MK - Marcelo Kieling
A Balada da Era do Ruído.
O megafone cria o silêncio dos sentidos
A Balada da Era do Ruído.
Aqui tento mostrar como o paradoxo da "Era do Ruído", faz com que a superconexão tecnológica resulta em um gigantesco e profundo isolamento comunicativo. Utilizando metáforas da minha trajetória profissional — como a precisão da contabilidade, a estratégia da cavalaria e o rigor do jornalismo e do IBGE —, o texto reflete sobre como os algoritmos exploram a indignação humana para monetizar a atenção, eliminando as nuances do debate público e transformando o outro em um espantalho ideológico. O diagnóstico aponta que a tecnologia apenas amplificou uma intolerância preexistente, desafiando-nos a resgatar a escuta.
O megafone cria o silêncio dos sentidos
Por Marcelo Kieling
Quem já teve a oportunidade de observar o horizonte a partir da sela de um cavalo, em um campo aberto onde o vento é o único elemento a ditar o ritmo do tempo, conhece o valor do silêncio estratégico. Na Cavalaria, aprende-se cedo que o movimento precipitado entrega a posição, e que a falta de clareza sobre o terreno à frente é o primeiro passo para o fracasso de qualquer incursão. Há uma disciplina quase matemática no silêncio que antecede a ação — uma precisão que também se encontra nos balanços contábeis, onde cada débito e crédito exige o seu devido lugar, sem espaço para ruídos ou interpretações apaixonadas.
No entanto, ao descermos das montarias físicas para ingressar no vasto território das famigeradas das redes digitais, deparamo-nos com um cenário radicalmente oposto. O campo de batalha contemporâneo não é feito de terra roxa desbravada a duras penas, como aquela que meu avô ajudou a abrir no noroeste paranaense, sob aquele sol forte que alimentava os cafezais e a promessa de um futuro estruturado. O solo de hoje é virtual, infértil de silêncio e saturado de um zumbido incessante. Dizem que habitamos a "Era da Informação", mas o rótulo é um equívoco de embalagem. O que vivemos, com o rigor de um diagnóstico de época, é a consolidação da Era do Ruído.
Caminhar pelas esquinas da internet atual evoca a absoluta e incômoda sensação de um banquete familiar que degringolou em gritaria. Todos falam, poucos explicam, e absolutamente ninguém ouve. O debate público, outrora pautado pelo esforço hercúleo de compreender o argumento do oponente para só então tentar desconstruí-lo com a lógica das ideias, foi substituído por um jogral de agressivos monólogos sobrepostos. A opinião pessoal deixou de ser uma ferramenta de busca pela verdade e converteu-se em um crachá de identidade digital. Exige-se que você exiba suas credenciais ideológicas logo na entrada do feed: diga-me o que pensa sobre a polêmica do dia e eu decidirei se você tem o direito de continuar existindo no meu ecossistema de aparências.
O paradoxo é gritante para quem dedicou décadas à gestão da comunicação e ao registro minucioso da realidade social e demográfica de um país. No IBGE, por exemplo, a busca é sempre pelo dado puro, pelo retrato fiel que permita o planejamento e o desenvolvimento de estratégias públicas eficazes. Ali, a nuance é a regra; a estatística não aceita o maniqueísmo. Mas, no tribunal do algoritmo, a nuance foi sumariamente banida do catálogo das cores. Se você manifestar apreço pelo calor do sol, a patrulha de plantão deduzirá, por uma lógica tortuosa e instantânea, que você nutre um ódio profundo pela chuva, despreza a subsistência dos agricultores e é o responsável direto pela desertificação de regiões inteiras. O cinza, essa tonalidade onde reside a maior parte da complexidade humana, foi totalmente apagado. Sobraram apenas o preto e o branco, ambos totalmente saturados ao limite para ferir os olhos e inflamar os reacionários espíritos oponentes.
Por trás dessa ópera da absurda intolerância, atua um maestro invisível, mas de precisão cirúrgica: o maldito algoritmo das plataformas digitais. Como analista e observador, vejo essa engrenagem com uma frieza quase anatômica. As redes sociais não foram projetadas por filantropos obstinados em promover a paz mundial ou o consenso iluminista. Elas são empresas de atenção, e a moeda de troca nesse mercado é o tempo de tela do usuário. Ora, a psicologia humana guarda um segredo antigo que os engenheiros do Vale do Silício aprenderam a monetizar com maestria: nada retém mais a atenção de um indivíduo do que a indignação. A raiva reacionária é o adesivo digital de alta aderência.
Essa dinâmica opera sob três pilares que distorcem nossa percepção da realidade:
Primeiro, a chamada "bolha de espelhos". O algoritmo mapeia minuciosamente suas fraquezas, seus medos e suas preferências. Em seguida, passa a entregar-lhe apenas o que confirma suas certezas ou o que alimenta sua ojeriza pelo lado oposto. Trancado nesse quarto de eco, o cidadão perde o contato e a visão com a alteridade. Ele sai de sua imersão diária convencido de que qualquer um que discorde de suas posições é seu inimigo, um tolo ou um sujeito movido por pura má intenção.
Segundo, a mercantilização da opinião rápida. Na economia da atenção, a ponderação é um ativo desvalorizado. Dizer que um problema social é complexo, histórico e multifacetado não gera engajamento; não cabe em um vídeo de quinze segundos ou em uma frase de efeito ácida. O mercado premia o veredicto instantâneo, a rotulação sumária e o linchamento virtual disfarçado de virtude moral.
Terceiro, a abolição do benefício da dúvida. Na velocidade do scroll, não há espaço para o erro honesto, para a expressão mal formulada ou para o processo natural de aprendizado e mudança de opinião. O deslize verbal é tratado como crime inafiançável contra a falsa moralidade da bolha.
Há uma ironia poética e dolorosa nesse quadro. A humanidade passou séculos desenvolvendo tecnologias extraordinárias para encurtar distâncias. Erguemos cabos submarinos de fibra óptica, lançamos satélites e criamos redes capazes de transmitir o pensamento humano de um hemisfério a outro em frações de segundo. O banquete de todo o conhecimento acumulado pela nossa espécie está disponível na ponta dos dedos de qualquer cidadão comum.
E o que escolhemos fazer com essa maravilha técnica? Usamo-la para cavar trincheiras mais profundas e erguer muros mais altos, quase intransponíveis.
O desbravamento do passado, que exigia coragem física para enfrentar o desconhecido e construir comunidades viáveis, deu lugar a um isolamento agressivo, onde o megafone digital serve apenas para atacar e afastar o vizinho do lado. Nunca foi tão fácil falar para o mundo inteiro, e nunca fomos tão dramaticamente incapazes de ouvir quem está ao nosso lado.
A influência digital não inventou a nossa intolerância ou o nosso egoísmo; ela apenas nos forneceu um espelho de altíssima definição e um amplificador de potência inédita. O algoritmo só entrega o que nós, coletivamente, consumimos com pressa e fome de validação. Enquanto o sabor efêmero de "estar certo" e o aplauso fácil da nossa própria bolha forem mais atraentes do que o esforço honesto de compreender a complexidade do outro, continuaremos assim: conectados por tecnologia de ponta, mas irremediavelmente separados por abismos de incompreensão.Infelizmente temos um mar de intolerância reacionária, resultado de um vácuo de sensibilidade em poder entender o direito ser e pensar diferente é viver.
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





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