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Barra Mansa,09/06/2026

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    Moisés Laureano de Santana

    QUANDO A CONSCIÊNCIA SE CURVA AO PODER:

    A FRONTEIRA ENTRE CONVICÇÃO E IDOLATRIA


    QUANDO A CONSCIÊNCIA SE CURVA AO PODER:

    QUANDO A CONSCIÊNCIA SE CURVA AO PODER: A FRONTEIRA ENTRE CONVICÇÃO E IDOLATRIA

    Por Moisés Laureano de Santana

    Em uma era de polarização e lideranças personalistas, a capacidade de distinguir o certo do errado torna-se um dos maiores desafios da cidadania democrática.

     Em uma das reflexões mais antigas da humanidade, a pergunta sobre o que é certo e o que é errado sempre ocupou lugar central na filosofia, na religião, no direito e nas ciências humanas. Apesar das diferenças culturais, históricas e sociais, existe uma percepção amplamente compartilhada de que o ser humano possui a capacidade de distinguir, em alguma medida, o justo do injusto, o ético do antiético, o honesto do desonesto. Essa faculdade moral, que atravessa séculos de pensamento, constitui um dos pilares da convivência social e da própria ideia de civilização.

    Entretanto, em tempos de intensa polarização política, observa-se um fenômeno que desafia essa compreensão. Não raramente, indivíduos que reconhecem determinados comportamentos como inadequados passam a justificá-los, relativizá-los ou até defendê-los quando praticados por líderes, partidos ou grupos com os quais se identificam. Surge, então, uma questão inquietante: até que ponto a lealdade política pode silenciar a própria consciência?

    A história demonstra que a política sempre esteve associada a paixões coletivas. Afinal, ela envolve projetos de sociedade, expectativas de futuro, valores e disputas por poder. No entanto, quando a adesão a uma causa ultrapassa os limites da convicção racional e se transforma em devoção incondicional, abre-se espaço para um processo perigoso: a substituição do pensamento crítico pela fidelidade cega.

    O filósofo alemão Immanuel Kant defendia que a autonomia moral é uma das maiores expressões da dignidade humana. Em sua obra "Fundamentação da Metafísica dos Costumes", sustenta que o indivíduo deve agir segundo princípios que possam ser universalizados, independentemente de interesses pessoais ou conveniências momentâneas. Em outras palavras, aquilo que é errado não deixa de ser errado porque beneficia alguém que admiramos. Da mesma forma, aquilo que é correto não perde seu valor porque favorece quem pensamos ser adversário.

    Sob essa perspectiva, a consciência não deveria se curvar às preferências ideológicas. Pelo contrário, seria justamente ela o instrumento capaz de impedir que simpatias políticas contaminem os julgamentos éticos.

    O sociólogo alemão Max Weber também oferece uma contribuição relevante para essa reflexão. Ao analisar as relações de poder e liderança, Weber alertava para o fenômeno da dominação carismática, em que determinadas figuras políticas passam a despertar níveis extraordinários de admiração e lealdade. Nessas circunstâncias, a figura do líder pode adquirir uma dimensão quase simbólica ou messiânica, tornando-se menos sujeita a críticas por parte de seus seguidores.

    Esse processo não é exclusividade de uma corrente ideológica específica. A história mundial registra exemplos em diferentes espectros políticos, demonstrando que a tendência à idolatria não pertence à direita, à esquerda ou ao centro. Trata-se de uma característica humana que pode emergir sempre que a identidade coletiva se sobrepõe à capacidade de questionamento.

    De forma semelhante, a psicologia social identifica mecanismos que ajudam a compreender esse comportamento. Um deles é a chamada dissonância cognitiva, conceito desenvolvido pelo psicólogo Leon Festinger. Segundo sua teoria, quando uma pessoa se depara com informações que contradizem suas crenças ou escolhas anteriores, surge um desconforto psicológico. Para reduzir esse incômodo, muitos preferem reinterpretar os fatos, minimizar evidências ou buscar justificativas que preservem suas convicções originais.

