Moisés Laureano de Santana
A POLÍTICA PERDEU OS JOVENS OU OS JOVENS MUDARAM A POLÍTICA?
A diferença parece pequena, mas muda tudo.
A POLÍTICA PERDEU OS JOVENS OU OS JOVENS MUDARAM A POLÍTICA?
Por Moisés Laureano de Santana
Entre a desconfiança nos partidos, a frustração com as instituições e a força das redes sociais, uma nova geração pode estar menos disposta a seguir a política tradicional — mas nem por isso deixou de querer participar e transformar o país.
Existe uma pergunta que a política brasileira ainda não conseguiu responder completamente: o jovem perdeu o interesse pela política ou perdeu a paciência com a política como ela é feita?
A diferença parece pequena, mas muda tudo.
Nas últimas décadas, a relação entre juventude e instituições políticas passou por uma transformação profunda. Partidos, eleições, governos e discursos tradicionais continuam presentes, mas já não monopolizam a atenção de uma geração acostumada a escolher, comentar, compartilhar, questionar e produzir informação em tempo real.
O jovem que não participa de uma reunião partidária pode estar mobilizando uma campanha nas redes. Quem não confia em políticos pode participar de uma ação comunitária. Quem não se identifica com nenhum partido pode ter posições muito claras sobre meio ambiente, educação, emprego, segurança, direitos, tecnologia ou custo de vida.
Talvez o problema esteja justamente em tentar medir a participação política apenas pelas antigas réguas.
1. Desconfiança não é necessariamente apatia
É tentador afirmar que os jovens estão “desencantados” com a política. Em parte, há razões para isso.
Escândalos, promessas não cumpridas, polarização excessiva, conflitos entre instituições e a sensação de que problemas antigos permanecem sem solução alimentam a desconfiança.
Para quem cresceu conectado à internet, a velocidade das mudanças também produz uma expectativa diferente. O jovem pode esperar respostas rápidas para problemas que a política institucional costuma tratar lentamente.
Existe, então, um choque entre duas velocidades: a velocidade da sociedade digital e a velocidade das instituições.
Mas desconfiança não significa necessariamente indiferença.
Um cidadão pode não acreditar em determinado partido e continuar acreditando na importância de democracia, participação e fiscalização do poder público.
2. O partido perdeu espaço para a causa?
A política tradicional costuma perguntar: “De que partido você é?”. Uma parcela da juventude parece responder com outra pergunta: “Qual causa você defende?”. Essa mudança é relevante.
Em vez de construir uma identidade política exclusivamente em torno de uma legenda, muitos jovens organizam suas opiniões a partir de temas. Podem defender políticas ambientais, melhores oportunidades de trabalho, educação pública, empreendedorismo, combate à violência, igualdade, liberdade de expressão ou redução de impostos sem necessariamente se encaixar perfeitamente em uma classificação partidária. Isso torna o eleitor mais difícil de catalogar. Também torna o debate mais complexo.
O jovem pode ser conservador em um assunto e progressista em outro. Pode defender maior presença do Estado em determinada área e menos intervenção em outra.
A velha divisão entre “direita” e “esquerda” continua existindo, mas nem sempre consegue explicar toda a diversidade de posições.
3. As redes sociais viraram uma nova praça pública
Para essa geração, a participação política também acontece onde a vida cotidiana acontece: na internet.
Vídeos curtos, podcasts, transmissões ao vivo, memes, comentários e comunidades digitais transformaram a maneira de consumir informação política.
Isso trouxe ganhos e riscos.
Por um lado, ampliou o acesso ao debate público. Um jovem que jamais entraria em uma sede partidária pode acompanhar uma sessão legislativa, questionar um candidato, produzir conteúdo ou organizar uma mobilização sem sair de casa.
Por outro, a mesma estrutura pode favorecer desinformação, discursos de ódio, manipulação emocional e bolhas em que o usuário passa a conviver apenas com opiniões semelhantes às suas.
O desafio, portanto, não é apenas colocar o jovem dentro da política. É ajudá-lo a distinguir participação de engajamento vazio e informação de desinformação.
4. A urna ainda importa
Apesar das mudanças, as eleições continuam sendo um dos principais instrumentos de participação democrática.
O voto permite escolher representantes, punir governos, premiar administrações e alterar os rumos das políticas públicas.
Mas a relação do jovem com a urna pode ser menos marcada por lealdade e mais por avaliação.
