JJ
O Espaço de Cury
Ele encontrou um espaço político real
O Espaço de Cury
Por JJ
A nova pesquisa Quaest precisa ser lida com menos paixão e mais política. Lula mantém a liderança, Flávio Bolsonaro permanece competitivo e Augusto Cury cresce de forma significativa. O salto de Cury não é uma casualidade estatística e tampouco deveria surpreender analistas que acompanham a eleição sem a lente deformadora da torcida. Ele encontrou um espaço político real, um espaço que existia antes dele e que agora começa a ganhar um nome, um rosto e números nas pesquisas.
Os números ajudam a compreender o fenômeno. Lula tem 37%, Flávio 29% e Cury alcança 10%. Isso significa que os dois polos continuam dominando a eleição, mas também revela que uma parcela expressiva do eleitorado não está confortavelmente instalada em nenhum deles. Mais importante ainda é observar a velocidade do movimento. Crescer oito pontos em duas semanas não é uma simples oscilação. É um fato político. Não significa que Cury esteja a caminho do segundo turno, mas significa que passou a ser impossível tratá-lo como uma candidatura decorativa.
Sua aparição no debate da Band foi decisiva para acelerar esse processo. Não porque um debate seja capaz de fabricar um candidato do nada, mas porque ali Cury foi apresentado a setores que ainda não o consideravam uma alternativa eleitoral concreta. Entre esses setores estão as elites econômicas, empresariais e políticas. E é preciso compreender corretamente o que elas procuram. Não se trata apenas de uma fuga da polarização. As elites não estão necessariamente procurando um candidato de centro, moderado ou conciliador.
O que elas procuram é algo mais específico. Procuram alguém capaz de defender uma agenda econômica liberal, fiscalista, privatizante e hostil aos interesses históricos dos trabalhadores, sem carregar consigo o peso político, cultural e estético do bolsonarismo. Em outras palavras, procuram uma candidatura que entregue substancialmente aquilo que Flávio representa para esses setores, mas sem ser Flávio. Querem o conteúdo, mas procuram uma embalagem mais aceitável.
Flávio Bolsonaro oferece a essas elites uma agenda que lhes interessa em muitos aspectos. O problema é que carrega também uma herança política marcada pela brutalidade, pelo conflito permanente e por uma forma de fazer política que já não produz o mesmo conforto em setores que desejam estabilidade institucional. Além disso, seu pai demonstra, reiteradamente, pouca sofisticação e nenhum polimento para circular nos ambientes onde a política do capital gosta de se apresentar como racionalidade, civilidade e responsabilidade.
Cury pode estar começando a ocupar exatamente esse lugar. Um candidato novo, com aparência de novidade, capaz de dialogar com o eleitor cansado da guerra política e, ao mesmo tempo, potencialmente aceitável para aqueles que desejam preservar uma agenda econômica contrária aos trabalhadores. Essa combinação é poderosa. Porque permite vender como superação da polarização aquilo que, em determinadas questões fundamentais, pode significar apenas a troca do personagem sem a mudança do roteiro.
Ainda é cedo para cravar até onde Cury chegará. Dez por cento ainda estão longe dos números de Lula e Flávio, e toda ascensão eleitoral pode encontrar um teto. Mas os fatos precisam ser reconhecidos antes que a torcida tente escondê-los. Cury cresceu, ocupou um espaço e passou a ser observado com interesse por setores poderosos da sociedade. A eleição de 2026 continua polarizada, mas talvez esteja surgindo uma terceira via que não pretende derrotar apenas a polarização. Pretende oferecer às elites o programa que desejam, com mais sofisticação, mais polimento e sem o constrangimento de ter de entregar o país ao estilo Bolsonaro.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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