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Barra Mansa,14/09/2026

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    Moisés Laureano de Santana

    A ELEIÇÃO NO ALGORITMO:

    QUEM DECIDE O QUE O ELEITOR BRASILEIRO VÊ ANTES DE VOTAR?


    A ELEIÇÃO NO ALGORITMO:

    A ELEIÇÃO NO ALGORITMO: QUEM DECIDE O QUE O ELEITOR BRASILEIRO VÊ ANTES DE VOTAR?

    Por Moisés Laureano de Santana

    Da recomendação de conteúdo aos vídeos produzidos por inteligência artificial, a disputa eleitoral chega às telas dos brasileiros e levanta uma questão que vai muito além da tecnologia: quem está ajudando a definir aquilo que o eleitor vê, acredita e leva para a urna?

    Faltam poucas semanas para as eleições de 2026. Em 4 de outubro, mais de 158 milhões de brasileiros estarão aptos a votar para presidente, governador, senador e deputados. A escolha, porém, não começa diante da urna eletrônica. Para uma parcela cada vez maior da população, ela começa muito antes, na tela do celular. 

    É ali que o eleitor recebe um vídeo, compartilha uma mensagem, acompanha um influenciador, assiste a um debate, lê uma notícia ou se depara com uma publicação sobre determinado candidato. Em muitos casos, não foi ele quem procurou aquele conteúdo. Foi a plataforma que o colocou diante dele.

    Essa mudança parece simples, mas altera profundamente a forma como a política circula. A televisão e o rádio continuam importantes, assim como o jornalismo profissional. Entretanto, as redes sociais e as plataformas de vídeo passaram a ocupar espaço central na descoberta e no consumo de informação. No Brasil, 81% dos usuários de internet declararam usar redes sociais em 2025, segundo a TIC Domicílios. Quase metade também informou ler jornais, revistas ou notícias pela internet. 

    A eleição, portanto, também acontece no algoritmo.

    1. O eleitor vê o que escolhe — ou o que lhe é recomendado?

    Durante décadas, a comunicação política funcionou em uma lógica relativamente conhecida: partidos produziam suas mensagens, veículos de comunicação selecionavam parte delas e o público escolhia o que acompanhar.

    Nas plataformas digitais, essa equação mudou.

    O usuário continua podendo escolher o que procura, mas uma parcela significativa do que aparece na tela é organizada por sistemas automatizados. Eles analisam comportamentos, interesses e interações para definir quais conteúdos terão maior probabilidade de prender a atenção.

    É por isso que duas pessoas podem abrir a mesma rede social, no mesmo momento, e encontrar ambientes políticos completamente diferentes.

    Uma pode receber vídeos sobre economia. Outra, sobre segurança pública. Uma terceira pode ser exposta repetidamente a críticas contra determinado candidato. Outra pode receber conteúdos que reforçam sua preferência.

    Isso não significa que o algoritmo tenha escolhido o voto de alguém. A questão é mais complexa — e justamente por isso mais importante.

    Antes de decidir em quem votar, o cidadão precisa decidir dentro de qual ambiente de informação está tomando essa decisão.

    2. A política virou uma disputa pela atenção

    A mudança também alterou a natureza das campanhas.

    O desafio já não é apenas apresentar propostas. É conseguir alguns segundos da atenção de um eleitor que recebe centenas de estímulos diariamente.

    Nesse ambiente, o conteúdo mais compartilhável pode ter vantagem sobre o mais completo. Uma frase curta pode circular mais do que um programa de governo. Um vídeo emocional pode alcançar mais pessoas do que uma entrevista de uma hora. Uma acusação pode se espalhar antes que uma explicação consiga chegar ao mesmo público.

    A política passa, então, a disputar não apenas votos, mas atenção, engajamento e visibilidade.

    Essa transformação ajuda a explicar por que influenciadores e criadores de conteúdo ganharam espaço no debate público. Eles não precisam necessariamente ocupar um cargo político para participar da formação da opinião. Podem atuar como intérpretes da política, comentaristas, críticos ou apoiadores de candidatos.

    O fenômeno também desafia o jornalismo. Em um ambiente dominado pela velocidade, a informação apurada concorre com opinião, entretenimento, publicidade, propaganda e conteúdo produzido pelo próprio usuário.

    O resultado é uma fronteira cada vez mais difícil de enxergar.

    3. Quando a inteligência artificial entra em cena

    Se as redes sociais mudaram a distribuição da informação, a inteligência artificial está mudando sua produção.

    Hoje, já é possível criar ou alterar imagens, vozes, vídeos e textos em poucos minutos. Uma pessoa pode fazer um candidato parecer dizer algo que nunca disse ou produzir uma imagem de um acontecimento que nunca ocorreu.

    É aí que entra um dos maiores riscos eleitorais de 2026: o conteúdo falso pode não precisar convencer todo mundo. Basta alcançar o público certo, no momento certo e com velocidade suficiente para produzir dúvida, indignação ou rejeição.

    A legislação eleitoral brasileira já incorporou essa preocupação.

    Para as eleições deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras específicas para o uso de inteligência artificial. Conteúdos sintéticos produzidos ou significativamente alterados por IA devem ser identificados de maneira explícita, destacada e acessível. A regra alcança textos, áudios, vídeos e imagens. 

    Há ainda uma restrição especialmente relevante: novos conteúdos sintéticos que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas não podem ser publicados, republicados ou impulsionados no período que começa 72 horas antes da eleição e termina 24 horas depois do pleito.

    O TSE também proibiu que provedores de sistemas de inteligência artificial recomendem candidatos, indiquem preferência eleitoral ou favoreçam ou desfavoreçam politicamente candidaturas por meio de respostas automatizadas. 