    Em termos práticos, isso significa que admitir erros de um líder admirado pode ser emocionalmente mais difícil do que negar ou relativizar a realidade. Assim, a proteção da identidade política passa a prevalecer sobre o compromisso com os fatos.

    O filósofo Jürgen Habermas, um dos mais importantes pensadores contemporâneos da democracia, argumenta que a legitimidade das sociedades democráticas depende do diálogo racional e do debate público livre. Para ele, cidadãos devem estar dispostos a revisar posições, ouvir argumentos divergentes e submeter suas opiniões ao exame crítico. Quando isso não ocorre, o espaço público deixa de ser um ambiente de construção coletiva e passa a funcionar como uma arena de reafirmação de certezas.

    As redes sociais ampliaram significativamente esse desafio. Embora tenham democratizado o acesso à informação e ampliado a participação política, também favoreceram a formação de ambientes digitais onde opiniões semelhantes se reforçam mutuamente. Nesse contexto, algoritmos frequentemente premiam conteúdos emocionais, polarizadores e simplificadores, reduzindo o espaço para nuances e reflexões mais profundas.

    O resultado é uma crescente tendência à tribalização do debate público. Muitas vezes, a pergunta deixa de ser se uma atitude está correta ou incorreta e passa a ser quem a praticou. Se parte de um aliado político, busca-se uma justificativa. Se vem de um adversário, exige-se condenação imediata. A coerência ética, então, corre o risco de ser substituída pela conveniência ideológica.

    Sob a ótica da sociologia, esse comportamento também pode ser interpretado como uma busca por pertencimento. O sociólogo Émile Durkheim observava que os indivíduos necessitam de vínculos sociais para construir identidade e sentido. Grupos políticos frequentemente oferecem esse sentimento de comunidade, acolhimento e propósito. Contudo, quando a necessidade de pertencimento se torna absoluta, a crítica interna pode ser percebida como uma forma de traição.

    A antropologia acrescenta outra camada de compreensão. O antropólogo Clifford Geertz defendia que os seres humanos interpretam o mundo por meio de sistemas simbólicos compartilhados. Bandeiras, discursos, slogans e lideranças políticas tornam-se símbolos carregados de significado emocional. O problema surge quando esses símbolos passam a ocupar um espaço tão central que qualquer questionamento é percebido como uma ameaça existencial.

    No campo jurídico, o Estado Democrático de Direito não exige cidadãos fiéis a governantes, partidos ou ideologias. Exige, sim, compromisso com princípios, direitos e instituições. A própria Constituição brasileira estrutura-se sobre valores como cidadania, pluralismo político, dignidade da pessoa humana e soberania popular. Esses fundamentos pressupõem a capacidade crítica dos cidadãos e o reconhecimento de que nenhuma autoridade está acima do escrutínio público.

    A maturidade democrática não se mede pela intensidade com que alguém apoia um líder, mas pela disposição de manter os mesmos critérios éticos para aliados e adversários. Afinal, a coerência é uma das expressões mais elevadas da responsabilidade cívica.

    Em última análise, talvez a grande questão não seja política, mas humana. Todo indivíduo possui preferências, crenças e convicções legítimas. O desafio está em impedir que essas preferências silenciem a voz interior que distingue o certo do errado. A consciência pode até ser ignorada por algum tempo, mas dificilmente desaparece. Ela permanece como um tribunal silencioso diante do qual cada pessoa, mais cedo ou mais tarde, é chamada a prestar contas.

    Em uma democracia saudável, partidos são instrumentos, líderes são transitórios e governos são passageiros. Os valores éticos, entretanto, devem permanecer. Quando a fidelidade a uma bandeira se torna maior do que a fidelidade à própria consciência, o risco não é apenas político. É, sobretudo, moral. E nenhuma sociedade consegue preservar sua liberdade por muito tempo quando seus cidadãos deixam de ouvir a própria consciência para ouvir apenas os ecos de suas paixões.

    Moisés Laureano de Santana é advogado, pós-graduado em Direito Público, Tributário e Eleitoral, com ampla e sólida experiência na Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro, atuando em diversos cargos de direção e chefia em instituições governamentais 



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