MK - Marcelo Kieling
O Império não caiu: trocou de fantasia
Liberdade para quem?
O Império não caiu: trocou de fantasia
Por Marcelo Kieling
Liberdade para quem?
Há quem diga que o Brasil só chora no samba. Mentira. O Brasil também chora na urna, e esse choro, hoje, se disfarça de voto de protesto, de "bom senso", de promessa de ordem que nunca chega. Em 1989, a Imperatriz Leopoldinense desceu a Marquês de Sapucaí cantando que a liberdade abrisse as asas sobre nós e que a voz da igualdade fosse sempre a nossa voz. Era o centenário da República, e o samba teve a audácia de acreditar que uma nação fundada na escravidão e no privilégio poderia, enfim, virar gente. Trinta e sete anos depois, a mesma avenida, a mesma gente — e o que se ouve não é mais um hino. É um alerta. Um alerta que chega tarde, como quase tudo neste país.
A ironia é cruel, mas é preciso dizê-la: o Império que o enredo denunciava — decadente, incoerente, excludente, com suas fidalguias de fachada e sua corte de privilégios — não morreu em 15 de novembro de 1889. Ele apenas trocou de roupa. Deixou a coroa no museu, vestiu o terno de executivo, passou a falar em "eficiência", em "enxugamento", em "reforma". Mas o gesto é o mesmo: o de quem olha de cima para a maioria e decide, com a frieza de um balanço contábil, quais vidas merecem financiamento e quais podem ser descartadas. A fidalguia de hoje não usa casaca; usa púlpito, algoritmo e a retórica do "cidadão de bem". Por baixo, o absoluto mesmo desprezo.
E é aí que a ácida ironia do samba encontra a nossa tragédia. Quando a extrema-direita fala em "revisar" programas de transferência de renda, em "enxugar" a previdência, em "flexibilizar" o trabalho, não está propondo modernização nenhuma. Está propondo o retorno ao século XIX com wi-fi. É a velha concentração de renda de sempre, agora com verniz de startup, vocabulário de gestão e a arrogância de quem acredita que pobreza é incompetência e que direito é "excesso". Direitos conquistados a duras penas — com greve, sangue, luta, morte até — viram "custos" a serem podados. Como se a dignidade fosse um item de luxo que o orçamento não comporta.
Não me venham com o chavão de que "toda crítica é ideológica". É ideológica, sim, e assumo: acredito que um país que deixa o seu povo morrer de fome para proteger a margem de lucro de alguns é um país doente, e não "eficiente". A neutralidade, nesse ponto, é cumplicidade. Quem diz que "os dois lados são iguais" nunca esteve do lado de baixo da história. O samba, esse sim, sabia de que lado estava: o lado do povo, o lado da igualdade, o lado daqueles que precisam que a República seja muito mais do que um feriado com desfile militar.
O que está em jogo nesta eleição não é uma disputa comum entre matizes econômicos, como querem os que tratam a política como um jogo de xadrez entre iguais. É um referendo sobre que civilização queremos construir — e, dito sem meias palavras, sobre se queremos continuar sendo uma civilização. O projeto que se apresenta como "salvador da pátria" é, na verdade, um projeto de desmonte: desmonte das instituições, desmonte dos mecanismos de controle e equilíbrio da República, desmonte das redes de proteção, desmonte da escola, desmonte do meio ambiente, desmonte da própria ideia de que todos, absolutamente todos, têm direitos. É um projeto que flerta com a catástrofe social e chama isso de "coragem".
E há algo de particularmente cínico nesse flerte. Os mesmos que hoje prometem "paz" são os que cultivam o ódio como ferramenta de governo. Os mesmos que falam em "família" desmontam as condições materiais que sustentam as famílias. Os mesmos que invocam Deus abençoam a fome, a ignorância e a violência como se fossem provações divinas. A militarização da política não é um detalhe de estilo: é o ensaio geral de um autoritarismo que se anuncia sem vergonha, com a plateia aplaudindo de pé. E nós, que já vimos esse filme em outras latitudes e em outros tempos, fingimos que desta vez será diferente porque "o Brasil é diferente". O Brasil não é diferente. O Brasil é apenas mais um país onde a memória é curta e a esperança, maltratada.
Não se trata de demonizar o conservadorismo. Conservadorismo de verdade respeita o que foi construído, preserva o que funciona, desconfia de rupturas. O que se apresenta hoje não é conservadorismo: é ressentimento armado de um programa de ódio. É a nostalgia de uma ordem que nunca existiu para a maioria — a nostalgia de quem sente saudade de um tempo em que o outro não tinha voz, não tinha voto, não tinha vez. Esse projeto não quer conservar nada. Quer destruir o pouco que a Constituição de 1988, mesmo com muitos defeitos, conseguiu arrancar das elites, e destruí-lo com a bênção das urnas, para que depois ninguém possa reclamar: "foi o povo que escolheu". O povo escolheu, sim — escolheu com a barriga vazia, com o medo no peito, com a desinformação no bolso. Chamar isso de democracia é um deboche.
A voz da igualdade, cantada na Sapucaí, hoje soa como um réquiem. Mas réquiem é para os mortos, e o povo brasileiro está vivo — ferido, esfarrapado, mas ainda vivo. A pergunta que a urna faz não é sobre quem merece vencer. É sobre se ainda acreditamos que a República pode ser outra coisa que não seja a continuação do Império só com outras roupas. O sonho que a Imperatriz mandou a gente viver nunca foi o sonho do autoritarismo, da exclusão ou do ódio institucionalizado. Foi o sonho de uma nação soberana, plural e justa — um sonho tão simples e tão caro que parece, hoje, uma provocação.
Que o verde e o branco da esperança popular continuem brilhando, diz o samba. Mas esperança, nesse país, virou mercadoria rara e cara. E há uma verdade amarga que a avenida ensina e a urna insiste em esconder: liberdade sem igualdade é apenas o nome bonito que a elite dá à sua própria impunidade. Se a voz da igualdade não voltar a ser a voz principal do Brasil, não será o retrocesso que vencerá o futuro. Será o passado, inteiro, com a coroa restaurada — e nós, de novo, aplaudindo a própria desgraça como quem assiste a um desfile.
Vote com a voz da igualdade.
Vote com consciência.
Vote 13!
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