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Barra Mansa,04/09/2026

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    JJ

    Santa Cecília Não Cabe no Voto

    É um bairro de intelectuais, jornalistas, poetas, artistas, professores, estudantes, baladeiros e boêmios profissionais.


    Santa Cecília Não Cabe no Voto

    Santa Cecília Não Cabe no Voto

    Por JJ

    Moro em Santa Cecília, mais exatamente na Vila Buarque, onde as pessoas parecem ter nascido sabendo a diferença entre Gramsci e um bom gim-tônica. É um bairro de intelectuais, jornalistas, poetas, artistas, professores, estudantes, baladeiros e boêmios profissionais. Há sempre alguém escrevendo alguma coisa numa mesa de bar, alguém explicando o Brasil para quem não perguntou e alguém indignado com o avanço da extrema direita enquanto espera o próximo drink. Pelas ruas, pelas conversas e pelos espaços culturais, a impressão é inequívoca: estamos no coração progressista de São Paulo. Mas então chegam as eleições e as urnas, essas criaturas sem compromisso com a estética, revelam um bairro com fortes tintas conservadoras e uma extrema direita muito mais confortável do que os frequentadores dos cafés imaginam.

    Minha pesquisa sobre o fenômeno não tem financiamento, metodologia reconhecida nem aprovação de comitê científico. É feita a pé. Ando, escuto, paro, pergunto quando não devo e, eventualmente, levo uma cara feia. Foi assim que descobri que, entre uma livraria progressista e um sarau antifascista, existe uma multidão de pequenos comerciantes, trabalhadores autônomos e empreendedores pobres que odeiam Lula com uma sinceridade quase religiosa. São homens e mulheres que trabalham muito, ganham pouco e sonham com o dia em que finalmente ficarão ricos. Enquanto esse dia não chega, defendem os interesses dos ricos como quem já tivesse recebido a escritura da mansão. O capitalismo talvez seja a única religião capaz de convencer o pobre de que seu sofrimento é apenas uma fase antes da cobertura duplex.

    Em frente a um espaço cultural claramente hegemonizado pelo PSOL, há um homem que vende frutas. Um sujeito simpático, trabalhador, conversador. Guarda o carrinho ali, convive com aquela gente, acha todos muito legais. A esquerda lhe oferece abrigo para as frutas e boas conversas. Mas Lula, não. Lula ele não suporta. Quando me contou, baixou a voz, aproximou-se e confessou como quem revela um segredo de Estado. Parecia acreditar que eu fosse imediatamente telefonar para a direção do movimento revolucionário e informar: “Companheiros, identificamos um infiltrado. Vende manga, banana e voto conservador”. Não o dedurei. Até porque ainda não decidi se o crime é eleitoral ou gastronômico.

    Outro dia, caminhando pelo Arouche, ouvi uma vendedora perguntar à outra se ela tinha visto “o que o Lula disse”. A amiga respondeu sem sequer saber o que Lula havia dito: “Não. O que esse burro falou?”. Depois veio a indignação, a frase sobre o orgulho de ser gari e uma sucessão de impropérios digna de uma tribuna parlamentar em dia ruim. Não resisti. Interrompi a conversa e perguntei se ela conhecia alguém que tivesse orgulho de ser gari. Não orgulho de trabalhar, não orgulho de sustentar a família, não orgulho da própria dignidade. Orgulho de precisar recolher o lixo produzido por uma sociedade que quase sempre despreza quem faz esse trabalho. Ela me olhou como se eu fosse o próprio problema do Brasil. Talvez eu tenha sido, durante aqueles três minutos, pelo menos o problema daquela calçada.

    Pois é. Isso é Santa Cecília. Um bairro onde se pode ouvir uma discussão sofisticada sobre fascismo numa mesa e, a poucos metros, alguém chamar Lula de burro sem saber exatamente por quê. Onde a esquerda domina o discurso, a cultura, a decoração das paredes e, frequentemente, a escolha da cerveja artesanal, enquanto a direita parece dominar um pedaço considerável das urnas. Santa Cecília é progressista até o momento em que precisa votar. Depois, fecha a porta da cabine e revela que o Brasil continua sendo aquele país complicado que ninguém consegue compreender completamente, mas todo mundo explica com absoluta certeza. Talvez seja por isso que gosto tanto daqui. Porque, no fundo, Santa Cecília não é uma contradição. É apenas o Brasil concentrado em poucos quarteirões, com mais livros, mais bares e uma capacidade extraordinária de fingir que não é exatamente aquilo que é.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira



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