    A regra é clara. O problema é a velocidade da tecnologia.

    4. O desafio não é apenas descobrir o que é falso

    Existe uma diferença importante entre desinformação e manipulação.

    Uma informação falsa pode ser desmentida. Um conteúdo manipulado pode ser retirado. Mas a dúvida deixada depois da circulação de uma mentira é muito mais difícil de apagar.

    Imagine um vídeo falso de um candidato circulando milhões de vezes durante uma campanha. Mesmo que seja identificado como montagem horas depois, milhares de pessoas já podem ter assistido, comentado ou compartilhado.

    A pergunta deixa de ser apenas “isso é verdadeiro?”. Passa a ser: quantas pessoas viram antes da correção chegar?

    Essa é uma das grandes fragilidades do ecossistema digital. A mentira pode viajar em alta velocidade; a checagem precisa de contexto, investigação e tempo.

    Por isso, combater a desinformação não depende somente de remover conteúdos. Depende também de educação digital, jornalismo profissional, transparência das plataformas e capacidade do cidadão de questionar aquilo que recebe.

    5. WhatsApp, vídeos curtos e a política que chega pela conversa

    Há ainda outro componente fundamental: nem toda informação política nasce em uma página pública.

    No Brasil, aplicativos de mensagens fazem parte da vida cotidiana. Uma notícia pode chegar ao eleitor por um grupo da família, uma conversa entre amigos, uma comunidade religiosa, uma associação de bairro ou um grupo profissional.

    Nesse espaço, a informação circula acompanhada de confiança pessoal.

    É diferente receber uma publicação de um desconhecido e receber a mesma mensagem enviada por alguém próximo.

    Por isso, o combate à desinformação eleitoral não pode olhar apenas para grandes plataformas abertas. É preciso compreender também como conteúdos políticos são transformados, recortados e redistribuídos em redes privadas e semiprivadas.

    6. O algoritmo não é o único personagem

    É tentador transformar a tecnologia em vilã. Seria, porém, uma simplificação.

    O eleitor não é um espectador passivo. Ele escolhe, rejeita, comenta, compartilha, pesquisa e também produz conteúdo.

    Além disso, campanhas políticas tomam decisões estratégicas. Influenciadores escolhem pautas. Plataformas definem regras. Empresas desenvolvem sistemas. Jornalistas selecionam informações. E o cidadão decide em quais fontes confiar.

    Existe, portanto, uma cadeia de responsabilidades.

    O algoritmo pode determinar a visibilidade de um conteúdo, mas alguém produziu aquele conteúdo. Alguém decidiu compartilhá-lo. Alguém acreditou nele. E alguém pode ter lucrado com sua circulação.

    É justamente nessa cadeia que está uma das perguntas mais importantes da eleição de 2026.

    7. Quem controla a informação?

    A resposta não está em um único lugar.

    O poder está distribuído entre plataformas digitais, sistemas de recomendação, campanhas, influenciadores, veículos de comunicação, empresas de tecnologia e usuários.

    Essa distribuição torna o cenário mais democrático em alguns aspectos e mais difícil de controlar em outros.

    Nunca foi tão fácil para um cidadão produzir e publicar sua opinião. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil para o público distinguir, em meio ao excesso de informação, o que merece confiança.

    O relatório mais recente do Reuters Institute aponta justamente para essa transformação: no Brasil, o consumo de notícias por plataformas digitais e redes sociais continua relevante, enquanto meios tradicionais enfrentam perda de espaço e confiança. O estudo também registra o crescimento do uso de chatbots de inteligência artificial como fonte de informação. 

    Isso significa que a disputa pela informação política está migrando para ambientes cada vez mais personalizados.

    8. A eleição pode ser decidida também pela capacidade de filtrar

    No fim das contas, a tecnologia não elimina a responsabilidade individual. Ela a torna maior.

    Em 2026, saber votar não significa apenas conhecer candidatos e propostas. Significa também saber reconhecer uma fonte, desconfiar de um vídeo perfeito demais, conferir uma informação antes de compartilhá-la e perceber quando um conteúdo foi criado para provocar uma reação emocional imediata.

    O eleitor não precisa ser especialista em tecnologia. Precisa desenvolver uma habilidade mais simples e mais poderosa: parar antes de acreditar e compartilhar. Isso vale para todos os lados políticos.

    A democracia depende de divergência. Não depende, porém, de versões fabricadas da realidade.

    9. A urna começa antes da urna

    A eleição de 2026 será realizada em 4 de outubro, mas a disputa pelo voto já está acontecendo. E uma parte importante dela ocorre longe dos palanques, dos debates e do horário eleitoral. Ela acontece no celular.

    A cada vídeo recomendado, postagem compartilhada, pesquisa feita, comentário publicado ou conteúdo produzido por inteligência artificial, constrói-se uma pequena parte do ambiente no qual o eleitor tomará sua decisão.

    A questão central, portanto, não é saber se o algoritmo vai escolher o próximo presidente, governador ou parlamentar. Não vai.

    A questão é mais sutil: quem está ajudando a construir o caminho informacional que leva o eleitor até a urna?

    Se a democracia pressupõe cidadãos capazes de escolher livremente, também pressupõe que eles tenham condições de acessar informações confiáveis para fazer essa escolha.

    Em uma eleição cada vez mais digital, talvez a disputa mais importante não seja apenas pela atenção do eleitor. Seja pela realidade que chegará até ele.

    Moisés Laureano de Santana é advogado, pós-graduado em Direito Público, Tributário e Eleitoral, com ampla e sólida experiência na Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro, atuando em diversos cargos de direção e chefia em instituições governamentais 




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