verdade lhe pertence. É o gesto do dono do livro — e a República não tem donos, tem servidores.
Há ainda outra lição que a literatura brasileira guarda para este momento, e vem de um homem que conheceu a humilhação do poder de perto. Graciliano Ramos, preso sem culpa formada, escreveu em Memórias do Cárcere a dignidade de quem responde ao Estado — mesmo quando se considera injustiçado. A via republicana não é a do silêncio altivo nem a da acusação recíproca; é a da resposta documentada, da defesa aberta, da verdade oferecida sem medo. O acusado que se sabe inocente não precisa virar páginas; precisa abri-las. É justamente quem teme o conteúdo do livro que insiste em fechá-lo.
A história, porém, não pertence ao narrador. Na ficção, o autor encerra o livro quando quer. Na República, o livro se encerra quando as instituições dizem — e, em última instância, quando o povo, o grande leitor, julga. O senador pode acreditar que escreve a própria crônica, com ele como herói e o presidente como vilão. Esquece que crônicas, como inquéritos, têm desfechos que ninguém controla. Esquece que o leitor acompanha cada página, e que o leitor não perdoa quem tenta pular capítulos.
A página, senador, não se vira por decreto. Vira-se pela auditoria, pelos documentos, pela investigação que cumpre seu curso. Enquanto a tinta do inquérito ainda estiver molhada, enquanto as contas do projeto cinematográfico aguardarem explicação, a sua página permanece aberta — e o leitor, o povo, está de olho. Machado sorriria, com aquele sorriso oblíquo de quem enxerga através das máscaras, diante do homem que pensa poder fechar um livro que não é seu para fechar. A pedra permanece no meio do caminho. E a página, senador, não vira.
O que este episódio revela, afinal, não é a força do candidato, mas a fragilidade do seu método. Ao tratar o inquérito como matéria de narrativa e não de prova, o senador não apenas desqualifica as instituições — desqualifica o próprio eleitor, a quem oferece o espetáculo no lugar da prestação de contas. Numa democracia, a confiança não se constrói com a página virada, mas com a página aberta e auditada. E é precisamente essa a escolha que o povo terá diante de si: acreditar em quem fecha o livro, ou exigir de quem o abre. A literatura ensinou que o leitor julga; resta saber se o eleitor, desta vez, fará o mesmo.
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