O eleitor jovem pode mudar de candidato com maior facilidade quando percebe que suas expectativas não foram atendidas. Isso aumenta a importância de temas concretos: emprego, renda, educação, segurança, moradia, saúde mental, transporte, acesso à tecnologia e perspectivas de futuro.
Para uma geração que enfrenta dificuldades para construir autonomia financeira, política não é uma discussão abstrata.
É a possibilidade — ou impossibilidade — de construir uma vida independente.
5. O futuro pesa mais do que o passado
Existe ainda uma diferença importante entre gerações.
Quem já construiu carreira, patrimônio ou aposentadoria tende a avaliar a política também a partir de conquistas acumuladas. Para muitos jovens, entretanto, o principal patrimônio ainda é uma expectativa.
Eles querem saber se terão emprego. Se conseguirão comprar uma casa. Se poderão estudar. Se terão segurança. Se conseguirão empreender. Se poderão construir uma família. Se haverá oportunidades suficientes para que o esforço produza algum resultado.
Quando essas respostas parecem negativas, cresce a frustração.
E frustração política pode assumir diferentes formas: voto de protesto, mudança de candidato, ativismo, cobrança nas redes, participação comunitária ou simplesmente afastamento.
6. O perigo de confundir silêncio com desistência
Há uma armadilha importante nesse debate: acreditar que todo jovem que não participa da política tradicional está desinteressado do país. Não necessariamente.
A política também está em uma associação de moradores, em um projeto social, em uma campanha de arrecadação, em uma discussão sobre transporte público, em uma manifestação, em uma iniciativa ambiental ou em uma comunidade digital.
Participar politicamente não significa apenas disputar eleição.
É também fiscalizar, cobrar, organizar, denunciar, propor, informar e ajudar a construir soluções.
A questão é saber se as instituições estão preparadas para reconhecer essas novas formas de participação.
7. O que os partidos ainda não entenderam?
Talvez uma das maiores dificuldades esteja na comunicação.
Parte da política continua falando para o jovem em vez de conversar com ele.
Discursos excessivamente técnicos, slogans repetidos e campanhas baseadas apenas em confronto podem produzir distância.
O jovem não quer necessariamente uma política sem conflito. Quer entender por que determinado conflito importa para sua vida.
Quer respostas. Quer coerência. Quer saber quem paga a conta, quem será beneficiado, quais são os resultados esperados e em quanto tempo eles podem aparecer.
Mais do que pedir confiança, instituições e políticos precisam construir motivos para que ela exista.
8. Uma geração pode estar reinventando a participação
A pergunta inicial talvez tenha uma resposta menos confortável.
A política pode ter perdido parte dos jovens justamente porque não percebeu que eles mudaram.
A nova geração cresceu em um ambiente de comunicação horizontal, no qual qualquer pessoa pode publicar, contestar e formar comunidades. Esperar que ela participe da vida pública exatamente como gerações anteriores participaram pode ser um erro.
Isso não significa que partidos e eleições perderão importância.
Significa que terão de disputar atenção e confiança em um ambiente muito mais fragmentado.
A juventude não precisa escolher entre ser politicamente engajada ou abandonar a política. Pode construir uma terceira via: participar sem necessariamente aderir às estruturas tradicionais.
9. E agora?
O futuro da democracia brasileira também dependerá da capacidade de transformar desconfiança em participação.
Se os jovens forem tratados apenas como eleitores a serem conquistados durante uma campanha, a distância tende a aumentar.
Se forem reconhecidos como cidadãos que têm críticas, propostas e novas formas de organização, a relação pode mudar.
Talvez a pergunta correta, portanto, não seja se a política perdeu os jovens. Talvez devêssemos perguntar se a política tradicional está preparada para acompanhar uma geração que não aceita mais receber participação pronta, empacotada e entregue de quatro em quatro anos. Porque democracia não termina no dia da eleição.
E uma juventude que questiona, cobra, organiza e procura novas formas de participar não é necessariamente uma geração sem política. Pode ser justamente uma geração dizendo, em voz alta, que quer uma política diferente.
Cabe aos jovens decidir se transformarão essa insatisfação em participação. E cabe às instituições decidir se terão coragem de ouvi-los antes que seja tarde.
Moisés Laureano de Santana é advogado, pós-graduado em Direito Público, Tributário e Eleitoral, com ampla e sólida experiência na Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro, atuando em diversos cargos de direção e chefia em instituições governamentais




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