JJ
2026, A Copa da Geopolítica
Não será apenas uma Copa do Mundo.
2026, A Copa da Geopolítica
Por JJ
A Copa do Mundo de 2026 já nasce histórica. Pela primeira vez o torneio será sediado por três países, Estados Unidos, México e Canadá. Também será a maior edição já realizada, com 48 seleções disputando o título, ampliando mercados, audiências, interesses econômicos e, sobretudo, tensões políticas.
Não será apenas uma Copa do Mundo. Será uma vitrine global da nova ordem internacional.
O futebol, que durante décadas vendeu ao planeta a ideia romântica de neutralidade esportiva, já não consegue esconder aquilo que sempre esteve presente nos bastidores, o peso da geopolítica. E talvez nenhuma edição exponha isso de maneira tão evidente quanto a Copa de 2026.
Os Estados Unidos serão o centro do evento. E isso significa que a política externa americana inevitavelmente entrará em campo. A proximidade entre Gianni Infantino e Donald Trump, hoje novamente figura central da política norte americana, ajuda a ilustrar o problema. O presidente da FIFA não faz questão de esconder suas afinidades políticas, suas preferências diplomáticas e sua disposição em alinhar a entidade aos interesses estratégicos das grandes potências ocidentais.
O discurso oficial da FIFA continua sendo o da “união dos povos”. Porém, na prática, as contradições são cada vez mais visíveis.
A Rússia segue proibida de participar das competições organizadas pela entidade por conta da guerra na Ucrânia. Ao mesmo tempo, outras guerras, invasões, ocupações militares e violações de direitos humanos recebem tratamento diplomático muito mais flexível, especialmente quando envolvem aliados estratégicos dos Estados Unidos e do Ocidente.
A seletividade política tornou-se impossível de esconder.
O caso do Irã talvez seja o exemplo mais simbólico da Copa de 2026. Diante da tensão permanente entre Washington e Teerã, já existem relatos de dificuldades envolvendo vistos, controles migratórios e protocolos especiais para integrantes ligados ao país persa. A tendência é que a delegação iraniana permaneça hospedada no México e viaje aos Estados Unidos apenas nos dias das partidas realizadas em Los Angeles.
A situação revela algo preocupante, a FIFA parece incapaz, ou sem interesse, de garantir proteção política mínima às delegações participantes dentro do território americano.
Atletas, dirigentes, jornalistas e torcedores poderão enfrentar interrogatórios rigorosos, retenções de passaporte, restrições migratórias e constrangimentos diplomáticos. Em um cenário internacional marcado por guerras, sanções econômicas e radicalização ideológica, a Copa do Mundo deixa de ser apenas um torneio esportivo para transformar-se em território de disputa simbólica entre Estados e blocos de poder.
Mas a geopolítica de 2026 vai além da diplomacia.
Ela aparece também dentro das próprias seleções nacionais.
O futebol contemporâneo tornou-se profundamente transnacional. Jogadores nascidos em um país defendem outro. Filhos de imigrantes representam nações que seus pais sequer imaginavam habitar. Africanos formados em centros europeus defendem seleções europeias. Franceses, ingleses, alemães, holandeses e belgas carregam em campo as marcas das antigas rotas coloniais.
As identidades nacionais tornaram-se híbridas.
A ideia clássica de seleção como representação pura da nacionalidade já não corresponde à realidade do futebol globalizado. E talvez nunca tenha correspondido. O futebol sempre esteve ligado a migrações, impérios, colonialismo, poder econômico e circulação internacional de pessoas.
A diferença é que agora isso ficou impossível de disfarçar.
As seleções passaram a refletir não apenas seus países, mas também suas diásporas, suas crises migratórias, seus conflitos sociais e suas transformações culturais. Em muitos casos, o elenco de uma seleção parece representar mais o fenômeno da globalização do que a própria ideia tradicional de pátria.
A Copa de 2026 será, portanto, o grande palco dessa contradição.
Enquanto governos erguem muros, endurecem fronteiras e disputam influência global, o futebol segue produzindo equipes cada vez mais multiculturais, miscigenadas e internacionalizadas.
Talvez esteja aí a grande ironia do torneio.
Nunca houve tanto discurso nacionalista em torno das seleções e, ao mesmo tempo, nunca as seleções foram tão globais.
A Copa da Geopolítica não será apenas sobre futebol. Será sobre poder, influência, imigração, identidade, guerras culturais, diplomacia e negócios bilionários. Mas já é a Copa da desmoralização da FIFA e de seu presidente que bajula o Trump e se comporta como um poodle do mandatário estadunidense. Um campeonato onde cada bandeira carregará, infelizmente, muito mais do que símbolos esportivos.
Em 2026, o mundo não verá apenas uma disputa pela taça.
Verá o retrato político do século XXI em campo.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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