MK - Marcelo Kieling
O Brasil Contra o Próprio Abismo:
2026 e a Guerra Contra o Fascismo
O Brasil Contra o Próprio Abismo: 2026 e a Guerra Contra o Fascismo
Por Marcelo Kieling
Há quem jure, com a mesma serenidade de quem anuncia a previsão do tempo, que 2026 será apenas mais uma eleiçãozinha: palanques, promessas, debate sobre inflação e aquele charmoso "jogo democrático" de sempre. É de emocionar, não é? Pois é preciso uma fé quase mística — dessas que se pratica de joelhos diante de quartéis, de quem reza para pneu queimado — para acreditar que um projeto político que já tentou rasgar a Constituição, apagar as luzes da República e transformar o ódio em programa de governo agora queira apenas disputar votos, como quem disputa uma partida de dominó na praça.
Se isso ainda voltar a ser a nossa realidade, vou ter de acreditar em Papai Noel, acreditar em Saci, acreditar até mesmo em "página virada" — mas vou acreditar com os olhos bem abertos. E aí vou rir do absurdo, sim, e rir muito alto. Porque num país em que o ridículo já serviu de senha para o golpe, a ironia é o último estágio da lucidez antes de eu ter de sair correndo.
A atual corrida eleitoral que se desenha não cabe nos manuais tradicionais da ciência política — e quem insiste em lê-la como um capítulo comum da rotina democrática está lendo o livro errado. Não estamos diante de uma disputa convencional de palanques, promessas e debates sobre inflação ou infraestrutura. O que se vive no país é uma guerra de atrito de baixa intensidade e alta toxicidade: um conflito permanente em que as instituições são testadas diariamente à exaustão, em que cada tuíte é um tiro, cada boato uma granada, tudo alimentado pelas malditas bolhas digitais, onde qualquer resquício de sanidade no debate público fica sob cerco permanente.
Acordar com a sensação desconfortável de que a democracia brasileira caminha sobre um campo minado é o sintoma coletivo de uma nação que ainda não cicatrizou as feridas abertas pelo autoritarismo recente. Numa virada irônica e trágica do destino, o espetáculo da desconfiança mútua faz com que até os espíritos mais democratas flertem, num segundo de vertigem, com a dúvida que não deveria existir: como é possível que um projeto político com raízes no extremismo histórico — dos velhos esquadrões e atentados quartelísticos à tentativa explícita de golpe de Estado e à apologia sistemática à violência — continue a mobilizar milhões de votos?
A resposta, amarga, mora num fato que muitos se recusam a encarar: o extremismo contemporâneo não opera pelo convencimento racional, mas pela criação de uma realidade paralela. Ao longo dos anos, o ecossistema bolsonarista especializou-se na exploração sistemática do medo, do preconceito e do ódio como combustível eleitoral. Enquanto a face pública exibia a fachada de uma suposta "página virada" — um verniz de normalidade institucional adotado por puro pragmatismo eleitoral —, nos subterrâneos estruturava-se a máquina de poder baseada no cerco às instâncias de controle, na pecha da corrupção difusa dos gabinetes familiares e na simbiose perigosa com a milícia e o submundo do crime organizado.
Não nos enganemos: essa máquina não desligou. Ela apenas recalibrou o discurso, trocou o grito pelo sussurro, a camiseta verde-amarela pelo terno de ocasião. O golpista não virou democrata; aprendeu a representar o democrata. E é exatamente essa encenação — essa "página virada" que nunca virou de fato — que constitui o maior perigo de 2026. Porque o fascismo, quando não pode vencer pela força, tenta vencer pela normalização. E a normalização começa sempre pela linguagem, pelo cansaço, pela exaustão de quem já não aguenta mais resistir.
O resultado dessa engenharia de conflito é a persistência de um bolsão radicalizado que recusa o pacto civilizatório básico. E é justamente isso o que alimenta o fantasma do retorno ao absurdo: a lembrança ainda viva do cheiro de pneu queimado, das vigílias místicas diante de quartéis, do delírio coletivo que transformou cemitérios e portas de igrejas em trincheiras de uma guerra santa inexistente. Não foi pesadelo. Foi ensaio. E ensaio, em política, costuma ser ensaio geral.
A grande questão de 2026 não é apenas saber quem vencerá nas urnas, mas se a democracia brasileira e seus verdadeiros representantes terão resistência imunológica suficiente para impedir que o país seja arrastado de volta ao pântano do delírio fascista. A guerra de atrito está declarada, e o troféu em disputa é a própria alma da República. As trincheiras já estão cavadas — no asfalto das avenidas, na pira das redes, na memória de um país que ainda sente o cheiro da fumaça. A pergunta que fica, diante de tanta exaustão, é a mais incômoda de todas: quem ainda tem fôlego para lutar?
Para refletir: Diante deste cenário de polarização aguda, que tipo de estratégia as reais forças democráticas deveriam adotar para neutralizar esse apelo extremista sem cair nas armadilhas da violência política? A resposta a essa pergunta definirá, mais do que qualquer pesquisa, o destino do pleito — e, talvez, o destino da terra Brasilis e da própria República.
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.




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