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Barra Mansa,02/09/2026

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    Carmem Teresa Elias

    A política do “nós contra eles”

    A política sempre produziu conflitos, diferenças e disputas de interesses.


    A política do “nós contra eles”

    A política do “nós contra eles”

    A política sempre produziu conflitos, diferenças e disputas de interesses. O problema surge quando a diferença deixa de ser compreendida como parte constitutiva da democracia e passa a ser interpretada como ameaça existencial.

    O adversário político deixa de ser alguém que pensa diferente e transforma-se em alguém que supostamente não deveria existir.

    Essa transformação é fundamental.

    A democracia depende da possibilidade de convivência entre diferenças. O autoritarismo, por sua vez, tende a desejar a eliminação da diferença.

    Por isso, discursos políticos baseados no ódio encontram terreno fértil quando prometem ao indivíduo algo que a realidade social raramente oferece: certeza absoluta.

    Em vez de uma sociedade complexa, oferecem dois campos.

    Nós.

    Eles.

    Nós somos os cidadãos legítimos.

    Eles são os inimigos.

    Nós defendemos a verdade.

    Eles representam a mentira.

    Nós somos vítimas.

    Eles são culpados.

    Essa simplificação pode ser profundamente sedutora porque reduz a angústia provocada pela complexidade.

    O ódio como anestesia da frustração

    Uma sociedade marcada por desigualdades, insegurança econômica, precarização do trabalho, perda de perspectivas e desconfiança nas instituições produz grandes quantidades de frustração.

    Mas a frustração é psicologicamente difícil de suportar.

    Ela exige elaboração.

    Exige compreender causas históricas, econômicas, sociais e políticas. Exige reconhecer que determinados problemas não possuem soluções rápidas. Exige suportar a incerteza.

    O ódio oferece um caminho mais curto.

    Ele transforma a frustração em acusação.

    A angústia transforma-se em raiva.

    A raiva encontra um alvo.

    E o alvo oferece uma sensação imediata de explicação.

    É por isso que determinadas formas de discurso político não precisam necessariamente apresentar soluções para serem eficazes. Basta oferecer um objeto para o ressentimento.

    Quando a política consegue dar um rosto à frustração, ela pode transformar sofrimento em mobilização.

    O gozo da superioridade moral

    Existe ainda outra dimensão.

    O ódio pode produzir a sensação de superioridade moral.

    O sujeito não apenas considera o outro errado. Ele passa a considerar-se moralmente superior por combatê-lo.

    Esse mecanismo é particularmente poderoso nas disputas políticas contemporâneas.

    A pessoa pode experimentar uma espécie de satisfação ao denunciar, humilhar ou desqualificar o adversário. A agressão passa a ser reinterpretada como virtude.

    Não se trata mais de “eu estou atacando alguém”.

    Trata-se de: “Eu estou combatendo o mal.”

    Essa transformação é decisiva porque retira da agressividade sua aparência de agressividade. A violência verbal pode ser percebida como coragem. A humilhação pode ser chamada de justiça. A intolerância pode ser apresentada como defesa de valores.

    O prazer não está apenas em destruir o outro.

    Está também em sentir-se autorizado a destruí-lo.

    Carmem Teresa Elias




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