Carmem Teresa Elias
DUAS LIÇÕES DE GEOPOLÍTICA E AS MANIPULAÇÕES DOS JOGOS
Jairo Júnior trabalhou na indústria têxtil
DUAS LIÇÕES DE GEOPOLÍTICA E AS MANIPULAÇÕES DOS JOGOS
A Copa do Mundo tem sido um cenário perfeito para a exemplificação do escopo da geopolítica. O evento deveria ser basicamente esportivo, porém deixa explícita a relação de poder entre nações e como atores globais disputam o controle dos espaços dentro e fora do campo.
Por geopolítica entende-se relações de poder entre nações, além de fatores meramente geográficos, abarcando fatores econômicos, culturais e políticos. A pergunta central em Geopolítica é como se o cenário internacional e as estratégias dos Estados são moldadas. Alem do impacto de fronteiras, estão incluídos no tema recursos naturais, território e tecnologia, diplomacia e conflitos mundiais.
Um dos aspectos mais importantes da geopolítica na Copa do Mundo consiste da análise da hierarquia de poder global, onde superpotências e nações em desenvolvimento disputam influência. O caso mais escandaloso: um presidente telefona para o responsável pelo evento internacional e pede que o cartão vermelho do jogador de seu país seja desconsiderado. Por outro lado, o técnico do Egito sinaliza em campo, conforme protocolo do evento, discriminação racial contra seu time, e o juiz ignora. Negociações se travam entre o campo e os salões presidenciais, sem ao menos passar pelos corpos diplomáticos.
O esporte é só uma parte das atuações de dominação, dependências, interferências, jogos de poder ( político, econômico, social). A geopolítica analisa os interesses por trás de guerras, acesso a recursos naturais, imposições de sanções, e uso de inteligência artificial como arma de colonização mundial em grande escala.
O termo geopolítica, cunhado no século XX, analisa e interpreta justamente disputas: por que e como elas operam em conflitos internacionais.
Bem no meio de jogo de perdas e vitórias, onde ganhar é tudo ou nada, dois escritores lançam seus livros tendo a geopolítica como tema central: o jornalista, escritor e poeta recifense Jairo Júnio, com seu livro “Geopolítica nos Tempos de Trump: o mundo sob ataque; e professora escritora sergipana Tânia Maria da Conceição Meneses Silva, autora de Geopoesia.
Jairo Júnior trabalhou na indústria têxtil. A vida operária o fez pensar e compreender a realidade de modo a também buscar uma forma de transformá-la. A partir de então, consolidou seus estudos, sua pesquisa, sua formação política. Viajou por grande parte do continente africano, sempre seguindo adiante em luta.
Em “Geopolítica, nos tempos de Trump”, o autor reúne ensaios que nascem dessa travessia, textos que recusam a indiferença e afirmam uma convicção essencial, a neutralidade, diante do mundo, também é uma escolha... e quase sempre, a mais perigosa e negativa! O livro nos oferece diversas análises sobre os principais impasses mundiais, detalha a situação de diversos países em conflitos, particulariza principalmente a situação do Brasil, que caracteriza como "uma potência desarmada, entre a dependência imposta e a soberania possível". Jairo alerta que os detentores do poder mundial são três: o comércio de armas, as bigtechs e o sistema financeiro. Esses três elementos juntos coordenam a atividade política, incluindo a norte-americana.
O livro inclui temas como a crise no Império americano, as crises políticas na América Latina, a Ucrânia como estado instrumental e conflitos europeus como projeto, a fragmentação e subordinação do Oriente, as feridas e desigualdades estruturais africanas.
Tânia Conceição Meneses faz pleno uso da poesia para expressar o modo como a partir de situações do século XXI, ocorre a administração financeira das potências mundiais em seus movimentos de mercado e luta pelo poder, atitudes de inconsequências, o egoísmo, o interesse e a luta cruel pelo lucro capitalista e pelo Poder além de todas as medidas, aniquilando a subjetividade e a capacidade de envolvimento com o drama do nosso semelhante.
