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Barra Mansa,17/10/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    O dedo na biometria, o dedo na urna

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    O dedo na biometria, o dedo na urna

    O dedo na biometria, o dedo na urna

    Por Marcelo Kieling

    Há uma cena que se repete em filas de atendimento eleitoral por todo o país, e quase ninguém repara na poesia que ela esconde. O eleitor da terceira idade encosta o dedo no leitor biométrico, espera o sinal, e a máquina confirma: está vivo. É a chamada prova de vida, exigência burocrática para manter o título em dia. Só que o gesto é maior do que o papel dele. Aquele mesmo dedo, dias depois, vai apertar o botão da urna e escolher o futuro de um país de mais de duzentos milhões de gente. Provar que está vivo é obrigação. Provar para que se viveu — isso é o voto.

    O eleitor idoso brasileiro não carrega um voto como outro qualquer. Carrega um voto com memória dentro. Ele é de um tempo em que água era tirada de cacimba, puxada balde por balde, com o corpo curvado e a paciência de santo. De um tempo em que estudar era uma expedição: estrada a pé, sol de trinta e tantos graus, chuva que desmanchava o chão. De um tempo em que a noite era escura de verdade — não a penumbra de um apagão passageiro, mas o breu absoluto de quem não tinha o que acender. De um tempo em que café com farinha era café da manhã, almoço e, quando apertava, jantar. Esse eleitor não leu sobre o Brasil pobre em livro. Ele morou dentro dele.

    Por isso, quando se pergunta a esse eleitor se o país melhorou ou piorou nos últimos vinte e cinco, trinta, cinquenta anos, a pergunta não é abstrata. Ela tem endereço. Chegou na sua propriedade, ou na de alguém que ele conhece, o fio da Luz para Todos, que levou eletricidade onde a vela era o único relógio da casa? Chegou a cisterna que guardou a água da chuva no sertão para não morrer de sede o pé de feijão e a esperança junto? Chegou a visita do PSF, aquele agente de saúde que passou a bater na porta e a olhar a pressão de quem antes só via médico quando já era tarde? Chegou o ônibus do transporte escolar, que poupou a perna do menino que ia a pé? Chegou a merenda que segurou a criança na escola pela barriga, porque menino com fome não aprende, foge?

    E os filhos, e os netos? Alguém na família conseguiu o FIES, o ProUni, virou a primeira pessoa de diploma na árvore genealógica? Alguém foi atendido pelo SAMU na madrugada em que o carro próprio não chegaria a tempo — ou chegaria sem quem dirigisse? Alguém recebeu a chave do Minha Casa Minha Vida e chorou no primeiro banho quente da casa própria? Alguém atravessou o fim do mês porque o Gás do Povo chegou antes que a panela ficasse vazia de vez?

    São perguntas que não se respondem com discurso. Respondem-se com a vida que se teve.

    Agora, sejamos justos com a verdade, porque crônica que só elogia vira panfleto. O Brasil de hoje não é o Brasil que desejamos — e o eleitor da terceira idade sabe disso melhor do que ninguém, porque já viu promessa nascer, crescer e morrer em quantidade que encheria arquivo. Faltam empregos que paguem um salário com dignidade. Falta segurança para sair à rua sem apertar o passo. Faltam hospitais, faltam creches, sobra fila. O país que melhorou em muita coisa continua brutal com muita gente. Reconhecer o caminho andado não é assinar atestado de que a viagem terminou bem. É exatamente o contrário: quem sabe o preço do que foi conquistado é quem menos aceita ver estrada abandonada no meio.

    Aí entra a palavra que domina tudo: polarização. Dizem que o Brasil está dividido como nunca, que a conversa acabou, que vizinho não cumprimenta mais vizinho. Pode ser. Mas polarização, no fundo, é só o nome técnico de uma coisa antiga: gente que discorda sobre o rumo. O problema não é discordar. O problema é trocar a avaliação pelo ódio, o argumento pela alcunha, o debate pela vaia. A pergunta que fica é simples de enunciar e difícil de responder: qual é o seu lugar na polarização? Porque o voto não é um tapa no adversário. O voto é uma auditoria. É o momento em que o cidadão senta consigo mesmo e faz as contas das entregas e das faltas — do que chegou e do que foi prometido e não veio — e decide, naquele minuto de cabine, se o modelo em curso merece continuar avançando ou se é hora de dar uma pausa, mudar de rota, testar outro caminho. Avançar ou frear. Manter ou corrigir. Nenhuma dessas escolhas é vilã. Vilã é a abstenção, o "não adianta", o "sempre foi assim".

    E é aqui que a prova de vida volta, fechando o círculo. Porque votar, para quem viu o Brasil de cacimba virar o Brasil de torneira, não é um trâmite. É um atestado. É dizer ao país: eu estive aqui, eu vi a diferença, eu me importo com o que vem depois de mim — com os netos, com a comunidade, com o menino que hoje anda a pé para a escola do jeito que um dia eu andei. O voto do idoso é a memória do país votando. É o passado com opinião sobre o futuro.

    Então reflita. Não no grupo da família, não na corrente que circula no celular, não no palpite pronto que o outro insiste em vender. Reflite na sua própria vida, que é o único dado que ninguém pode falsificar: a água que você bebeu, o escuro em que você dormiu, a estrada que você andou, a farinha que você comeu, a luz que chegou — ou que não chegou — na sua porta. Compare o Brasil da sua infância com o Brasil dos seus netos. Faça a avaliação que só o senhor, que provou vida na biometria e na estrada, está autorizado a fazer.

    E depois encoste o dedo na urna com a mesma serenidade com que encostou no leitor. Não como quem cumpre tabela. Como quem assina, mais uma vez, a certidão de que está vivo — e de que o Brasil, por tudo o que já provou, também está.

    Vote consciente. Vote 13.

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