MK - Marcelo Kieling
A Batalha Pela Verdade:
A Mídia, Algoritmos e a Democracia
A Batalha Pela Verdade:
A Mídia, Algoritmos e a Democracia em disputa nas eleições do Quarto Poder ao Ringue Eleitoral
Por Marcelo Kieling
A discussão sobre a mídia, os algoritmos e a democracia em tempos de eleição é realmente complexa e cheia de nuances: A imprensa brasileira sempre ocupou um lugar incômodo — e fundamental — na paisagem democrática. Concebida como contraponto institucional, a mídia profissional construiu ao longo do século XX um capital simbólico de mediação entre o público e o Estado. Nas últimas décadas, porém, essa centralidade foi erodida por três vetores simultâneos: a desconfiança sistêmica dos cidadãos, a fragmentação das audiências nas plataformas digitais e, mais recentemente, a politização explícita do próprio fazer jornalístico. Em tempos de eleição, essa crise de identidade se agudiza. A cobertura política, que deveria informar o eleitor para o exercício do voto consciente, transforma-se frequentemente em arena de disputas narrativas — ora por adesão, ora por rejeição aos polos em confronto.
Há uma cena que se repete em silêncio, e ninguém filma. É meio-dia de uma terça-feira qualquer de campanha eleitoral, e o editor de um grande jornal brasileiro precisa decidir, em quarenta e cinco minutos, qual será a manchete do dia. Sobre a mesa, dois caminhos. O primeiro: um comparativo detalhado dos programas de governo dos candidatos à prefeitura de uma capital — impacto fiscal, viabilidade técnica, promessas que se repetem há três ciclos sem nunca saírem do papel. O segundo: a declaração explosiva de um cabo eleitoral, gravada às pressas, que já viraliza no WhatsApp enquanto o café do editor ainda está quente.
Ele sabe qual delas renderá cliques, compartilhamentos e minutos preciosos de atenção humana. E sabe, também, que essa escolha não é apenas jornalística. É uma decisão política — ainda que ninguém na redação a nomeie assim.
O ringue não é metáfora — é arquitetura.
O que todos sentimos mas poucos articulam com clareza: a imprensa brasileira deixou de ser o real quarto poder para tornar-se um dos lutadores no ringue. E não por escolha heroica, mas por força das circunstâncias e, confesso, por uma certa paixão pelo combate que o jornalismo sempre cultivou em surdina.
Houve um tempo em que a credibilidade jornalística era um ativo herdado, quase uma premissa. O leitor comprava o jornal e, salvo exceções ruidosas, confiava no que lia. Não porque fosse ingênuo, mas porque a mediação era um consenso social. A notícia chegava filtrada por um profissional que, idealmente, colocava o interesse público acima de qualquer outro. Esse contrato implícito ruiu. E não foi apenas a polarização política que o derrubou. Foram os algoritmos, a fragmentação das audiências, a economia da atenção e, sim, uma certa cumplicidade das redações com o ruidoso espetáculo que hoje as consome.
Precisamos observar que está rompido o elo entre modelo de negócio e qualidade da informação. Veículos de imprensa não são entidades abstratas pairando sobre a realidade — são empresas, com balanços, metas de assinatura e receita publicitária. E quando o engajamento emocional vale mais que a profundidade analítica, a equação se inverte: a cobertura "quente" — bastidores, “fontes”, factoides, declarações polêmicas, o denuncismo sem lastro — vence a cobertura "fria" das políticas públicas todas as vezes. Não por maldade, mas por gravidade. O algoritmo empurra para baixo o que exige um enorme esforço, mas temos também os interesses que não fazem parte da pauta.
Conheço redações e conselhos editoriais. Sei como a manchete é decidida menos pela relevância pública e mais pelo músculo narrativo do fato. A declaração agressiva de um candidato vence, por nocaute técnico, a análise de uma proposta de saneamento básico — porque a primeira gera reação imediata, e a segunda exige paciência. E paciência, numa campanha eleitoral, é artigo de luxo.
O que mais me incomoda — e aqui falo como cidadão, não apenas como profissional — não é a existência da cobertura polarizada. Ela é, de certa forma, um real reflexo honesto da atual sociedade polarizada. O que mais me incomoda é a naturalização disso. A ideia de que não há alternativa, de que o jornalismo não pode escapar da lógica binária que domina o debate público. Como se a única escolha possível fosse entre alinhar-se à esquerda ou à direita, quando o papel histórico da imprensa sempre foi o de colocar-se ao lado do leitor — e não de um campo ideológico.
A ascensão dos canais militantes podem ser vistos como um dos vetores dessa crise. É verdade. Mas seria ingenuidade tratar o fenômeno como externo. Em muitos casos, a imprensa tradicional reagiu à perda de audiência imitando as táticas dos concorrentes digitais — mais opinião, menos apuração; mais viral, menos vértebra. O resultado é uma guerra de trincheiras onde ninguém ganha, exceto o algoritmo que alimenta o fogo.
E o leitor — onde fica?
No meio desse ringue, há uma figura que o atual jornalismo esqueceu de consultar: o cidadão comum. Não o militante digital, não o formador de opinião, não o influenciador de ocasião. O cidadão que acorda cedo, pega ônibus, paga conta, e quer saber, honestamente, em quem votar sem ter que decifrar um jogo de xadrez narrativo que não lhe diz respeito.
A crônica da nossa democracia midiática tem sido escrita, nos últimos anos, em terceira pessoa — como se a política fosse um espetáculo distante que se assiste da arquibancada. A pergunta que o jornalismo deveria fazer a cada manchete é simples: isso ajuda o leitor a decidir o voto, ou apenas o posiciona emocionalmente antes da hora?
Tenho em meu foco como um norte que precisamos passar as informações e opinião com ética e verdade. E isto me leva para um caminho: o "modelo de utilidade pública" como um norte editorial. Gosto da expressão. Ela pode devolver ao jornalismo sua vocação original — a de servir, não a de vencer. Uma cobertura que prioriza a avaliação de propostas, que investe em reportagem local, que pratica transparência editorial e, acima de tudo, que ensina o leitor a consumir informação crítica — esse talvez seja o antídoto mais potente contra esta erosão da confiança.
O que nos resta: o espelho ou a janela?
Termino com uma imagem que me persegue desde que li os dados do Reuters Institute sobre a confiança na mídia brasileira. Quarenta e oito por cento. Quase metade do país confia na imprensa — e a outra metade, supõe-se, confia em algo que confirma suas próprias crenças. Não confia na informação, confia na confirmação da bolha digital. Esse é o nó que o jornalismo precisa desatar.
A imprensa brasileira vive hoje uma escolha que não admite meio-termo. Pode continuar a ser um espelho que reflete a polarização, amplificando-a a cada manchete e nutrindo-se do combustível da indignação. Ou pode tentar ser uma janela — imperfeita, sujeita a distorções, mas comprometida com a vista do lado de fora, com o que existe para além do ringue.
Eu, aposto na janela. Não por otimismo ingênuo, mas porque a alternativa — vermos a crônica da próxima eleição escrita pelos algoritmos e não pelos jornalistas — é um preço alto demais para uma democracia que já sangra por tantos outros lados.
Vivendo na era digital, ao criar o hub digital KOMUNIC@, que tem o portal www.komunica.net.br e a webradio www.radiokomunica.com como canais de comunicação, trouxe para junto da minha marca a expressão: informações e opinião com ética e verdade. E assim sigo em frente, tendo a IA como parceira e utilizando as redes como fonte de fornecimento de conteúdo e não como canais de guerra ou de falsidade ideológica ou de defesa de interesses diversos.
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





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