Seja bem-vindo
Barra Mansa,13/06/2026

    • A +
    • A -
    Publicidade

    JJ

    Usar a Inteligência

    É preciso coragem


    Usar a Inteligência

    Usar a Inteligência

    Por JJ

    A recente decisão dos Estados Unidos de enquadrar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas abriu uma crise diplomática previsível, mas também uma oportunidade política rara para o governo brasileiro. O primeiro movimento de Brasília, o repúdio à tentativa de intervenção unilateral na vida interna do país, foi correto, necessário e coerente com a defesa histórica da soberania nacional. Nenhuma potência estrangeira pode transformar o território brasileiro em extensão automática de sua doutrina de segurança.

    Mas depois da reação simbólica, chega a hora da política concreta. Afinal, os ovos já foram quebrados. Agora é preciso fazer os omeletes.

    O Brasil não pode permitir que o debate fique restrito à disputa ideológica entre “entreguismo” e “antiamericanismo”. Existe uma realidade objetiva que não pode mais ser ignorada, PCC e Comando Vermelho deixaram de ser apenas organizações criminosas locais há muito tempo. Hoje operam como estruturas empresariais transnacionais, com presença financeira, logística e operacional em diversos países da América Latina, conexões internacionais e capacidade de infiltração institucional crescente.

    Negar isso por receio de alimentar discursos autoritários seria um erro político grave da esquerda brasileira.

    A população das periferias, justamente a mais vulnerável à violência, não quer discursos acadêmicos sobre segurança pública. Quer proteção real, presença do Estado e combate efetivo ao crime organizado. E aqui reside uma das maiores fragilidades históricas do campo progressista, a dificuldade em construir uma narrativa firme contra o crime sem cair no punitivismo irracional da extrema direita.

    O resultado disso é conhecido. Aos olhos de parcela significativa do povo, a esquerda passou a ser vista como complacente, leniente ou excessivamente relativista diante da criminalidade. Enquanto isso, setores conservadores monopolizaram o discurso da autoridade, mesmo quando fracassam na prática.

    O caso do Rio de Janeiro é emblemático. Décadas de governos que se apresentam publicamente como “duros contra o crime” convivem com estruturas criminosas cada vez mais sofisticadas e financeiramente robustas. Em São Paulo, apesar da retórica permanente de enfrentamento, o PCC consolidou um poder econômico e territorial que atravessa governos de diferentes partidos. Isso exige uma pergunta incômoda, como organizações criminosas conseguem expandir tanto seus negócios sem algum grau de cumplicidade, tolerância institucional ou corrupção política?

    É preciso coragem para enfrentar essa contradição.

    Parte significativa da direita brasileira construiu sua identidade política em torno da exploração eleitoral da insegurança pública, mas sem atacar os mecanismos financeiros que sustentam o crime organizado. O dinheiro continua circulando. O sistema de lavagem continua funcionando. As conexões empresariais continuam protegidas. E setores políticos continuam tratando facções como problema apenas policial, nunca econômico.

    O crime organizado contemporâneo movimenta bilhões. E onde há bilhões circulando, aparecem inevitavelmente os interesses oportunistas de parcelas do poder político e empresarial. O Brasil já viu isso em inúmeros escândalos financeiros recentes. O problema nunca foi apenas o traficante armado na favela. O problema maior quase sempre esteve nos escritórios refrigerados, nos operadores financeiros, nos esquemas de lavagem e nas alianças silenciosas construídas longe das câmeras.

    Por isso, o governo federal pode e deve aproveitar este momento para endurecer institucionalmente sua política de segurança pública, sem abrir mão da legalidade democrática.

    A PEC da Segurança Pública precisa avançar com urgência. O governo deve assumir protagonismo nacional na coordenação das polícias, na integração de inteligência, no combate à lavagem de dinheiro e no controle das fronteiras. Segurança pública não pode continuar refém de disputas estaduais, vaidades federativas e guerras políticas locais.

    Além disso, o Planalto precisa abandonar o medo de fazer um discurso mais firme sobre ordem pública. Defender direitos humanos jamais pode significar tolerância com organizações que aterrorizam comunidades pobres, recrutam adolescentes, executam rivais e desafiam o próprio Estado.

    Isso não significa copiar o modelo de encarceramento em massa defendido pela extrema direita. Significa reconhecer que existe uma demanda popular legítima por autoridade democrática.

    A discussão sobre redução da maioridade penal, por exemplo, não pode continuar interditada como tabu ideológico automático. O tema precisa ser debatido com responsabilidade, critérios objetivos e foco na realidade do recrutamento criminoso de adolescentes por facções. Fugir completamente desse debate apenas fortalece narrativas simplistas da direita radical.

    Ao mesmo tempo, o governo brasileiro poderia transformar a tensão diplomática com os Estados Unidos em cooperação pragmática e soberana. Não se trata de submissão, mas de inteligência estratégica. Cooperação financeira internacional, combate ao tráfico de armas, rastreamento de fluxos bancários e compartilhamento de inteligência podem fortalecer o Estado brasileiro sem abrir mão da autonomia nacional.

    O Brasil precisa mostrar maturidade política para compreender uma verdade simples, soberania não é passividade.

    O maior erro progressista seria permitir que apenas a extrema direita fale sobre segurança, crime e autoridade. Quando a esquerda abandona esse terreno, ela entrega milhões de brasileiros ao medo, à manipulação e ao discurso do ódio.

    A defesa da democracia exige também a defesa firme da ordem pública. Principalmente nas periferias, onde o cidadão pobre frequentemente vive espremido entre a violência do crime organizado e a ausência histórica do Estado.

    Chegou a hora de o governo entender que segurança pública também é pauta popular, social e progressista.

    E que combater o crime organizado com inteligência, firmeza e presença estatal talvez seja hoje uma das tarefas mais urgentes da própria democracia brasileira.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira   




    COMENTÁRIOS

    LEIA TAMBÉM

    Buscar

    Alterar Local

    Anuncie Aqui

    Escolha abaixo onde deseja anunciar.

    Efetue o Login

    Baixe o Nosso Aplicativo!

    Tenha todas as novidades na palma da sua mão.