Seja bem-vindo
Barra Mansa,04/09/2026

    • A +
    • A -
    Publicidade

    MK - Marcelo Kieling

    O Brasil continua de tapume

    Reconstrução inacabada: a única obra brasileira que nunca atrasa é a desculpa.


    O Brasil continua de tapume

    O Brasil continua de tapume

    Reconstrução inacabada: a única obra brasileira que nunca atrasa é a desculpa.

    Por Marcelo Kieling

    Dez anos depois do livro “A Reconstrução do Brasil” de José Fucs, o Brasil ainda não terminou a obra. Mas quem jura que nada mudou está mentindo — para os outros e para si mesmo.

    Em 2017, o jornalista José Fucs lançou "A Reconstrução do Brasil", livro que reuniu 15 reportagens e 10 editoriais do Estadão, com prefácio de Fernando Henrique Cardoso. Era um manual de saída da crise: o país vinha de dois anos de recessão, convivia com desemprego recorde e assistia à primeira ruptura presidencial da Nova República. O livro prometia um roteiro para crescer e superar o trauma do impeachment.

    Quase uma década depois, a pergunta que ficou no ar voltou mais urgente: o Brasil conseguiu se reconstruir? A resposta defendida aqui incomoda os dois lados — e é melhor que seja assim. Não: a obra não foi concluída. Mas também não é verdade que tudo piorou. O que temos é uma crise de confiança profunda, com contornos que 2017 não previu. E, para criticar com autoridade, é preciso reconhecer primeiro o que funcionou.

    Por que o pessimismo não está errado

    Os pessimistas têm números do seu lado. Em 2025, o Brasil repetiu sua pior posição histórica no Índice de Percepção da Corrupção, da Transparência Internacional: 35 pontos numa escala de 0 a 100, o 107º lugar entre 182 países. A própria organização falou em corrupção em escala inédita, com casos chegando ao sistema de Justiça. Os escândalos do Banco Master e do INSS, que já invadiram a eleição de 2026, mostram que o problema virou uma regra, não é exceção.

    A atual crise do Supremo Tribunal Federal também deixa de ser impressão para virar o fato. As mensagens de Eduardo Vorcaro envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o procurador-geral Paulo Gonet, reveladas pela imprensa, abriram uma crise que a Folha de S. Paulo chamou de "terremoto institucional", com efeito direto nas campanhas. Congresso e STF passaram a se enfrentar — o Legislativo ameaça derrubar decisões de ministros isolados, enquanto a Corte acumula funções de investigar, julgar e, na prática, legislar. Some-se a isso a fábrica de mentiras e ódio alimentada por algoritmos escondidos e por uma polarização odiosa que transforma qualquer adversário em um mortal inimigo.

    O outro lado dos números

    Agora, atenção: dizer que o quadro de hoje é "muito mais grave" que o de 2017 é tese forte demais para passar sem prova. Em 2017, o Brasil amargava recessão, desemprego recorde e a primeira ruptura institucional da sua história democrática recente. Há leituras acadêmicas, como as publicadas na SciELO, que enxergam o impeachment de 2016 como crise política — ação combinada de teatral atores — e não uma crise institucional. Comparar os dois momentos como se fossem a mesma coisa mistura categorias diferentes.

    Tem mais um dado que o discurso do apocalipse esconde: a mesma Transparência Internacional que denuncia a corrupção reconheceu a "resposta firme e histórica" do STF ao responsabilizar o ex-presidente Jair Bolsonaro e os conspiradores que atentaram contra a democracia em 2022 e 2023. O mesmo tribunal hoje sob fogo cruzado foi o ator que segurou a ordem democrática no momento de maior teste desde a redemocratização. Análise honesta segura as duas pontas — é isso que separa o analista do militante.

    E é preciso reconhecer o que avançou. Reforma trabalhista (2017), teto de gastos (2016), reforma da Previdência (2019), arcabouço fiscal (2023) e a reforma tributária, em andamento desde 2023 — são conquistas concretas que o livro de Fucs ajudou a colocar na pauta. A reconstrução foi parcial, desigual e incompleta. Mas não foi nula. Quem decreta o fracasso total, além de impreciso, é estrategicamente fraco: um texto que reconhece o que funcionou tem autoridade para criticar o que falhou.

