MK - Marcelo Kieling
Os palhaços somos nós: a farsa que virou o Brasil
Uma ópera sem música: por que a democracia virou um circo sem mágicos
Os palhaços somos nós: a farsa que virou o Brasil
Uma ópera sem música: por que a democracia virou um circo sem mágicos
Por Marcelo Kieling
Este artigo não é apenas um desabafo: é um diagnóstico político com uma estrutura argumentativa sólida, que atravessa a crise da imprensa, o esvaziamento do debate eleitoral e o papel tóxico das redes sociais. A força da minha escrita está exatamente naquilo que a mídia convencional evitou fazer — nomear os mecanismos de controle social e psicológico que alimentam a polarização afetiva. Ao transformar a minha indignação em análise, tento fazer o que jornalistas precisam fazer diante deste caos: organizar o caos em argumentos, para que o leitor saia da apatia e volte a pensar como cidadão.
Escrever diariamente é um ato de resistência contra a apatia e a barbárie. Quando a palavra é reduzida ao grito, ao ódio ou à mentira nas redes sociais, usar a escrita para tentar resgatar o pensamento crítico, a lucidez e o sentido de coletividade é tentar furar o bloqueio dessa asfixia promovida diariamente pelas alas retrógradas, reacionárias e extremistas.
O projeto dessas estruturas políticas que dominam o país é cansar o cidadão até que ele desista de pensar o Brasil como uma nação. Faço da minha escrita diária e da minha capacidade de processar, conectar e estruturar ideias uma trincheira contra esse apagamento da sociedade brasileira.
Contra as Capitanias Hereditárias
Precisamos acabar com as mafiosas Capitanias Hereditárias. O Brasil continua refém de estruturas arcaicas de privilégio, em que o poder e a riqueza se concentram nas mãos de poucos, enquanto a maioria é mantida em uma disputa tribal que serve apenas para perpetuar o status quo. Desatar esses nós exige, antes de tudo, coragem intelectual — exatamente ao que tento exercitar ao transformar a minha indignação em texto todos os dias.
A mídia perdeu o rumo
Mas, infelizmente, a mídia tradicional perdeu totalmente o seu rumo. A ética foi abandonada. Desde a Lava-Jato, tudo está dominado pelo interesse. A informação virou negócio. E, em paralelo, o total despreparo dos candidatos para respostas com alguma consistência transforma as entrevistas à presidência em uma ópera sem música ou num circo sem mágicos — e, no final de tudo, os palhaços somos nós.
E, ainda para piorar este triste cenário, há a presença das malditas redes sociais, que transformam a mentira em realidade e a verdade em exploração do ódio. Das propostas de liberdade para golpistas à defesa de bomba atômica, da negação de fatos reais à ignorância quanto à gravidade da crise ambiental, temos um cenário trágico da política brasileira. Da ideia de vender o país, de negar a corrupção explícita com o dinheiro público, do vendedor de livros ao mentiroso, do louco ao matuto que tem ouvo no ouvido, os candidatos à presidência não teriam vaga na pior turma do Professor Raimundo. Não sei se é uma comédia ou um drama.
Uma regressão civilizatória
Enxergo este momento, portanto, como uma fase de profunda regressão civilizatória, em que a democracia deixa de ser vivida como um acordo de convivência plural e passa a ser tratada como um campo de extermínio simbólico. O que torna o cenário tão sufocante é que essa cegueira coletiva consome as próprias ferramentas de autocorreção da sociedade — a educação, o debate baseado em fatos e o respeito à dignidade alheia parecem ter perdido o valor de moeda corrente.
Este quadro de paralisia social e endurecimento ideológico não é mero pessimismo: ele descreve com precisão a lógica do que cientistas políticos e sociólogos contemporâneos chamam de polarização afetiva e erosão democrática.
Infelizmente, não há uma reação popular, mas sim uma "cegueira política" alimentada pela indiferença e pelo ódio. O que se observa é que a política deixou de ser um espaço de disputa de projetos de sociedade para se tornar uma questão de identidade tribal. Nesse estágio, o contraditório não é visto como uma ideia diferente a ser debatida, mas como uma ameaça existencial a ser neutralizada.
Os pilares do controle
Essa dinâmica se sustenta sobre pilares muito eficientes de controle social e psicológico:
A indústria da indignação — as redes sociais e os ecossistemas de desinformação operam sobre um modelo de negócios que recompensa o conflito. A indiferença é combatida com estímulos constantes ao medo e à raiva, criando um estado de transe coletivo em que a razão cede lugar ao impulso.
A destruição da empatia pelo diferente — a intolerância às diversidades e às diferenças não é um acidente nesse processo; ela é uma ferramenta funcional. Desumanizar o oponente ou minorias serve para justificar a violência simbólica (e muitas vezes física) e impede qualquer possibilidade de pacto social mínimo.
A fadiga democrática — o sentimento de abandono é o objetivo final da doutrinação reacionária. Quando o cidadão se esgota e decide se recolher à própria apatia ou à indiferença, abre-se o caminho livre para que os extremismos ocupem o espaço público sem resistência institucional ou popular.
Três eixos da análise
Minha análise pode ser dividida em três eixos centrais que estruturam os argumentos:
A mercantilização e a crise de credibilidade da imprensa — a mídia tradicional abandonou preceitos éticos em favor de interesses comerciais e político-partidários, um fenômeno intensificado desde o período da Operação Lava-Jato, quando a cobertura jornalística passou a ser vista por muitos setores da sociedade como um agente político ativo e polarizador, e não apenas como um canal de informação neutro.
A superficialidade do debate eleitoral — a realidade contundente da qualidade técnica, intelectual e moral dos postulantes ao cargo máximo do Executivo. As sabatinas e entrevistas presidenciais são realizadas com total esvaziamento da substância programática, reduzidas a embates performáticos que priorizam o espetáculo em detrimento de soluções reais para os problemas do país.
O papel tóxico das redes sociais — a desinformação digital (fake news) é um vetor que distorce a realidade, manipula emoções coletivas por meio do ódio e legitima discursos extremistas, desde o negacionismo científico e ambiental até a relativização de rupturas democráticas.
Conclusão
A minha conclusão sintetiza o drama do eleitor revestido de ironia trágica: a percepção de que a democracia representativa foi sequestrada por figuras caricatas ou desqualificadas, restando à população o papel passivo de espectadora de uma tragédia que oscila entre a farsa e o drama social.
Como vamos sair deste abismo?
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.




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