MK - Marcelo Kieling
O Tarifaço de Trump: A Servidão Voluntária
O inimigo não está do lado de fora do muro — está dentro de casa.
O Tarifaço de Trump: A Servidão Voluntária
Por Marcelo Kieling
Há momentos na história de um país em que o inimigo não está do lado de fora do muro — está dentro de casa, tentando discursar em língua estrangeira.
A imposição da tarifa de 25% sobre produtos brasileiros pelo governo americano, que entra em vigor em 22 de julho de 2026, não é apenas um marco nas relações bilaterais. É a fotografia perfeita de um fenômeno mais profundo e mais triste: a decisão de uma parcela da elite política brasileira de exportar o campo de batalha doméstico e transformar a máquina comercial americana em instrumento de guerra eleitoral.
Os números são implacáveis. O Brasil salta de uma tarifa efetiva média de 1,19% em janeiro de 2025 para 14,42% ao final deste mês — tornando-se, de uma só vez, o segundo país mais tarifado do mundo pelos Estados Unidos. Não se trata de uma borboleta que bateu asas em Washington e chegou como tempestade em Brasília. Há arquitetos. Há malditos dedos em gatilhos. Há excusos interesses muito bem desenhados.
O tarifaço não é genérico — é cirúrgico. Máquinas e equipamentos, o segmento mais castigado, com US$ 3,3 bilhões exportados ao mercado americano no último ano, agora sobretaxados em 25%. Aço e alumínio, já submetidos a tarifas de 50%, foram excluídos de qualquer alívio. Etanol, calçados e uma vasta gama industrial enfrentam barreiras que reduzem brutalmente sua competitividade.
E a isenção seletiva de carne bovina, café, suco de laranja, petróleo bruto e aeronaves civis? Não é acaso. Revela o corrupto caráter político e direcionado da medida. A justificativa técnica, esmiuçada pelo USTR, mira decisões soberanas do Brasil: o sistema Pix, a regulação brasileira de conteúdo digital e a política de etanol. O que está em jogo, em outras palavras, é a soberania regulatória de um país que ousou construir seu próprio sistema financeiro e sua própria legislação digital sem pedir licença.
O governo dos EUA tentou exigir, na prática, que o Brasil abra mão do controle sobre si mesmo para escapar da punição. É uma declaração de que, para Washington, autonomia nacional é caso de sanção.
Mas a ferida mais profunda não está na pauta de exportações. Está na constatação de que a articulação que viabilizou esse resultado não foi construída na capital americana. Foi montada em Brasília e operada em solo americano por personagens cujo fio condutor não poderia ser mais claro: a sobrevivência política da extrema-direita um grupo que perdeu as eleições, perdeu o mandato e agora aposta na ruína econômica do próprio país para reverter a última e talvez a provável próxima derrota nas urnas.
O secretário de Estado americano assumiu abertamente o papel de linha de frente. Acusou o governo brasileiro de má-fé nas negociações e transformou a retórica contra o STF em política de Estado americana. Defende sanções contra ministros do Supremo como quem pede a cabeça de um inimigo de guerra. A diferença é que o inimigo, aqui, é o Judiciário de um país soberano — e o algoz é o chefe da diplomacia de uma potência estrangeira. Não há precedente republicano que normalize essa cena sem que o Brasil perda um pedaço de sua dignidade.
O senador e pré-candidato à presidência levou a subserviência a um grau difícil de classificar. Em vez de defender a economia brasileira e exigir o fim das tarifas, enviou cartas a Washington pedindo algo muito pior: que as sanções fossem adiadas para depois das eleições. O raciocínio, se é que merece esse nome, é tão cristalino quanto grotesco — o impacto econômico não o preocupa; o que o preocupa é que a população brasileira possa culpar o adversário político. A proteção do país foi trocada pelo calendário eleitoral. Um golpe oculto de derrubada da democracia. Nunca a palavra "lesa-pátria" foi tão precisa.
O irmão ex-deputado, cassado e condenado, que vive de forma milionária nos EUA, que é uma figura que a Justiça brasileira não alcança. Tornou-se o elo operacional entre o bolsonarismo e o trumpismo radical. Endossa as pressões contra o STF, frequenta audiências no Congresso americano e atua como tradutor político de uma pauta que, em português claro, significa: "isolamento internacional do Brasil".
O neto do ex-presidente da ditadura completa o coro. Como “influenciador” digital e lobista nos EUA, pede abertamente a punição econômica do Brasil, acusa o STF de comandar uma ditadura e celebra o tarifaço como vitória política. Neto de um general de 1964, parece sonhar com 2026 — só que, desta vez, o tanque viria de fora.
Quatro atores. Quatro golpistas. Um mesmo enredo. Um mesmo desejo: que o Brasil se curve para que eles se ergam.
Não se trata de discordância legítima sobre política econômica ou alinhamento internacional. Oposição faz parte do jogo democrático. O que está em cena aqui é outro movimento — a decisão consciente de internacionalizar a disputa doméstica. Em vez de disputar votos, alianças ou narrativas dentro do Brasil, escolheu-se Washington como arena. O método não é novo na história latino-americana. A oposição venezuelana tentou o mesmo com sanções dos EUA contra Maduro. A diferença é que, no Brasil, a aposta no "quanto pior, melhor" vem acompanhada de um alinhamento ideológico explícito com o governo que está aplicando a punição.
Isso não é diplomacia paralela. É servidão voluntária. É a escolha de um caminho em que a derrota do governo brasileiro vale mais que a vitória do país.
O resultado prático é um Brasil que amarga bilhões de dólares em perda de exportações, setores inteiros da indústria sob pressão, empregos em risco e um debate público sequestrado por uma pauta que não deveria existir: defender o Brasil contra agressão comercial estrangeira deveria ser cláusula pétrea de qualquer político brasileiro, não moeda de troca eleitoral.
Há uma cena que me vem à cabeça. Um país sentado à mesa de negociações com os Estados Unidos. De um lado, os representantes oficiais do governo brasileiro, tentando defender interesse nacional. Do outro, diplomatas americanos. E, ao fundo, sentados na mesma sala do lado de lá, quatro brasileiros torcendo contra o próprio país, sussurrando estratégias ao ouvido do time adversário, apontando as fragilidades da defesa.
Não é exercício de ficção. É o que está acontecendo.
O Brasil sempre teve adversários políticos internos. Agora tem algo pior: inimigos que, para vencer em casa, preferem perder o país inteiro. E o pior de tudo é que eles podem estar conseguindo.
Precisamos mudar o Brasil. Vamos? Vem aí as eleições...
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