MK - Marcelo Kieling
O jornalismo não morreu de mentira — morreu de omissão.
Mas pode ressuscitar
O jornalismo não morreu de mentira — morreu de omissão. Mas pode ressuscitar
A imprensa não perdeu o leitor porque mentiu. Perdeu porque aprendeu a contar a verdade pela metade. E, de vez em quando, ela dá um sinal de que ainda sabe dizer a verdade inteira.
Por Marcelo Kieling
Defendi a imprensa a vida inteira. Passei décadas entre redações e assessorias repetindo que jornalismo é a base da democracia — e sigo repetindo. Mas tem hora em que defender vira cumplicidade. Não dá mais para defender, sem autocrítica, o que a própria imprensa fez consigo mesma. A conta chegou, e está medida em audiência, receita e relevância.
Os números não deixam espaço para rodeio: a confiança em notícias no Brasil despencou de 62% em 2015 para 36% em 2026, segundo o Reuters Institute. Menos de quatro em cada dez brasileiros acreditam no que leem. É a pior marca em 12 anos — e fica até abaixo da média mundial, que está em 37%. Quando o Brasil perde até para a média global, o problema não é o público. É o produto.
O viés que ninguém vê
Vamos falar claro, sem eufemismo: a gritaria contra as "fake news" é, em boa medida, cortina de fumaça. O problema central da cobertura política no Brasil não é a mentira — é a verdade parcial, organizada com capricho.
Toda notícia escolhe: o que virar pauta, quem ouvir, qual dado esconder no fim do texto, qual adjetivo colar no fato. Isso não é novidade: os estudos clássicos de comunicação, lá dos anos 1970, já mostravam que o poder da mídia está menos em dizer o que pensar e mais em decidir sobre o que e como pensar. Quem já sentou numa sala de redação sabe: a decisão mais política de um veículo não sai no editorial. Sai na reunião de pauta.
E aqui está o truque sujo: omitir é a forma mais eficiente de direcionar, porque se esconde atrás do manto da apuração. Nada no texto é falso. Mas algo essencial no texto está ausente. E ausência não gera retratação, não gera correção, não gera escândalo. É o vício perfeito: invisível para o leitor, confortável para o editor, letal para a credibilidade.
Por que o sistema premia a distorção
Não é conspiração — é incentivo. E incentivo é pior, porque conspiração se desmonta e incentivo se reproduz sozinho. Três forças sustentam isso.
A primeira é a economia da atenção. Com a receita migrando do papel e da TV para as plataformas que pagam por engajamento, o conteúdo que confirma a crença do público passou a valer mais que o que incomoda. O algoritmo não tem opinião política; tem opinião comercial. E a opinião comercial dele é: raiva retém mais que contexto.
A segunda é a polarização. As pesquisas de Lilliana Mason (Uncivil Agreement, 2018) e de Krupnikov e Ryan (The Other Divide, 2022) mostram que o partido virou torcida — um marcador de identidade mais forte que religião, região ou classe. O leitor passou a exigir do veículo a defesa do "seu lado", e o mercado, sempre ágil, atendeu. No Brasil, o fenômeno é documentado pela academia: estudos como os de Luis Felipe Miguel descrevem a posição ambígua da grande imprensa diante da polarização — ao mesmo tempo árbitro que se declara neutro e jogador que tem muito a perder em cada jogo.
A terceira é o esvaziamento das redações. Cortar apuração é mais barato que sustentá-la, e opinião disfarçada de notícia custa uma fração do jornalismo verificado. O resultado está nas bancas e nos feeds: mais colunistas, menos repórteres; mais previsão, mais verificação.
Um sinal de vida — vindo de onde menos se espera
Pois bem. Talvez exista algum sinal de que o jornalismo sério não morreu de vez. E o sinal veio de onde poucos esperavam.
Em 23 de setembro de 2026, o Estadão publicou o editorial "Flávio e a sombra dos milicianos". Sem rodeios, o jornal afirmou que a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência embute o "risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República". E não ficou no adjetivo: relembrou que uma assessora do senador negociou quase R$ 200 mil em emendas parlamentares com Robson Calixto, o "Peixe", miliciano condenado pelo Supremo por integrar a organização criminosa ligada aos mandantes do assassinato de Marielle Franco. Lembrou também que o próprio Flávio já disse, em discurso, que "não se importaria" em pagar mensalidades de "R$ 30 ou R$ 40" às milícias para "ter mais segurança".
Por que isso importa? Porque o Estadão é um dos jornais mais conservadores do país. Não foi a esquerda que deu o alerta — foi um veículo que historicamente elege capas, define pautas e raramente incomoda o campo que considera "seu". Quando um jornal assim nomeia um risco desses, com nome, número e condenação criminal no meio, ele está fazendo exatamente o que a coluna inteira deste texto cobra: dizer a verdade inteira, mesmo quando ela incomoda o próprio lado. É o oposto da omissão. É o jornalismo fazendo o seu trabalho mais elementar — e mais raro.