A obra poética intitulada GEOPOESIA é, talvez, um exercício de buscar a consciência poética que transcende até a arte da Poesia. A autora visa demonstrar que a Poesia está em todas as coisas, assim como uma deusa que rege os movimentos não só da Terra, mas do Cosmos. Sua Poesia é quântica, plena, transcendente e que une poetas, quer letrados ou não.
Os poemas de Tânia da Conceição Meneses passeiam por Aracaju, terra natal de autora e atravessam oceanos, como em Meus sapatos de ver Paris; Joana, a louca de Espanha; Dom Quixote e Sancho Pança; The Kiss of Death; Il Trovatore (Ópera de Verdi), dedicada ao Professor João Costa; Brasil; Democracia; além de uma homenagem à Maria Santíssima, em Magnificat.
Dois poemas de “Geopoesia” exemplificam o fazer poetico:
SOLIDÃO (por Tânia Meneses. Este é apenas um exercício de leitura totalmente livre do poema Alone, de Edgar Allan Poe).
Desde criança não sou (e me revejo)
Igual aos outros; eu não vejo
Do jeito que os outros veem; daqueles dias sobejo
Paixões de uma primavera em comum desejo.
Da mesma origem eu não pude retirar
Minha angústia; eu não pude fazer cantar
No meu coração a felicidade no mesmo tom, sequer baixinho;
E tudo que amei, eu amei sozinho.
Então _ em minha infância, na alvorada
Da mais tormentosa existência _ ela foi projetada
Desde cada profundidade do bem e do mal
O mistério que me envolve permanece igual
Desde a torrente, ou a fonte que se assanha
Desde o vermelho penhasco da montanha,
Desde o sol que em torno de mim abrasa
Em seu outono que com o tinto d’ouro se casa,
Desde o relâmpago que o céu vai riscando
É como se por mim tudo passasse voando
Desde o trovão e a tempestade
Que da nuvem emerge a potestade
(Quando o que resta do céu azul fremente)
De um demônio em minha mente.
MEUS SAPATOS DE VER PARIS
Comprei uns sapatos de ver Paris
E poderia haver algo mais chic
Do que um par de sapatos de ver Paris
Eles sonham com as Tulherias
E com subir escadinhas no Boemia
E se veem bonitos em meus pés
Acreditam que em Paris tem gente que ouve o Aznavour
A Piaf
Inocentes sapatos de ver Paris
E se imaginam em calçadas largas
Em um café au lait
E olham passar uma bela parisiense
Tolos sapatos de nonsense
Meus sapatos de ver Paris
Querem se ver nos espelhos de Versalhes
De todos os lustres de cristais
Observar os detalhes
Meus sapatos de ver Paris
Querem se molhar nas águas do Sena
Ouvindo enquanto isso
Uma valsa vinda de Viena
Meus sapatos de ver Paris
Querem se esconder nos cantinhos do Batêau Mouche
E me deixarem de pés descalços
Voltar para o Brasil
Jairo Junior, por sua vez, também é poeta. De seu livro “ Cantos e desencontros”, encontram-se textos destinados a Palestina, Chile, México, Angola, como, por exemplo, no poema a Agostinho Neto:
AGOSTINHO NETO - O MÉDICO DO SONHO E DA PÁTRIA (poema de alma angolana e coração universal)
No peito do tempo ecoa teu nome, Agostinho, filho da esperança e da dor, do chão vermelho de Icolo e Bengo nasceste, erguendo da terra um hino de amor.
Entre bisturis e livros, fizeste da cura um gesto de libertar, pois sabias — o corpo da pátria também adoece, e só o povo unido pode o mal sarar.
Foste verbo e fuzil, poeta e presidente, homem de ciência e fé ardente, no olhar — o brilho de um sol que não cessa, na palavra — o grito da alma angolense!
Dois escritores do Nordeste mostram sua arte consciente, sensível e analítica diante de um mundo esfacelado. Que a literatura nos salve dos pênaltis não marcados e dos gols anulados nas disputas políticas que dominam a humanidade.
Carmem Teresa Elias




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