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Barra Mansa,30/08/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    A sabatina virou circo: o equilibrista que engana o eleitor

    Palavras de sobra, projetos de menos: o circo abre a temporada.


    A sabatina virou circo: o equilibrista que engana o eleitor

    A sabatina virou circo: o equilibrista que engana o eleitor

    Palavras de sobra, projetos de menos: o circo abre a temporada.

    Por Marcelo Kieling

    Depois de uma semana de entrevistas e sabatinas com os principais candidatos à Presidência, a conclusão é dura e inevitável: o debate público brasileiro está totalmente esvaziado, sequestrado pelo malabarismo retórico. O objetivo não é mais apresentar projeto — é não desagradar a plateia nem cometer uma gafe. Substância? Sobra apenas a ausência dela.

    A imagem do equilibrista bêbado, que dá passos incertos, ameaça cair a cada segundo, mas nunca traz densidade real ao número, é a metáfora perfeita. Os versos de João Bosco em "O Bêbado e o Equilibrista" expõem, com precisão cirúrgica, o desgaste desse modelo de cobertura jornalística — e o retrato é devastador.

    Na minha avaliação, o diagnóstico é preciso, mas a saída proposta ainda esbarra numa resistência brutal: a indústria da atenção não vai abrir mão do espetáculo por convicção democrática. Ela só muda quando a audiência parar de premiar o circo. A responsabilidade, portanto, não é só dos veículos — é nossa, de cada leitor e eleitor que troca a indignação passiva pela cobrança ativa. Quem consome lixo, recebe lixo. E está na hora de exigir mais.

    Quando o ecossistema midiático de massa terceiriza o debate público para o entretenimento vazio, sobra exatamente esse truque repetido e sem encanto. O "mágico" repete fórmulas gastas que já não enganam ninguém: o eleitor, na ponta, percebe que o chapéu está vazio. O palco virou picadeiro, onde o roteiro prioriza o ruído, a polêmica artificial e a emoção barata — e joga no lixo o projeto de país, a engenharia dos orçamentos públicos e a reforma das instituições.

    Essa grande vitrine nacional produz um vazio programático gigantesco porque o formato pune a profundidade técnica. Para o candidato, é infinitamente mais seguro apostar na figura do equilibrista instável — que cria suspense, mas foge de prazos, métricas e fontes de financiamento — do que apresentar um plano estruturado de reformas que exija racionalidade e coragem política. A covardia é premiada; a seriedade, punida.

    Vivemos uma distorção real e historicamente recorrente no jornalismo político comercial. Ao transformar a sabatina em espetáculo de "pega-pega", focado no escândalo, na gafe e na armadilha retórica, a grande mídia abdica descaradamente do papel pedagógico e de fiscalização republicana. Trocam-se projetos por dramatização barata, cliques e audiência — à custa da qualidade democrática. É uma traição ao jornalismo.

    Essa lógica do espetáculo reduz o eleitor a mero espectador de um cabo de guerra emocional, em vez de tratá-lo como cidadão ativo, capaz de comparar modelos de desenvolvimento, viabilidade orçamentária e reformas estruturais. Quando o foco se restringe ao conflito momentâneo, as grandes pautas — reorganização tributária, pacto federativo, transição tecnológica, planejamento de longo prazo — evaporam do debate. E os candidatos saem impunes, blindados contra a cobrança pela real exequibilidade de suas promessas.

    O papel que a Justiça Eleitoral não pode abrir mão

    Aqui entra um ator que não pode continuar na plateia: a Justiça Eleitoral. Se a sabatina é um rito democrático — e não um espetáculo de entretenimento —, cabe ao Tribunal Superior Eleitoral e aos Tribunais Regionais Eleitorais garantir que esse rito cumpra sua função constitucional. A Justiça Eleitoral não é apenas a guardiã das urnas; ela é, por definição, a guardiã da lisura do debate público que antecede o voto.

    O problema é que, hoje, a atuação da Justiça Eleitoral se concentra quase exclusivamente no que acontece depois do erro — na punição do excesso, na remoção de conteúdo, na multa ao descumprimento. É uma atuação reativa, de bombeiro, que apaga incêndio em vez de evitar que ele comece. Quando a sabatina vira circo, a Justiça Eleitoral fiscaliza o circo, mas raramente pergunta por que o circo foi montado.

