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Barra Mansa,21/05/2026

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    Carlos Thadeu de Freitas

    Fim da taxa das blusinhas é tiro no pé do governo

    Tentativa de aliviar o custo de alguns produtos importados compromete o comércio, a indústria e o emprego nacional.


    Fim da taxa das blusinhas é tiro no pé do governo

    Fim da taxa das blusinhas é tiro no pé do governo

    Tentativa de aliviar o custo de alguns produtos importados compromete o comércio, a indústria e o emprego nacional.

    Por Carlos Thadeu de Freitas

    A inflação dos alimentos voltou a chamar atenção nos últimos meses e continua sendo um dos principais fatores de pressão sobre o custo de vida das famílias brasileiras. Ainda assim, o cenário geral da inflação já não é o mesmo observado anteriormente.

    Os dados mais recentes do IPCA indicam que o processo inflacionário caminha gradualmente para um cenário de maior controle, mesmo diante das turbulências internacionais e das incertezas provocadas pelo conflito no Oriente Médio.

    O receio com os impactos da guerra entre Israel e Irã sobre o petróleo perdeu parte da força nas últimas semanas, especialmente porque o conflito dá sinais de arrefecimento e os mercados já absorveram parte do choque inicial. Isso reduz o risco de uma nova onda inflacionária ampla e reforça a percepção de que a política monetária brasileira pode começar a olhar com mais atenção para a atividade econômica.

    Nesse contexto, causa estranheza a discussão sobre retirar ou flexibilizar a taxa das blusinhas, o imposto cobrado sobre produtos importados de até US$ 50. A medida pode parecer popular no curto prazo, mas representa um enorme risco para o comércio nacional, para a indústria brasileira e até para a arrecadação do próprio governo.

    Ao reduzir a tributação sobre plataformas internacionais, o governo enfraquece diretamente o comércio nacional, especialmente pequenos e médios lojistas, que não têm condições de competir em igualdade com gigantes globais digitais. O resultado tende a ser queda nas vendas do varejo nacional, redução da produção industrial e perda de arrecadação tributária em cadeia.

    O problema se torna ainda mais grave porque a economia brasileira já começa a mostrar sinais de desaceleração. O país convive com juros reais extremamente elevados, famílias altamente endividadas e crédito caro. Nesse ambiente, retirar competitividade do comércio nacional justamente quando ele mais precisa recuperar vendas e produtividade parece um movimento contraditório.

    Os dados recentes do comércio varejista mostram que as vendas permaneceram relativamente sustentadas no 1º trimestre de 2026, especialmente em segmentos ligados à renda. Parte dessa sustentação foi favorecida pelos impulsos fiscais recentes, que continuam ajudando a manter o consumo das famílias.

    Esses resultados mostram a força e a capacidade de adaptação da economia brasileira mesmo em um ambiente de juros elevados. No entanto, isso levanta uma preocupação legítima: até onde essa resiliência conseguirá se manter?

    A discussão ganha contornos ainda mais preocupantes diante do debate sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil. Se o país caminha para jornadas menores sem reduzir proporcionalmente os custos das empresas, retirar simultaneamente condições mínimas de concorrência para o comércio nacional pode comprometer ainda mais a produtividade do setor.

    Em outras palavras: reduzir a jornada de trabalho enquanto se amplia a concorrência desigual com plataformas internacionais tende a pressionar margens, reduzir empregos e fragilizar principalmente pequenos e médios comerciantes. O pequeno comércio brasileiro simplesmente não consegue concorrer nas mesmas condições com grandes plataformas globais que operam com escala internacional, estruturas tributárias mais favoráveis e forte capacidade logística.
    
    Isso não significa defender o fechamento da economia ou impedir importações. O ponto central é que precisa existir uma transição equilibrada para uma concorrência justa. Ampliar abruptamente a abertura do mercado sem qualquer adaptação coloca o varejo nacional em posição extremamente vulnerável.

    O Brasil precisa crescer mais rápido para enfrentar seus principais problemas estruturais. Isso exige responsabilidade fiscal, previsibilidade e disciplina nas contas públicas, mas também requer sensibilidade para reconhecer quando determinadas medidas acabam enfraquecendo justamente os setores que mais criam emprego e renda no país.

    A inflação ainda demanda vigilância, mas os indicadores mostram que ela caminha para um ambiente mais administrável. O desafio agora é impedir que, na tentativa de aliviar o custo de alguns produtos importados no curto prazo, o país acabe promovendo um verdadeiro tiro no pé contra o comércio, a indústria e o emprego nacional.

    Carlos Thadeu de Freitas Gomes, 78 anos, é assessor externo da área de economia da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Foi presidente do Conselho de Administração do BNDES e diretor do BNDES de 2017 a 2019, diretor do Banco Central (1986-1988) e da Petrobras (1990-1992.




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