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PERU
O LABORATÓRIO DA INSTABILIDADE LATINO AMERICANA
PERU, O LABORATÓRIO DA INSTABILIDADE LATINO AMERICANA
Por JJ
O Peru chega a 2026 depois de viver uma das décadas mais caóticas da história política contemporânea da América Latina. Em apenas dez anos, o país teve nada menos que nove presidentes. Nenhuma democracia minimamente estável suporta tamanho colapso institucional sem consequências profundas.
A crise peruana não pode ser analisada pela lógica simplista da “polarização”. O que existe no Peru não é polarização clássica. O que existe é fragmentação social, política e institucional.
Os números desta eleição revelam isso de maneira brutal.
Keiko Fujimori chegou ao segundo turno em primeiro lugar com apenas 17% dos votos válidos no primeiro turno. Roberto Sánchez, o candidato da esquerda nacional popular, avançou com cerca de 12%. Somados, os dois principais candidatos não alcançaram sequer 30% do eleitorado. Isso significa que aproximadamente 73% dos peruanos não votaram em nenhum dos dois no primeiro turno.
Esse dado desmonta a narrativa de um país dividido em dois grandes blocos ideológicos. O Peru não está dividido ao meio. Está pulverizado.
A fragmentação peruana nasce da decomposição do sistema político tradicional, da falência da representação partidária e da erosão da confiança popular nas instituições. O resultado é um país onde ninguém governa com legitimidade sólida e onde qualquer presidente assume cercado por um ambiente de sabotagem permanente.
O Congresso peruano se transformou, nos últimos anos, em um dos principais fatores de desestabilização institucional. Dominado majoritariamente por forças conservadoras, liberais radicais e setores profundamente alinhados aos interesses econômicos tradicionais, o Legislativo passou a operar como um mecanismo constante de desgaste dos governos eleitos.
Presidentes passaram a cair não necessariamente por crimes comprovados ou rupturas constitucionais claras, mas por guerras políticas contínuas entre Executivo, Congresso e Judiciário.
Foi assim com Pedro Pablo Kuczynski, Martín Vizcarra, Manuel Merino, Francisco Sagasti, Pedro Castillo e vários presidentes interinos que passaram rapidamente pelo poder. O Peru vive praticamente um parlamentarismo informal, sem assumir oficialmente esse modelo.
A possível eleição de Roberto Sánchez ocorre exatamente nesse cenário.
Sua vitória não representa uma hegemonia popular organizada. Representa muito mais o esgotamento de um sistema político incapaz de oferecer estabilidade mínima à sociedade peruana.
A campanha também foi profundamente atravessada pela geopolítica.
A pauta da segurança pública dominou o debate eleitoral. O crescimento da criminalidade, das extorsões, do narcotráfico e das economias ilegais transformou o medo em elemento central da disputa. Keiko Fujimori tentou capitalizar esse ambiente com um discurso de endurecimento repressivo, associado ao legado autoritário de seu pai, Alberto Fujimori.
Mas a eleição acabou premiando o candidato que conseguiu construir maior proximidade simbólica com os setores populares, rurais e historicamente excluídos do Peru profundo. Roberto Sánchez avançou justamente nas regiões andinas, camponesas e periféricas, repetindo parcialmente o fenômeno eleitoral que levou Pedro Castillo ao poder em 2021.
O Peru continua dividido entre dois mundos.
De um lado, Lima, o litoral, o sistema financeiro, os grupos empresariais e as elites tradicionais profundamente conectadas aos interesses dos Estados Unidos e do mercado internacional.
Do outro, o Peru indígena, rural, andino e periférico, historicamente excluído do centro do poder político e econômico.
Essa divisão não é apenas ideológica. É territorial, econômica, racial e histórica.
O novo governo enfrentará imediatamente três centros permanentes de pressão.
O primeiro será o Congresso, provavelmente novamente dominado por forças conservadoras e hostis ao Executivo.
O segundo será o sistema judicial peruano, amplamente desacreditado pela população, frequentemente acusado de seletividade política e historicamente alinhado às elites tradicionais e aos interesses geopolíticos norte americanos.
O terceiro será o mercado internacional, especialmente os interesses ligados à mineração, ao cobre, ao lítio e às disputas estratégicas entre Estados Unidos e China na América do Sul.
O Peru ocupa posição central na geopolítica mineral contemporânea. Nenhuma grande potência olha para o país apenas pela ótica democrática. O controle dos recursos estratégicos pesa enormemente sobre o comportamento das elites políticas, econômicas e institucionais.
A questão central agora é saber se Roberto Sánchez conseguirá sobreviver politicamente dentro de um sistema que devorou quase todos os presidentes da última década.
Porque no Peru atual, vencer a eleição talvez seja apenas o começo da crise.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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