    O que fazer: três frentes

    Se o diagnóstico é de desgaste das instituições, a resposta não pode ser só lamento. Este texto propõe três frentes para arrumar as regras do jogo.

    Primeiro, reequilibrar os Poderes. O coração da crise é a falta de regras claras de convivência entre STF e Congresso. Restringir decisões de ministro sozinho em matérias sensíveis, com prazo curto para o plenário decidir, devolveria previsibilidade ao sistema. Um mandato fixo para os ministros do STF, sem vitaliciedade, reduziria o "jogo do indicado" a cada governo. E limitar o foro privilegiado a crimes cometidos no exercício da função diminuiria a politização da Justiça. O contraponto é conhecido: todo controle externo da Corte pode virar arma de retaliação. A saída não é enfraquecer o tribunal, é blindar sua legitimidade com regras que todos os Poderes respeitem.

    Segundo, uma agenda anticorrupção de verdade. Corrupção não se combate com moralismo, mas com desenho institucional. Blindar os órgãos de controle — CGU, MPF e controladorias estaduais — com carreira de Estado e chefes que não mudem a cada governo; tornar obrigatória a publicação de gastos e contratos em dados abertos, com cruzamento automático; condicionar o fundo partidário a programas de integridade; e exigir das empresas que contratam o Estado planos anticorrupção. O risco a evitar é a impunidade seletiva: endurecer regras sem melhorar a máquina de investigar e julgar transforma a agenda em arma de guerra política.

    Terceiro, reconstruir a integridade da informação. A desinformação virou o principal vetor de desgaste institucional. Exigir transparência dos algoritmos das plataformas — não censura, mas auditoria dos sistemas de recomendação e responsabilização pelo conteúdo impulsionado —, incluir educação midiática no currículo escolar e financiar a verificação de fatos e a imprensa local são medidas que atacam a raiz do problema. O risco da regulação estatal é real; a saída é criar mecanismos de controle independentes, com comitês multissetoriais, e jamais deixar a última palavra nas mãos de um único Poder.

    Aqui vale uma opinião que não é de partido, nem de tribo: o Brasil de 2026 não sofre de falta de diagnóstico, sofre de um grave excesso de preguiça. As soluções para os três problemas acima estão escritas, reescritas e publicadas há décadas — em livros, teses e manchetes. O que falta não é saber o que fazer; é ter coragem de fazer e, principalmente, parar de tratar o adversário como inimigo de guerra. Enquanto cada erro do outro lado servir de festa e cada acerto do nosso lado servir de tapete, nenhuma reforma anda. Reconstruir um país não é obra de gênio: é obra de gente que aceita ganhar às vezes, perder às vezes e seguir no jogo. Quem espera vitória total fica fora da história — e, pior, deixa o Brasil esperando na porta.

    Conclusão

    Nenhuma reforma institucional funciona sem reserva de confiança. As propostas acima são mecânicas; o que as sustenta é a cultura democrática: líderes que cumprem o que prometem, mídia que separa fato de opinião com transparência editorial e uma sociedade que cobra contas com vigilância permanente — não com linchamento. O Brasil de 2026 não está num fundo de poço sem saída; está numa reconstrução inacabada. Reconhecer a diferença entre as duas coisas é o primeiro passo para que a segunda seja possível. O livro de Fucs apontou os desafios; a geração atual precisa entregar as respostas. E o cidadão comum — o que acorda cedo, paga boleto e só quer trabalhar em paz — precisa voltar a ser dono da obra, não apenas o que assina o contrato.

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.

     



    COMENTÁRIOS

    LEIA TAMBÉM

    Buscar

    Alterar Local

    Anuncie Aqui

    Escolha abaixo onde deseja anunciar.

    Efetue o Login

    Baixe o Nosso Aplicativo!

    Tenha todas as novidades na palma da sua mão.