JJ
SHOW DE HORRORES
Vade retro, Satanás!
SHOW DE HORRORES
Por JJ
Confesso que relutei em assistir à entrevista concedida por Flávio Bolsonaro a Renata Lo Prete, na Rede Globo. Já desconfiava, diante da notícia do almoço envolvendo a cúpula da emissora e o candidato, que assistiríamos a mais um espetáculo de leniência, complacência e falta de rigor profissional por parte da entrevistadora. Dois pesos e duas medidas, escancarados mais uma vez. Pelo lado do entrevistado, um desastre completo. É difícil compreender como um candidato tão fraco, tão despreparado e tão incapaz de sustentar um raciocínio consistente conseguiu obter vantagem no primeiro turno sobre Lula. Não há a mínima condição de comparação, e nem sequer pretendo fazê-la aqui. Flávio Bolsonaro é um poço de desfaçatez e mentiras, um mitômano contumaz tratado com uma parcimônia constrangedora por Renata Lo Prete. A entrevista, desde o início, parecia destinada a poupar o candidato justamente das perguntas que mais precisavam ser feitas.
Flávio não respondeu nada. Não respondeu porque não tinha o que responder, porque não sabia o que responder ou porque preferiu recorrer à velha estratégia de escapar das questões incômodas por meio de evasivas, insinuações e acusações. E Renata Lo Prete aliviou o que pôde. Não tensionou, não insistiu, não interrompeu quando o entrevistado apresentava afirmações que exigiam contestação e comprovação. Onde deveria haver confronto jornalístico, houve complacência. Onde se exigia rigor, houve tolerância. Onde cabia cobrar respostas, permitiu-se que a conversa prosseguisse como se responder fosse facultativo para quem pretende governar o Brasil. É precisamente esse comportamento que alimenta a percepção de que determinados personagens da política nacional recebem tratamento privilegiado de setores da imprensa. O jornalismo não existe para proteger candidatos, administrar constrangimentos ou oferecer escudos retóricos a quem não consegue sustentar as próprias afirmações. Existe para perguntar, confrontar, verificar e expor. Quando abdica dessas funções, deixa de cumprir seu papel democrático.
E pasmem: Flávio ainda tentou explorar uma suposta gravação envolvendo uma contribuição de Vorcaro para um filme sobre Lula. Uma alegação dessa gravidade exigia perguntas imediatas, insistentes e objetivas: onde está a gravação? Qual é sua origem? Foi autenticada? O que efetivamente comprova? Qual é a cronologia dos acontecimentos? Nada disso pode ser substituído por insinuações lançadas diante das câmeras. O episódio exigia rigor, não indulgência. Se há provas, que sejam apresentadas e examinadas; se não há, que o candidato responda pela irresponsabilidade de lançar suspeitas sem sustentação demonstrada. A entrevistadora tinha a obrigação profissional de exigir essas explicações, em vez de permitir que a acusação produzisse seu efeito político sem o devido escrutínio. Uma entrevista não pode se transformar em palanque para insinuações, muito menos quando o assunto envolve personagens poderosos, dinheiro e interesses políticos. O que se viu, a meu ver, foi mais uma demonstração de como a ausência de confrontação pode favorecer quem deveria estar sendo questionado. E o mais grave é que esse tipo de tratamento não acontece no vácuo: insere-se num ambiente de profundas assimetrias na cobertura política, no qual o rigor parece variar conforme o entrevistado e as conveniências em jogo.
Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno e pode até vencer porque é uma peça de um sistema que não depende necessariamente de candidatos brilhantes, preparados ou capazes de apresentar um projeto consistente para o país. Depende de personagens funcionais aos interesses que o sustentam. Um sistema controlado, em larga medida, por especuladores, big techs, plataformas de apostas e conglomerados de comunicação, cujos interesses econômicos nem sempre coincidem com os interesses da maioria da população. É preciso investigar essas relações, expor seus mecanismos e cobrar transparência. A entrevista não lhe tirou um voto sequer. E esse é o aspecto mais perturbador: metade do eleitorado brasileiro parece viver num estado de transe político, indiferente a fatos graves, contradições e condutas que deveriam provocar, no mínimo, indignação e questionamento. Não se trata de declarar milhões de brasileiros incapazes de pensar, mas de reconhecer o grau de blindagem ideológica que pode levar pessoas a ignorar fatos quando estes contrariam suas convicções. O Brasil está diante de um problema que ultrapassa candidaturas e eleições: a corrosão da capacidade de discernir entre fatos e propaganda, entre evidência e mentira, entre interesse público e conveniência de grupos poderosos.
Eleger Lula significa, também, impor um obstáculo importante ao projeto de Donald Trump e à articulação internacional de forças que pretendem subordinar a política aos interesses de poderosos grupos econômicos e tecnológicos. Mas precisamos ir além da disputa eleitoral e refletir seriamente sobre como enfrentar a intoxicação política que tomou conta de uma parcela da sociedade brasileira. Como recuperar a capacidade de indignação diante do absurdo? Como fazer com que fatos, provas e responsabilidades voltem a ter algum peso no debate público? Parte do Brasil parece comportar-se como personagem da franquia Resident Evil, caminhando alegremente, em meio à contaminação, rumo ao abismo. E a imprensa, que deveria ajudar a esclarecer o caminho, não pode se dar ao luxo de contribuir para a névoa. Jornalisticamente, a entrevista foi um desastre, um verdadeiro show de horrores. Um entrevistado que não respondeu ao que precisava responder e uma entrevistadora que, na minha avaliação, não cobrou o que precisava cobrar. Dois pesos e duas medidas, mais uma vez. Diante de tamanha complacência com a mentira, a manipulação e a irresponsabilidade política, só me resta concluir como comecei:
Vade retro, Satanás!
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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