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Barra Mansa,30/08/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    Vivemos o fim da história? Não. Vivemos o fim da vergonha.

    O clarão dos monstros


    Vivemos o fim da história? Não. Vivemos o fim da vergonha.

    Vivemos o fim da história? Não. Vivemos o fim da vergonha.

    Por Marcelo Kieling

    O clarão dos monstros

    Toda noite, em algum momento, a televisão ligada na sala resume o mundo em duas notícias que se sucedem sem nenhum constrangimento: tarifas de cinquenta por cento sobre os produtos de um país vizinho e, no bloco seguinte, o estrondo de bombas em algum lugar cujo nome o âncora pronuncia com a naturalidade de quem lê a previsão do tempo. Comércio e guerra, no mesmo fôlego. A economia virou campo de batalha; a guerra virou instrumento de faturamento. Não é exagero de cronista. É a contabilidade cruel de um tempo que trocou o debate pelo ultimato.

    Vamos chamar as coisas pelos nomes, antes que a linguagem também seja sequestrada. O que vivemos não é uma sucessão de acidentes locais, de líderes mal-humorados e eleitorados confusos. É um movimento organizado, que atravessa fronteiras e se reproduz com a disciplina de uma franquia: da Itália à Hungria, das Américas à Europa central, a mesma fórmula, os mesmos inimigos, o mesmo desprezo pelas regras que um dia os elegeram. A extrema-direita não invade mais os palácios de farda — ela entra pela porta da frente, de terno e crachá, eleita pelo voto popular, e então começa a desmontar a casa por dentro, cômodo por cômodo. Tribunais capturados, imprensa transformada em inimiga, eleições deslegitimadas quando o resultado desagrada. O autoritarismo aprendeu a ser democrata até a posse. Depois, esquece o que aprendeu. Conveniente, não?

    A estratégia é antiga como a peste e nova como um algoritmo: pegar a ansiedade verdadeira das pessoas — o emprego que some, o preço que sobe, a violência que assusta na rua, a identidade que se desfaz na velocidade da globalização — e oferecer, em vez de respostas, um espelho. Não há culpados estruturais, há culpados com nome e sobrenome: o imigrante, a minoria, o jornalista, o juiz, a instituição. A guerra cultural substitui a realidade política; o bode expiatório substitui o projeto. E a plateia, exausta de promessas não cumpridas, aplaude a farsa com a convicção de quem finalmente encontrou um culpado para o próprio sofrimento. É o caos administrado como método — e, no paradoxo, administrado com uma precisão que assusta. Que inveja: os incompetentes do poder, tão competentes em destruir.

    O Brasil, é preciso dizer sem eufemismo, tornou-se um dos laboratórios mais intensos dessa experiência. Aqui o laboratório não foi uma exceção tropical, mas uma repetição local do ensaio global — com uma agravante: a polarização deixou de ser embate de ideias para virar animosidade fratricida, aquela em que o vizinho deixa de ser vizinho e passa a ser o inimigo que mora ao lado. A democracia brasileira, pactuada em 1988 com a generosidade de quem acabava de sair de duas décadas de trevas, foi atacada de frente por quem jurou defendê-la — e a praça dos Três Poderes, símbolo do equilíbrio republicano, foi violada por dentro do próprio pacto que a protegia. Esse trauma não passou. Ele permanece como uma cicatriz que dói quando o tempo muda. E há quem jure que não dói nada.

    E o dilema brasileiro é mais cruel do que a simples escolha entre defender ou não a democracia. Porque gerir o Estado em meio a esse reacionarismo exige, ao mesmo tempo, distribuir pão e segurar a faca; fazer política social sem deixar de vigiar as milícias digitais, a desinformação em massa, o ódio travestido de opinião. Cada medida de inclusão é sabotada por uma enxurrada de mentiras; cada avanço institucional é minado por uma nova tese de ruptura. Governar virou exercício de corda bamba sobre um abismo que se alarga a cada dia. E a plateia, em vez de segurar a corda, aplaude quem a serra.

