Carlo Simi
A COPA DAS PESSOAS CERTAS
Ontem a Copa do Mundo começou ...
A COPA DAS PESSOAS CERTAS
Por Carlo Simi
Ontem a Copa do Mundo começou. E, antes mesmo da primeira bola rolada, o maior torneio do planeta já havia revelado algo que nenhum gol, nenhuma festa e nenhuma cerimônia de abertura conseguirá apagar: nos Estados Unidos de Donald Trump, nem todo mundo tem o mesmo direito de jogar.
Os fatos são conhecidos, mas precisam ser ditos com clareza, porque a repetição da indignação não pode anestesiar a gravidade do que está acontecendo.
Omar Artan é somaliano. Foi eleito o melhor árbitro da África em 2025. Foi escolhido pela FIFA para apitar jogos na Copa do Mundo — uma honra construída ao longo de uma carreira inteira. Desembarcou em Miami com visto válido. Foi barrado. A justificativa apresentada pelo governo americano: "associação com suspeitos de integrar organizações terroristas." Nenhuma prova. Nenhum detalhe. Apenas a acusação, a deportação e o silêncio constrangedor da FIFA. Artan voltou a Mogadíscio, foi recebido com festa pela torcida local e disse à imprensa local: "O que passou, passou. É o destino." Uma dignidade que envergonha seus algozes.
A seleção do Senegal desembarcou e teve seus jogadores revistados na pista do aeroporto, tratados como suspeitos antes mesmo de pisar no solo americano.
O atacante iraquiano Aymen Hussein ficou detido por horas numa sala de segurança antes de ser liberado.
O fotógrafo oficial da delegação iraquiana teve a entrada negada em Chicago.
O Irã — que já não mantém relações diplomáticas com os EUA há mais de quarenta anos — viu sua delegação disputar todas as partidas da fase de grupos em solo americano enquanto dorme no México, proibida de pernoitar no país anfitrião. Membros da comissão técnica tiveram vistos negados. Ingressos destinados à cota iraniana foram bloqueados, privando torcedores de verem seu próprio time jogar.
Pergunto: alguém viu delegações europeias sendo revistadas na pista? Algum jogador alemão ficou sete horas numa sala de interrogatório? Algum árbitro sul-americano foi deportado por "suspeita" sem provas?
A resposta é não. E essa resposta é a coluna inteira.
Quando confrontado com as críticas — inclusive as do Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Türk, que pediu revisão das políticas migratórias americanas —, Donald Trump respondeu com a frase que sintetiza tudo: os EUA vão garantir que "as pessoas certas" entrem no país durante a Copa.
"As pessoas certas." Deixem essa expressão assentar.
Num torneio que se apresenta ao mundo como celebração da diversidade humana, o país anfitrião reserva-se o direito de decidir, com critérios opacos e aplicação seletiva, quem merece entrar.
O critério operante não é segurança — é hierarquia. Hierarquia racial, geopolítica, religiosa. Os suspeitos têm endereço: são africanos, são muçulmanos, são iranianos, são haitianos. São, em síntese, os que o imaginário trumpista associa ao perigo, à inferioridade, à suspeição permanente.
Isto tem nome. Chama-se racismo institucional. E quando é exercido pelo Estado anfitrião de uma Copa do Mundo, contamina o torneio inteiro.
O futebol e a política sempre andaram juntos — às vezes de braços dados, às vezes num abraço que sufoca. Mussolini usou a Copa de 1934 como vitrine do fascismo. A ditadura militar brasileira capturou o tricampeonato de 1970 como propaganda de um regime que torturava. A Argentina de 1978 foi sede de uma Copa enquanto os desaparecidos se acumulavam nos porões do ESMA.
Preciso ser claro: não concordo com nenhum desses usos. O futebol nunca deveria ser instrumento de poder — nem de Mussolini, nem da ditadura brasileira, nem da junta argentina. Essa condenação é de princípio, não de conveniência.
Dito isso, há uma diferença importante entre aqueles casos e o que vemos agora — e ela precisa ser nomeada. Nesses regimes, o país anfitrião usava o futebol para projetar para dentro e para fora uma imagem de grandeza e ordem.
Trump está fazendo algo diferente: está usando a Copa para projetar poder sobre os outros. A humilhação das delegações não é um efeito colateral da política migratória — ela é a política. A mensagem é deliberada: vocês jogam aqui, mas pelas nossas regras, e pelas nossas suspeitas.
E o que torna essa situação ainda mais inaceitável é o silêncio cúmplice da FIFA.
A entidade que deveria garantir a universalidade do torneio — que tem em seus próprios estatutos de 2017 a exigência de que vistos sejam processados "de maneira não discriminatória" — construiu nos últimos dezoito meses uma relação de proximidade deliberada entre seu presidente, Gianni Infantino, e o governo Trump. Essa proximidade tem um custo: quando um árbitro credenciado foi deportado sem provas, a FIFA declarou que "as decisões sobre vistos são de responsabilidade exclusiva das autoridades locais." Lavou as mãos. Abandonou um dos seus próprios.
A FIFA não foi atropelada. Ela escolheu o lado.
Vale lembrar o que foi a Copa de 2014 no Brasil — não para fazer ufanismo barato, mas para ter um parâmetro real. O Brasil recebeu 32 seleções de todas as culturas, religiões e regimes políticos sem discriminar nenhuma delegação no acesso ao território. Foi tão além que submeteu sua própria legislação às regras estabelecidas pela FIFA, abrindo mão de soberania jurídica em nome da universalidade do torneio. Pode-se criticar os custos absurdos, as remoções, os estádios que viraram elefantes brancos — e essa crítica é legítima. Mas o Brasil não tratou nenhuma delegação como suspeita. Nenhum árbitro foi deportado. Nenhum jogador foi revistado no asfalto.
Esse é o piso mínimo de uma Copa do Mundo digna desse nome. Os EUA não chegaram nem perto.
Há quem diga que é preciso separar esporte de política. Mas quem diz isso, diz para os que sofrem as consequências que silenciem. Omar Artan não pode separar. Os jogadores senegaleses revistados na pista não podem separar. Os torcedores iranianos que não puderam comprar ingressos para ver o próprio time não podem separar.
O esporte não existe numa bolha asséptica, fora da história e do poder. Nunca existiu. A questão não é se política entra no futebol — ela sempre entrou. A questão é: de que lado você está quando ela entra?
Nesta Copa, os EUA deixaram claro de que lado estão. E a FIFA, ao se calar, também.
O futebol nunca deveria ser instrumento de poder — de ninguém.
Mas quando é, a gente precisa dizer em voz alta de que lado está.
Eu estou do lado de Omar Artan.
E você?
Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




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