JJ
Batidas na Porta da Frente
É nesse terreno que as eleições presidenciais costumam ser vencidas ou perdidas.
Batidas na Porta da Frente
Por JJ
A pesquisa Quaest divulgada nesta semana traz um dado político importante para quem acompanha a disputa presidencial de 2026: Lula vai, gradativamente, construindo uma posição de favoritismo. A vantagem de seis pontos sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno, a liderança ampliada entre os eleitores independentes, a aproximação entre aprovação e desaprovação do governo e o crescimento da rejeição do principal adversário desenham uma tendência que não pode ser ignorada. Há movimento no cenário político e ele, neste momento, favorece o presidente.
Seria um erro, porém, transformar uma tendência em sentença. A política brasileira costuma punir severamente aqueles que confundem fotografia com filme. A pesquisa registra um instante, não o resultado final da disputa. Ainda falta uma longa caminhada até a eleição e a história recente do país está repleta de exemplos de candidaturas que comemoraram cedo demais e descobriram, tarde demais, que a realidade não costuma respeitar calendários de euforia.
Os números mostram que Lula colhe os frutos de uma estratégia que, até aqui, parece correta. A combinação entre uma leitura geopolítica dos conflitos internacionais e uma agenda doméstica voltada para questões concretas da vida cotidiana começa a produzir efeitos eleitorais. Medidas como o apoio ao fim da jornada 6x1, a ampliação de programas de renegociação de dívidas, os incentivos à habitação popular e iniciativas voltadas ao custo de vida ajudam a explicar a recuperação da imagem do governo. O eleitor pode acompanhar os grandes acontecimentos globais, mas continua decidindo seu voto a partir das condições concretas da própria existência.
O dado mais relevante talvez esteja justamente entre os eleitores independentes. Em eleições polarizadas, eles costumam funcionar como o fiel da balança. O crescimento de Lula nesse segmento indica que parte do eleitorado que orbitava o campo bolsonarista começa a reconsiderar suas opções. Não se trata de uma migração ideológica profunda, mas de um deslocamento político que merece atenção. É nesse terreno que as eleições presidenciais costumam ser vencidas ou perdidas.
Nada disso significa, entretanto, que a oposição esteja derrotada. Pelo contrário. Uma das armadilhas mais perigosas para qualquer campo político é subestimar o adversário. A direita brasileira atravessa um momento de dificuldades, mas continua sendo uma força de enorme relevância social, eleitoral e cultural. Possui lideranças nacionais, capilaridade territorial, presença nas redes sociais, capacidade de mobilização e uma base popular consolidada. Nenhum agrupamento político que reúne dezenas de milhões de eleitores desaparece porque atravessou uma sequência desfavorável de pesquisas.
Os problemas enfrentados por Flávio Bolsonaro ajudam a explicar parte de sua queda. As revelações envolvendo sua relação com Daniel Vorcaro produziram desgaste político, assim como os efeitos da aproximação pública com Donald Trump em um momento marcado pelo anúncio de novas tarifas comerciais que afetam interesses brasileiros. Mas desgastes conjunturais não devem ser confundidos com derrota estratégica. A oposição continua viva, organizada e com margem de manobra suficiente para reagir ao longo da campanha.
Talvez a melhor definição para o momento seja a de que Lula escuta, cada vez mais claramente, batidas na porta da frente do Palácio do Planalto. Elas anunciam a possibilidade concreta de uma nova vitória. Mas ainda são apenas batidas. A porta não foi aberta. A eleição não foi decidida. O favoritismo existe, mas ainda precisa ser consolidado.
Os apoiadores do governo fariam bem em evitar a embriaguez do "já ganhou". Toda vez que esse sentimento se instala, a mobilização diminui, a vigilância enfraquece e a soberba passa a ocupar o lugar da política. Respeitar a força do adversário não é sinal de insegurança. É sinal de inteligência estratégica. Afinal, quem pretende permanecer no governo precisa compreender que vencer uma eleição exige mais do que comemorar pesquisas favoráveis. Exige continuar disputando cada voto, cada narrativa e cada espaço da sociedade até o último dia da campanha.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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