Seja bem-vindo
Barra Mansa,12/06/2026

    • A +
    • A -
    Publicidade

    JJ

    Utopia x Distopia

    A questão é mais profunda.


    Utopia x Distopia Thomas Piketty

    Utopia x Distopia

     Por JJ

    Thomas Piketty consolidou-se como uma das mais importantes vozes da crítica à desigualdade no mundo contemporâneo. Em uma época marcada pela concentração crescente da riqueza e pela corrosão dos mecanismos tradicionais de ascensão social, seus estudos contribuíram para recolocar a questão distributiva no centro do debate internacional.

     O Relatório para a Justiça Global, elaborado sob sua liderança, apresenta uma visão ousada para o século XXI. Propõe reduzir drasticamente a desigualdade mundial, enfrentar a emergência climática, diminuir a jornada de trabalho e construir mecanismos globais de governança capazes de administrar essa transição. É um projeto que desperta simpatia imediata. Afinal, quem poderia ser contra uma sociedade mais justa, mais equilibrada e mais humana?

    Mas é precisamente quando deixamos o terreno dos desejos e ingressamos no da realidade histórica que surgem as questões mais difíceis.

    O relatório parte de uma constatação correta: a humanidade já possui recursos materiais, conhecimento científico e capacidade tecnológica suficientes para eliminar a pobreza extrema, reduzir a exploração do trabalho e enfrentar os desafios ambientais. O problema não está na falta de riqueza. O problema está na forma como ela é produzida, apropriada e utilizada.

    A partir daí, entretanto, o documento parece acreditar que os obstáculos centrais são de natureza institucional. Como se a construção de novos organismos internacionais, novos mecanismos de financiamento e novos acordos globais fosse suficiente para conduzir o mundo a uma ordem mais racional e equilibrada.

    A questão é mais profunda.

    As desigualdades que marcam o capitalismo contemporâneo não são fruto de erros administrativos ou falhas de coordenação. Tampouco resultam da ausência de boas ideias. Elas decorrem de interesses concretos, protegidos por estruturas econômicas, políticas e financeiras que operam precisamente para preservar privilégios e concentrar poder.

    Quando o relatório propõe a tributação internacional dos ultra ricos, por exemplo, a pergunta inevitável não é econômica, mas política. Quem terá força para impor essa tributação? Quais governos enfrentarão os grupos econômicos que hoje exercem influência decisiva sobre parlamentos, sistemas financeiros, meios de comunicação e instituições multilaterais?

    Da mesma forma, a proposta de substituir a centralidade do dólar por uma moeda internacional administrada por organismos globais ignora uma realidade elementar: moedas não se tornam dominantes apenas por razões técnicas. Tornam-se dominantes porque expressam relações de poder. A supremacia do dólar não é uma anomalia do sistema. É uma de suas engrenagens centrais.

    O mesmo raciocínio vale para a governança global idealizada pelo relatório. O mundo contemporâneo não é um espaço de cooperação harmoniosa entre nações igualmente interessadas no bem comum. É um terreno de disputa permanente entre Estados, corporações, blocos econômicos e interesses estratégicos frequentemente incompatíveis.

    Nesse contexto, a expectativa de que os principais centros de poder do planeta aceitem voluntariamente abrir mão de parcelas significativas de sua soberania em favor de uma administração global democrática parece mais próxima de uma esperança legítima do que de uma possibilidade concreta.

    O mérito do relatório está em demonstrar que a escassez não é mais o problema fundamental da humanidade. Produzimos riqueza em quantidade suficiente para garantir condições dignas de existência para todos. O escândalo do nosso tempo não é econômico. É político e social.

    Entretanto, ao apostar quase exclusivamente na reforma das instituições existentes, o documento evita enfrentar uma questão decisiva: as estruturas que produzem desigualdade não permanecem de pé por falta de alternativas. Permanecem porque existem forças poderosas interessadas em sua manutenção.

    É nesse ponto que a proposta revela seu caráter paradoxal. O relatório identifica corretamente os efeitos destrutivos da ordem atual, mas deposita confiança excessiva na disposição dessa mesma ordem para reformar-se profundamente.

    A história raramente oferece exemplos de privilégios estruturais que tenham sido abandonados espontaneamente. Mudanças significativas ocorreram quando pressões sociais, conflitos e transformações profundas alteraram o equilíbrio de poder existente.

    Talvez por isso o texto oscile entre dois polos. De um lado, apresenta um diagnóstico lúcido sobre os impasses do presente. De outro, sugere soluções que dependem justamente da colaboração daqueles que mais se beneficiam desses impasses.

    A tensão entre esses dois elementos atravessa todo o relatório.

    Seu horizonte é admirável. Sua intenção é generosa. Sua arquitetura intelectual é sofisticada. Mas permanece a dúvida essencial: pode uma ordem construída sobre a concentração de riqueza e poder ser convencida a limitar, por vontade própria, os mecanismos que garantem sua reprodução?

    Essa é a pergunta que o relatório deixa em aberto.

    E talvez seja nela que se encontre a fronteira entre a utopia necessária e a distopia que já bate à nossa porta.

     JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira  

     



    COMENTÁRIOS

    LEIA TAMBÉM

    Buscar

    Alterar Local

    Anuncie Aqui

    Escolha abaixo onde deseja anunciar.

    Efetue o Login

    Baixe o Nosso Aplicativo!

    Tenha todas as novidades na palma da sua mão.