Aqui vai a minha opinião, sem anestesia: esse editorial vale mais do que mil manifestos sobre "defesa da imprensa". Não porque o conteúdo seja novidade — as ligações de Flávio Bolsonaro com milicianos estão documentadas há anos e boa parte da grande mídia tratou o tema com a delicadeza de quem não quer queimar a fonte. Vale porque mostra que a fronteira ética ainda existe e pode ser cruzada de dentro para fora. Dito isso, mantenho o pé atrás: um editorial corajoso não é redenção. Se o sinal for episódico — coragem numa semana, condescendência na outra —, não passa de ajuste de posição num tabuleiro eleitoral. A volta da ética no jornalismo não se proclama num editorial; se comprova em cem reuniões de pauta seguidas. O que me anima não é o Estadão ter dito. É o Estadão ter precisado dizer — e ter dito mesmo assim.
Há quem leia o editorial com desconfiança, e a desconfiança não é tola: parte da imprensa progressista perguntou se aquilo era autocrítica ou apenas um aviso do conservadorismo paulista, que em 2018 equiparou Haddad a Bolsonaro e agora se incomoda com um candidato que considera imprestável para o mercado. A pergunta é legítima — e é exatamente o tipo de checagem que o jornalismo sério deve fazer consigo mesmo. Mas atenção: usar a suspeita de motivação para descartar o conteúdo é cair na mesma armadilha da omissão. Fato é fato, mesmo quando o veículo que o publica tem interesse próprio. O leitor adulto aguenta as duas coisas ao mesmo tempo: reconhecer o acerto e vigiar a intenção.
Os números da desconfiança
O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, registra confiança em notícias no Brasil em 36% — mínima em 12 anos, abaixo da média global de 37%. A trajetória é inequívoca: 62% em 2015, 42% em 2025, 36% em 2026. No mesmo período, o público migrou para ecossistemas alternativos, influenciadores e, cada vez mais, chatbots de inteligência artificial. O sintoma não é só desinformação; é deserção. O leitor não deixou de se informar — deixou de se informar com quem perdeu credibilidade.
E aqui está a ironia que me incomoda há tempos: boa parte da imprensa trata essa deserção como problema de "leitor mal informado". Não é. É problema de produto. Nenhuma empresa sobrevive explicando ao cliente por que ele está errado em preferir o concorrente.
A fronteira ética
O debate público mistura três fenômenos que precisam ser separados com bisturi. O jornalismo de opinião declarado é legítimo: coluna e editorial têm contrato de expectativa com o leitor — eu mesmo assino uma opinião aqui. O noticiário com viés — a notícia que seleciona fatos para induzir conclusão — viola o dever de integridade previsto nos códigos de ética da profissão. E há ainda a acusação de viés usada como arma política, que deslegitima qualquer checagem incômoda, de um lado e do outro.
O jornalismo sério precisa resistir às duas tentações simétricas: o cinismo de dizer que "todo mundo é tendencioso, tanto faz" — que é a desculpa favorita de quem quer distorcer — e a negação de que o viés documentado exista — que é a desculpa favorita de quem se beneficiou dele.
O que fazer
Para gestores de mídia e comunicadores, a resposta ética é também a resposta de mercado — confiança é o único produto que um veículo não pode terceirizar:
1. Transparência de método: publicar como a pauta foi apurada, quais fontes recusaram entrevista e quais dados foram usados.
2. Separação radical entre notícia e opinião, na arquitetura editorial e visual dos veículos.
3. Correções visíveis e ouvidor com poder de verdade — errar é humano; esconder a correção é o vício ético central.
4. Diversidade de fontes auditável, inclusive as que contrariam a linha editorial.
5. Governança: firewall entre interesses comerciais e políticos e a decisão de pauta.
O editorial do Estadão sobre Flávio e os milicianos mostra que o caminho existe — e que ele passa por dentro da própria casa. O jornalismo que sobreviverá não será o que gritar mais alto nem o que agradar mais rápido. Será o que conseguir ser verificável, mostrar a verdade. Numa era em que qualquer fato tem dez versões concorrentes, a totalidade do fato deixou de ser detalhe ético — virou vantagem competitiva. A verdade pela metade custa caro. A verdade inteira, cada vez mais, é o único ativo que se valoriza.
E, quando um jornal conservador aponta o dedo para o risco de milicianos no Planalto, fica a lição: a volta da seriedade no jornalismo começa no dia em que cada veículo estiver disposto a incomodar o próprio lado.
Produzi o conteúdo com a utilização de Ferramentas de IA.




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