Nilo Geronimo Borgna
Nossa Senhora, Flavio.
Fato ou Boato
Nossa Senhora, Flavio. Fato ou Boato
Por Nilo Geronimo Borgna
Vamos aos fatos
Em 12 de outubro de 1995, o bispo Sérgio Von Helder, no programa matutino Despertar da Fé, da TV Record, da Igreja Universal do Reino de Deus, deu um chute na imagem de Nossa Senhora Aparecida. O episódio, que ficou conhecido como o "chute na santa", marcou o país e jamais foi completamente digerido pela imprensa brasileira.
A Universal na política
Sabemos que a Universal já tem bancada na política. A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) possui forte atuação e representação na política institucional brasileira, integrando a chamada bancada evangélica no Congresso Nacional e mantendo forte influência em partidos políticos.
O Partido Republicanos, embora mantenha pluralidade de membros e rejeite subordinação direta, tem profundas raízes históricas com a Igreja Universal: é presidido pelo bispo licenciado da igreja Marcos Pereira e abriga diversas lideranças ligadas à instituição.
A Universal compõe, junto com denominações como a Assembleia de Deus e a Igreja Batista, o grosso dos parlamentares evangélicos na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, atuando tanto de forma autônoma quanto articulada na Frente Parlamentar Evangélica (FPE). A inserção sistemática da igreja na política eleitoral se intensificou no final dos anos 1980 e na década de 1990, impulsionada por pautas corporativas — como a defesa das concessões de meios de comunicação, entre elas a Record — e, mais recentemente, alinhada a pautas conservadoras de direita.
O verdadeiro projeto de lei
Vamos a outra questão. O projeto de lei que gerou polêmica sobre o título de Padroeira do Brasil foi criado pelo então deputado federal Professor Victório Galli, à época filiado ao PMDB de Mato Grosso.
Diferente do que sugerem boatos e desinformações recentes nas redes sociais, não existe hoje um projeto de lei tramitando para instituir Jesus Cristo como "Padroeiro do Brasil". O que de fato aconteceu envolve os seguintes pontos:
O verdadeiro projeto (PL 2.623/2007): apresentado por Victório Galli em dezembro de 2007, o projeto propunha alterar a Lei nº 6.802/1980 — que define o feriado de 12 de outubro — para substituir o termo "Padroeira do Brasil" por "Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos". O argumento do autor era baseado na laicidade do Estado: o país não deveria ter um padroeiro oficial de uma religião específica.
O fim da tramitação: a proposta foi rejeitada pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados e arquivada definitivamente em agosto de 2008, não possuindo nenhuma validade jurídica ou tramitação atual.
O retorno do tema em 2026: o assunto voltou à tona na campanha eleitoral de 2026, após uma associação errônea ligando o antigo texto ao senador Flávio Bolsonaro (PL). A confusão se espalhou porque o senador afirmou em discursos que, se eleito, pretendia declarar de forma simbólica que "o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo". No entanto, o parlamentar negou categoricamente a autoria ou a intenção de propor qualquer lei para retirar o título oficial de Nossa Senhora Aparecida.
A ligação que não é coincidência
A história voltou a circular — e vale prestar atenção. Embora Flávio Bolsonaro não tenha qualquer relação com o projeto antigo (o que foi inclusive reconhecido por retratações da imprensa e decisões do TSE), Victório Galli é um aliado político histórico da família Bolsonaro. Ele atuou como assessor especial na Presidência durante o governo de Jair Bolsonaro e manifestou apoio público à campanha de Flávio.
Galli fez parte do governo de Jair Bolsonaro, tendo atuado em 2019 como assessor especial da Presidência da República, com a função principal de auxiliar na articulação política do governo federal junto ao Poder Legislativo. A ligação entre o ex-deputado federal Professor Victório Galli (erroneamente chamado de "Vitória Galli" por alguns internautas) e o senador Flávio Bolsonaro é, portanto, de alinhamento político e proximidade ideológica.
Victório Galli está filiado ao partido Progressistas (PP) e concorre ao cargo de deputado federal pelo estado de Mato Grosso nas eleições de 2026.
A conclusão que a mídia não pauta
Não é de todo absurdo, portanto, observar que não se trata de pura mentira levantar a hipótese de que Flávio possa querer retirar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira para substituí-la por outro símbolo religioso. Afinal, o pai já havia aventado essa hipótese em outra era.
O que me admira é que esse levantamento, que eu mesmo fiz, não seja pauta em nenhum programa da mídia jornalística dominante.
Por que será?
Nilo Geronimo Borgna é um profissional com trajetória marcada pela atuação nas áreas de Direitos Humanos, Saúde Pública e Comunicação Digital.




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