Seja bem-vindo
Barra Mansa,25/05/2026

    • A +
    • A -
    Publicidade

    MK - Marcelo Kieling

    O Inventário do Contentamento

    Da Prensa ao Amor Eterno


    O Inventário do Contentamento

    O Inventário do Contentamento

    Da Prensa ao Amor Eterno

    Por Marcelo Kieling

    O filósofo espinosano diria que a alegria é a passagem de uma perfeição menor para uma maior; o poeta talvez prefira a imagem de um fim de tarde sem vento. Mas para quem traz no sangue a têmpera da comunicação e o compasso rítmico das rotativas, a felicidade nunca foi um estado de repouso. Ela sempre se pareceu mais com o movimento: o barulho do papel correndo pelos cilindros nas madrugadas frias, o cheiro de tinta fresca que impregna a roupa e a certeza quase física, antes mesmo de o sol nascer, de que o dia seguinte pertence à história que ajudamos a imprimir.

    Olhando para trás, percebo que a minha cartografia do contentamento começou muito antes das redações e dos gabinetes de planejamento. Ela tem as cores da terra roxa do noroeste do Paraná, onde meu avô materno desbravou o café e a política em Querência do Norte, e o sotaque misturado de uma casa gaúcha em Santa Maria, fruto do encontro entre o oficial de Infantaria — herói pernambucano da Segunda Guerra — e minha mãe. Naquela infância e juventude, ser feliz era uma experiência sensorial simples e vasta. Era o espaço aberto, a liberdade da descoberta, a herança de nomes que carregavam o peso da história e a promessa de um futuro que se desenhava imenso. Ali, no silêncio do interior e na disciplina do exemplo paterno, pavimentou-se o terreno para as grandes audácias.

    E as audácias vieram. Na maturidade profissional, a felicidade vestiu o terno da estratégia e a urgência do fechamento. Há momentos em que o sucesso comercial e o impacto social se fundem de tal forma que a sensação de realização é quase vertiginosa. Lembro-me, com a nitidez de quem revive o instante agora, do dia em que o jornal O Dia rompeu a barreira do impossível: mais de 1 milhão de exemplares vendidos em um único dia. Um recorde histórico, um monumento de papel e tinta erguido pela confiança do leitor e pelo suor de uma equipe multicultural que tive o privilégio de liderar. Naquele dia, a felicidade não era um conceito abstrato; ela pesava toneladas nas bancas de jornal de todo o Rio de Janeiro.

    Essa mesma energia criativa se desdobrou em celebrações coletivas. Distribuir mais de 60 mil relógios no aniversário do jornal não era apenas uma ação de marketing; era colocar o tempo, literalmente, no pulso do povo. No diário esportivo LANCE!, a alegria ganhou as cores das arquibancadas: primeiro em 1998, ao vestir a torcida brasileira com camisas que coloriram as ruas na Copa da França; anos depois, em 2022, ao espalhar bolas de futebol que multiplicaram sorrisos pelos campos de terra e asfalto do país. Mais recentemente, a felicidade assumiu o papel da inovação institucional ao idealizar as agências de notícias do IBGE e do BNDES, transformando dados complexos e políticas de desenvolvimento em informação acessível, transparente e democrática. Criar valor, buscar resultados e valorizar mercados e gente sempre foi, para mim, uma forma muito própria de ser feliz.

    No entanto, o jornalismo e a gestão nos ensinam que todo grande lead precisa de um fechamento que lhe dê sentido. As vitórias do mercado, por mais barulhentas e gloriosas que sejam, são como os exemplares diários: circulam com força, mudam o dia, mas pertencem ao arquivo do tempo. A felicidade real, aquela que não sofre a erosão das horas nem a impermanência das manchetes, exige um porto seguro.

    E o meu porto tem nome, voz e presença. Há mais de 17 anos, a vida me deu Aglaé. Ao lado dela, mestre e doutora universitária, compreendi que o amor não é uma palavra singela para se colocar em poemas de domingo. O amor é uma energia de vida, uma força motriz que reorganiza o caos do cotidiano, que dá suporte às tempestades e que celebra, em silêncio, as bonanças. Viver esse amor maduro, estruturado na cumplicidade e no respeito mútuo, é a tradução mais exata de estar em paz.

    Dessa raiz sólida, brota a ramificação mais bonita da nossa árvore familiar. Ver a alegria pura, barulhenta e descompromissada dos meus quatro netos é como assistir à infância se repetir em alta definição, sem as dores do crescimento que outrora nos preocupavam. Na risada deles, no espanto diante do mundo e na pressa de correr pelo quintal, a vida se justifica. Eles são a prova de que o fluxo do afeto não se perde; ele se renova, geração após geração.

    No balanço final desta minha crônica sobre a existência, percebo que ser feliz não é a ausência de problemas ou a calmaria de uma vida sem desafios. Ser feliz é a capacidade de olhar para a própria trajetória e reconhecer a coerência entre o menino que um dia correu na terra roxa do Paraná e o homem que liderou grandes projetos de comunicação no país. É saber que as mãos que planejaram a distribuição de milhões de jornais são as mesmas que hoje se entrelaçam com as de Aglaé e que seguram, com infinito cuidado, o futuro representado no abraço dos netos. A minha felicidade, afinal, é a certeza de que cada linha escrita valeu a pena.

    E assim sigo, levando como um hino de vida, a genialidade de Gonzaguinha:

    “ ... Viver
    E não ter a vergonha
    De ser feliz
    Cantar e cantar e cantar
    A beleza de ser
    Um eterno aprendiz ....”

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.


     

     



    COMENTÁRIOS

    LEIA TAMBÉM

    Buscar

    Alterar Local

    Anuncie Aqui

    Escolha abaixo onde deseja anunciar.

    Efetue o Login

    Baixe o Nosso Aplicativo!

    Tenha todas as novidades na palma da sua mão.