    É preciso inverter essa lógica. A Justiça Eleitoral tem o dever de atuar de forma preventiva e estrutural sobre o formato do debate: garantir paridade de condições entre os candidatos, coibir a armadilha retórica que vira desinformação, e assegurar que a regra do jogo favoreça a substância e não o ruído. Não se trata de censurar perguntas — trata-se de garantir que o eleitor receba o que tem direito: informação qualificada para decidir.

    A Justiça Eleitoral também tem um papel decisivo no combate à desinformação que se disfarça de polêmica. Quando o "pega-pega" jornalístico produz cortes fora de contexto, versões distorcidas e ataques apresentados como notícia, é ela quem precisa zelar para que a mentira não se transforme em moeda de campanha. E, principalmente, é ela quem pode — e deve — exigir que as plataformas e os veículos tratem o debate eleitoral como serviço público, e não como produto de audiência.

    Mais do que punir, a Justiça Eleitoral precisa educar e estruturar. Pode estabelecer diretrizes claras para a realização das sabatinas: tempo adequado para respostas substantivas, espaço para a cobrança de propostas e métricas, e a obrigação de que o candidato enfrente perguntas sobre viabilidade orçamentária e técnica — não apenas sobre a última polêmica. Onde o mercado falha em entregar profundidade, o arcabouço eleitoral pode — e deve — criar as condições para que ela exista.

    O que precisa mudar — e já

    As bancadas de jornalistas nas grandes emissoras são montadas para gerar atrito ideológico ou caçar o escorregão. Basta. O painel de sabatinadores deve ser composto não apenas por jornalistas, mas por especialistas setoriais — economistas, urbanistas, educadores, gestores públicos — que conhecem a máquina por dentro. Isso muda imediatamente o nível da cobrança: o foco deixa de ser o "furo político" e passa a ser a viabilidade técnica e orçamentária da promessa.

    É urgente que os veículos tratem o eleitor como cidadão racional e exigente, disposto a consumir profundidade em vez de espetáculo. A sabatina não deve ser apenas instrumento técnico, mas artefato de construção da esfera pública — um dispositivo que define quem fala, sobre o quê e sob quais regras. Não é um "pingue-pongue" de perguntas: é um rito democrático que molda a democracia deliberativa, a ideia de que o voto informado depende de um debate público estruturado, com o candidato exposto à pressão e ao escrutínio. Num cenário de polarização extrema, a sabatina bem conduzida é o antídoto institucional ao espetáculo e à violência discursiva.

    A sabatina precisa ser arrancada da lógica do entretenimento de massa e tratada como serviço público essencial. Isso significa transmissões sem interrupções comerciais voltadas ao sensacionalismo, blocos mais longos e um desenho de produção que valorize a atenção sustentada — não a distração rápida.

    Chega de perguntar o que o candidato "acha" de um problema. A sabatina deve começar exigindo a leitura e a defesa de um anexo técnico prévio — com fontes de financiamento, impacto orçamentário e cronograma de implementação. Se o candidato vier apenas com discurso ensaiado, o mediador tem a prerrogativa — e o dever — de interromper e cobrar a matemática da proposta, desmascarando a ilusão ao vivo.

    Mudar a bancada para a sociedade civil organizada e técnica: substituir o jornalista focado no furo político por representantes de conselhos de classe, universidades, entidades produtivas e especialistas setoriais que conhecem a burocracia do Estado por dentro. Quem passa o dia gerindo saneamento, infraestrutura ou educação não tem paciência para malabarismo retórico — e corta o papo furado na primeira resposta vaga.

    Precisamos de respeito ético pelo eleitor. A prática jornalística tem de fazer o candidato — o equilibrista — descer da corda bamba e sentar para trabalhar na prancheta, apresentando com seriedade suas propostas. E a Justiça Eleitoral, como fiadora desse pacto, precisa garantir que o picadeiro não volte a ser o palco. O público, na ponta, esgotado dessa encenação, já começa a ignorar o circo e a dar audiência apenas a quem tem projeto, método e responsabilidade com o futuro.

    Que os veículos e as instituições entendam isso antes que seja tarde demais.

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.

     



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