Moisés Laureano de Santana
Democracia em transformação:
Das praças públicas às redes sociais, o desafio da verdade nas eleições do século XXI
Democracia em transformação: das praças públicas às redes sociais, o desafio da verdade nas eleições do século XXI
Por Moisés Laureano de Santana
A democracia sempre dependeu da palavra. Desde as antigas praças gregas até os modernos parlamentos, a construção política das sociedades foi sustentada pela capacidade humana de dialogar, argumentar e decidir coletivamente os rumos da vida em comum. Entretanto, no século XXI, essa dinâmica sofreu uma transformação profunda. As praças públicas deixaram de ser apenas espaços físicos e passaram a existir também em ambientes digitais, especialmente nas redes sociais, onde milhões de pessoas produzem, compartilham e consomem informações em tempo real.
Essa mudança alterou não apenas a velocidade da comunicação, mas também a maneira como a verdade circula dentro das democracias contemporâneas. Se antes o debate político dependia de encontros presenciais, jornais impressos, rádio e televisão, hoje ele acontece em plataformas digitais controladas por algoritmos que selecionam aquilo que cada indivíduo verá. Nesse cenário, as eleições tornaram-se não apenas disputas entre candidatos e partidos, mas também disputas pela atenção, pela narrativa e, sobretudo, pela credibilidade da informação.
O filósofo alemão Immanuel Kant já alertava, ainda no século XVIII, sobre a importância do uso público da razão para a liberdade humana. Em seu famoso ensaio Resposta à Pergunta: O que é o Esclarecimento? (Beantwortung der Frage: Was ist Aufklärung?, 1784), Kant afirma que o esclarecimento acontece quando o indivíduo abandona a “menoridade intelectual” e passa a pensar por si mesmo. Seu lema era claro: Sapere aude — “ouse saber”. Para Kant, a liberdade de fazer uso público da razão era condição essencial para o progresso social e político.
Na contemporaneidade, essa ideia ganha nova relevância. As redes sociais ampliaram enormemente a possibilidade de expressão pública. Nunca tantas pessoas tiveram acesso simultâneo aos meios de comunicação. Um cidadão comum pode influenciar debates nacionais por meio de uma postagem, um vídeo ou uma transmissão ao vivo. Em teoria, isso representa uma ampliação democrática sem precedentes.
Contudo, existe um paradoxo preocupante: ao mesmo tempo em que todos podem falar, torna-se cada vez mais difícil distinguir informação de manipulação. A abundância de conteúdo não necessariamente produz conhecimento. Muitas vezes, produz confusão.
Nesse ponto, as reflexões de Jürgen Habermas tornam-se fundamentais para compreender os desafios atuais. Em sua obra clássica Mudança Estrutural da Esfera Pública (Strukturwandel der Öffentlichkeit, 1962), Habermas analisa como a esfera pública moderna surgiu como espaço de debate racional entre cidadãos livres. Para ele, a democracia depende da existência de uma comunicação baseada no diálogo, na argumentação e na busca coletiva da verdade.
Habermas acreditava que a esfera pública deveria funcionar como ambiente de formação crítica da opinião popular. Entretanto, o próprio filósofo reconheceu, décadas depois, que a digitalização transformou radicalmente essa dinâmica. Em A New Structural Transformation of the Public Sphere and Deliberative Politics (2022), ele demonstra preocupação com a fragmentação do debate público causada pelas plataformas digitais e pelos algoritmos que criam “bolhas” de opinião.
Nas redes sociais, o debate muitas vezes deixa de ser racional para tornar-se emocional. Conteúdos que provocam medo, indignação ou revolta tendem a gerar mais engajamento e, consequentemente, maior alcance. Assim, notícias falsas e discursos extremistas frequentemente se espalham mais rápido do que informações verificadas. A lógica algorítmica privilegia aquilo que prende a atenção, não necessariamente aquilo que é verdadeiro.
Esse fenômeno impacta diretamente as eleições do século XXI. A desinformação tornou-se uma poderosa ferramenta política. Vídeos manipulados, montagens, discursos fora de contexto e campanhas coordenadas de fake news conseguem influenciar percepções coletivas em poucos minutos. Em muitos casos, a mentira repetida inúmeras vezes passa a ser aceita como verdade por determinados grupos sociais.
Além disso, a inteligência artificial elevou ainda mais esse desafio. Atualmente, tecnologias capazes de criar imagens, áudios e vídeos falsos — conhecidos como deepfakes — tornam a manipulação informacional mais sofisticada e difícil de identificar. Assim, a confiança pública nas instituições, na imprensa e até mesmo na própria ideia de verdade passa a ser constantemente ameaçada.
Entretanto, responsabilizar exclusivamente a tecnologia seria simplificar excessivamente o problema. As redes sociais também possuem enorme potencial democrático. Elas permitem mobilizações sociais, denúncias de injustiças, fiscalização política e ampliação da participação cidadã. Muitos movimentos sociais contemporâneos ganharam força justamente por meio do ambiente digital.
O verdadeiro desafio, portanto, não é eliminar a tecnologia, mas desenvolver maturidade democrática para utilizá-la de maneira ética e responsável. Isso exige educação midiática, pensamento crítico e fortalecimento das instituições democráticas.
Nesse contexto, o papel da imprensa profissional permanece essencial. Embora também enfrente crises de credibilidade, o jornalismo sério continua sendo uma das principais barreiras contra a desinformação. Verificar fatos, ouvir diferentes versões e apresentar evidências concretas ainda são práticas indispensáveis para a preservação democrática.
Da mesma forma, escolas e universidades possuem responsabilidade central na formação de cidadãos críticos. Democracias sólidas não sobrevivem apenas por meio de leis ou eleições periódicas; elas dependem da capacidade da população de refletir, questionar e dialogar racionalmente.
Habermas defende justamente a ideia de democracia deliberativa: uma democracia baseada no diálogo público e na construção coletiva do entendimento. Contudo, esse modelo encontra dificuldades em ambientes digitais marcados pela polarização e pela superficialidade dos debates.
Ao mesmo tempo, a reflexão kantiana continua extremamente atual. Quando Kant defendia o uso público da razão, ele já indicava que sociedades livres dependem de cidadãos capazes de pensar autonomamente, sem submissão cega a autoridades, discursos manipuladores ou paixões coletivas. Em um mundo dominado por excesso de informação, essa autonomia intelectual torna-se ainda mais necessária.
As eleições do século XXI revelam, portanto, uma tensão permanente entre liberdade e manipulação, entre participação democrática e desinformação massiva. A democracia contemporânea enfrenta o desafio de preservar a verdade em uma era na qual qualquer pessoa pode produzir conteúdo e qualquer informação pode alcançar milhões de indivíduos instantaneamente.
Mais do que nunca, defender a democracia significa defender também a responsabilidade ética na comunicação. Significa compreender que liberdade de expressão não pode ser confundida com liberdade para destruir deliberadamente a confiança pública por meio da mentira.
No fim, a democracia continua sendo construída pela palavra. A diferença é que, agora, as antigas praças públicas foram substituídas por telas iluminadas, notificações instantâneas e algoritmos invisíveis. O grande desafio do nosso tempo é garantir que, mesmo nesse novo cenário, a verdade não deixe de ser fundamento essencial da convivência democrática.
Moisés Laureano de Santana é advogado, pós-graduado em Direito Público, Tributário e Eleitoral, com ampla e sólida experiência na Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro, atuando em diversos cargos de direção e chefia em instituições governamentais




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