MK - Marcelo Kieling
O capitalismo pede socorro ao Estado
O império capitalista está sitiado pela própria dívida
O capitalismo pede socorro ao Estado
Tarifas para fora, ingerência para dentro: o império capitalista está sitiado pela própria dívida e mesmo assim ainda exporta apoio à extrema direita bolsonarista — aquela que, em casa, tenta sempre rasgar as próprias urnas que um dia os elegeram.
Por Marcelo Kieling
Em um daqueles paradoxos que a História adora arquitetar, a maior potência capitalista do planeta — o país que por décadas pregou ao mundo o evangelho do livre-comércio, da abertura de mercados e da não intervenção estatal — recorre hoje, sem cerimônia, às ferramentas mais clássicas do Estado intervencionista: tarifas alfandegárias, protecionismo explícito e barganha comercial como política de Estado. A ironia não poderia ser mais afiada: Washington ergue muros tarifários não por convicção ideológica, mas por necessidade — para tentar estancar a hemorragia de seus próprios desequilíbrios fiscais e frear a concorrência asiática que construiu sua pujança, em boa medida, sobre as mesmas regras do jogo que os EUA ajudaram a desenhar. A catedral do capitalismo, sitiada por seus próprios números, busca agora abrigo no porão do protecionismo que um dia condenou.
A meu ver, o que presenciamos não é apenas uma guinada tática de governo, mas a admissão constrangedora de que o dogma neoliberal esgotou suas promessas de autorregulação. Quando a superpotência precisa se blindar atrás de alfândegas sufocantes e, ao mesmo tempo, financiar cabeças de ponte autoritárias no exterior para garantir mercados cativos, ela revela a face mais crua de um império em defensiva. O protecionismo americano de hoje é, no fundo, o atestado de óbito da globalização tal como nos foi vendida — e um aviso perigoso de que, acuados pela própria incompetência distributiva, os centros do capital financeiro global não hesitarão em incendiar a democracia alheia para tentar salvar a própria pele.
O nó górdio de US$ 40 trilhões
Este cenário toca em um dos nós górdios da economia global contemporânea. A marca histórica de US$ 40 trilhões na dívida soberana norte-americana — superada em agosto — rondando a casa de 125% do PIB, reflete décadas de expansão fiscal agressiva, impulsionada por sucessivos pacotes de estímulo, grandes investimentos em defesa, combate a crises globais e, crucialmente, pelo peso esmagador da despesa com juros em um ambiente de "taxas mais altas por mais tempo".
A matemática do endividamento ajuda a explicar a pressa: a dívida que já ultrapassou o tamanho da economia americana cresce a um ritmo que o Congressional Budget Office (CBO) projeta chegar a patamares alarmantes, com déficits anuais multibilionários. Nesse contexto, sustentar a máquina fiscal com receita adicional tornou-se questão de sobrevivência política, e é aí que entram os tarifaços.
Por que os tarifaços fazem sentido estratégico — para Washington
Entender o uso de tarifas e protecionismo como ferramenta de reequilíbrio fiscal e industrial é enxergar a cartilha de Washington por dentro. A lógica por trás dessa investida desdobra-se em frentes muito claras:
l A estratégia de proteção industrial e arrecadação: Barreiras alfandegárias funcionam como escudo. Ao impor tarifas pesadas sobre produtos estrangeiros — especialmente chineses e de parceiros comerciais com superávits recorrentes —, a administração americana tenta desestimular as importações em massa. O objetivo declarado é forçar empresas globais a relocalizar cadeias de suprimentos e fábricas de volta ao território americano, gerando empregos locais, fortalecendo a base industrial e ampliando a arrecadação de impostos corporativos. Estimativas indicam que as tarifas em vigor elevam a alíquota efetiva de importação a patamares históricos, movimentando centenas de bilhões de dólares para o Tesouro.
l O duplo sentido geoeconômico — e seus riscos: As tarifas também funcionam como arma de negociação para forçar acordos bilaterais mais vantajosos e abrir mercados externos. Mas o efeito bumerangue é certo: o tarifaço opera, na prática, como um imposto pago pelo próprio consumidor e pelas empresas americanas dependentes de insumos importados, o que reacende pressões inflacionárias e obriga o Federal Reserve a manter juros elevados — encarecendo, ironicamente, o serviço da própria dívida pública.
l A sustentabilidade da dívida e o papel do dólar: Os EUA carregam o "privilégio exorbitante" de emitir a principal moeda de reserva global, permitindo rolar compromissos com apetite internacional. O dilema, porém, é estrutural. Especialistas concordam que medidas protecionistas isoladas não estancam um déficit gerado por gastos públicos profundos e despesas obrigatórias crescentes com previdência e saúde. Para um reequilíbrio real, seria necessário enfrentar reformas estruturais de gastos — um debate que nenhuma barreira alfandegária substitui.
O espelho brasileiro: quando a guerra comercial vira projeto de poder
A ironia ganha um novo andar quando o olhar cruza o Equador. O mesmo governo que ergue muros tarifários para defender a própria casa fiscal não hesita em projetar poder além-fronteiras — e o Brasil, maior economia da América Latina e alvo de pressões comerciais, tornou-se peça central desse tabuleiro. A convergência não é casual: a candidatura da extrema direita bolsonarista está ancorada, de forma explícita, em setores do establishment americano que enxergam no pleito brasileiro um campo de batalha ideológico.
O alinhamento com Washington não é retórico: em maio, o senador Flávio Bolsonaro (PL) foi recebido por Donald Trump na Casa Branca, em uma agenda costurada para tentar injetar fôlego político a uma campanha cercada de turbulências. A ex-subsecretária de Defesa dos EUA, Jana Nelson, veio a público confirmar que as pressões econômicas de Washington sobre o Brasil carregam o objetivo declarado de apoiar o clã Bolsonaro.
O paralelo com a cartilha de contestação institucional é direto. A estratégia de plantar desconfiança antecipada nos sistemas de votação repete, em solo tropical, o roteiro ensaiado em 2020 nos EUA: preparar o terreno para desacreditar a soberania popular e legitimar a narrativa do confronto institucional.
A faca de dois gumes econômica
Aqui o paradoxo se completa. As mesmas tarifas que Washington usa para reequilíbrio fiscal atingem diretamente a pauta exportadora de países parceiros, gerando atritos diplomáticos. E, no plano eleitoral interno, o endosso externo revelou-se um ativo de dupla face: alimenta a base ideológica mais radical, mas expõe a candidatura à pecha da subordinação a uma potência que, ao mesmo tempo em que oferece palanque, aperta o torniquete econômico sobre o Brasil.
O paradoxo como retrato do tempo
A imagem final é quase kafkiana: o arauto do livre mercado tornou-se o maior protecionista do mundo ocidental, e o dono da moeda reserva global precisa do tarifaço para pagar suas próprias contas — enquanto exporta, como projeto de poder, o mesmo manual autoritário que em casa já tentou rasgar a democracia. As tarifas compram tempo e arrecadação, mas não resolvem o nó górdio fiscal; e a aliança com Washington compra abraços de fachada, sem garantir soberania nem votos de um povo que conhece o peso de sua própria história. Enquanto a dívida americana crescer mais rápido que sua economia, Washington continuará olhando para o Sul Global não como parceiro, mas como espelho: uma lembrança incômoda de que, no capitalismo global, nenhum império é grande demais para não precisar, um dia, de muros — nem para tentar derrubar os alheios.
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.




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