Carmem Teresa Elias
O ÓDIO COMO PRAZER:
PSICANÁLISE, POLÍTICA E A SEDUÇÃO DA DESTRUIÇÃO
O ÓDIO COMO PRAZER: PSICANÁLISE, POLÍTICA E A SEDUÇÃO DA DESTRUIÇÃO
Há uma pergunta incômoda que atravessa a experiência política contemporânea: por que odiar pode ser tão prazeroso? Se o ódio é, à primeira vista, uma experiência marcada pela hostilidade, pela rejeição e pelo desejo de afastamento do outro, como explicar que ele possa produzir satisfação, entusiasmo, pertencimento e até uma espécie de euforia coletiva?
A psicanálise permite compreender que o ódio não é apenas uma reação diante de um objeto externo. Ele também pode funcionar como uma economia de prazer. O sujeito que odeia não necessariamente deseja apenas destruir aquilo que considera seu inimigo. Muitas vezes, encontra no próprio ato de odiar uma fonte de identidade, reconhecimento e satisfação psíquica.
Na política, esse mecanismo ganha uma dimensão particularmente poderosa. O ódio pode deixar de ser uma emoção individual para transformar-se em linguagem coletiva. Quando isso acontece, o adversário deixa de ser percebido como alguém com quem se disputa legitimamente um projeto de sociedade e passa a ser construído como uma ameaça, uma anomalia, um inimigo que precisa ser eliminado simbolicamente — e, em situações extremas, também materialmente.
O prazer escondido no ódio
A tradição psicanalítica nos ensina que o prazer humano não se reduz àquilo que conscientemente identificamos como agradável. Existem formas de satisfação ligadas ao conflito, à transgressão, à agressividade e à repetição de experiências dolorosas.
Em Freud, a agressividade ocupa lugar importante na constituição do sujeito e na vida social. O ser humano não é movido exclusivamente pelo desejo de cooperação e preservação. Há também forças destrutivas, hostis, competitivas e agressivas que participam da vida psíquica.
Isso significa que o ódio pode cumprir uma função.
Ao odiar alguém, o sujeito pode experimentar uma sensação de força. Pode sentir que finalmente encontrou um responsável por sua frustração. Pode organizar uma realidade complexa em torno de uma narrativa simples: “eu sou o bem; ele é o mal.”
Essa divisão produz alívio.
O mundo deixa de ser ambíguo. A dúvida desaparece. As contradições são projetadas sobre o inimigo. O sujeito já não precisa perguntar sobre sua própria responsabilidade, suas próprias frustrações ou sua participação nos conflitos sociais. Basta encontrar um culpado.
E, paradoxalmente, esse movimento pode produzir prazer.
O inimigo como espelho
O ódio político frequentemente depende de um processo de projeção. Aquilo que o sujeito não suporta reconhecer em si mesmo pode ser atribuído ao outro.
O adversário passa a carregar tudo aquilo que precisa ser expulso do campo da própria identidade: corrupção, ignorância, violência, arrogância, imoralidade, incompetência, desonestidade ou perversidade.
Mas existe aí uma ironia psíquica.
Quanto mais o indivíduo concentra sua existência na destruição do inimigo, mais dependente dele se torna.
O inimigo passa a organizar sua atenção, suas conversas, seus sentimentos e até sua identidade. Ele precisa existir para que o sujeito saiba contra quem lutar.
Assim, o ódio pode produzir uma relação de dependência.
O sujeito acredita odiar o inimigo, mas, em determinado momento, passa a precisar dele.
Sem o inimigo, desaparece parte da própria identidade.
É nesse ponto que o ódio deixa de ser apenas uma emoção e passa a funcionar como estrutura de pertencimento.
Carmem Teresa Elias




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