    No plano externo, a farsa completa o ciclo. O que se vê em Washington não é um desvio de rota, é a face mais sincera do capitalismo em crise: o protecionismo como arma, a guerra como negócio. Em agosto de 2026, os Estados Unidos impuseram tarifas de cinquenta por cento sobre produtos canadenses, e o Canadá respondeu à altura — dois vizinhos que construíram décadas de integração econômica trocando socos na mesa de negociações, enquanto dezenas de países, Brasil incluído, recebiam sobretaxas arbitrárias justificadas por supostos delitos que ninguém provou. As cadeias de suprimentos se retorcem, a inflação é importada, o câmbio dispara — e quem paga a conta, sempre, são os países periféricos, que não têm exército tarifário nem reservas para se defender. Mas quem se importa com quem paga a conta, quando o espetáculo é tão bom?

    Mas há algo mais sinistro que o protecionismo. É o uso da guerra como válvula de escape: quando a crise sistêmica aperta, os tambores soam. O complexo industrial de defesa fatura, as esferas de influência são redesenhadas, populações inteiras são sacrificadas em nome da hegemonia econômica e energética. A guerra, que deveria ser o último recurso da política, virou o primeiro instrumento do capital. Bombas que caem em nome dos interesses que nunca aparecem nos comunicados oficiais. É a cruel economia da morte operando a céu aberto, com o abominável cinismo de quem acredita que a história não voltará para cobrar. Acredita, não: aposta. E perde.

    Antes que você, meu leitor, me acuse de niilismo, uma concessão necessária: este não é o fim da história, nem o triunfo definitivo do retrocesso. A democracia já sobreviveu a ditaduras, guerras e crises piores. O que não se pode fazer é defender, com nostalgia, o status quo que pariu essa crise — porque foi exatamente a desigualdade gerada pelo modelo anterior que alimentou o monstro atual. A saída não está em voltar atrás, mas em ir adiante: reinventar a democracia para que ela volte a entregar dignidade material, regular o poder tóxico das plataformas e suas malditas bolhas das redes sociais que manipulam a opinião pública, refazer os laços de solidariedade internacional contra a lógica da guerra e da exploração comercial.

    O sintoma central do nosso tempo é a normalização do absurdo. Tarifas e bombas no mesmo bloco de notícias não são coincidência, mas a mesma lógica operando em dois campos — a força bruta como linguagem universal da política e da economia. Precisamos recusar o consolo fácil: não há "vilão único" nem "acidente histórico", há um método que se repete e se aperfeiçoa, e que encontrou na ansiedade popular seu combustível mais barato. A metáfora do espelho é precisa — o autoritarismo moderno não convence, ele acolhe; não promete soluções, promete culpados.

    Gramsci, que viveu para ver o fascismo nascer e morrer, descreveu este exato crepúsculo: o velho mundo está morrendo, o novo tarda a nascer e, nesse clarão, os monstros da política aparecem. Estamos no clarão. A pergunta que o nosso tempo faz a cada um de nós não é se os monstros virão — pois eles já estão à nossa porta. A pergunta é: seremos capazes de acender a outra luz, a que não ilumina o medo, mas o caminho? Porque o crepúsculo, quando se recusa a ceder à noite, chama-se amanhecer.

    O recado final é que não basta resistir ao monstro, é urgente desmontar a fábrica que o produz. Defender a democracia como ela está hoje é defender o modelo que a enfraqueceu. A minha saída proposta — reinventar a democracia, fim das reeleições, regular as plataformas, refazer a solidariedade internacional — é ambiciosa e está correta na direção. Mas fica aqui a lacuna natural deste meu artigo de opinião: apontar o caminho é o primeiro passo; traçar o mapa será a tarefa que fica para os meus próximos textos. No conjunto, este é um ensaio lúcido, urgente e, sobretudo, honesto — porque não oferece ao meu leitor a ilusão de um culpado, mas o desconforto produtivo de um desafio coletivo.

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.

     



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