José Carlos Alcântara
Búzios perdeu sua paz e o sossego: a fiscalização nunca chega
Búzios não é — e não pode ser — uma terra sem lei.
Búzios perdeu sua paz e o sossego: a fiscalização nunca chega
Por José Carlos Alcântara
Quem chega a Búzios em busca de descanso, de paisagens preservadas e direito básico ao sossego, tem encontrado cada vez mais um cenário de absoluto desgoverno.
As suas famosas praias, que antes eram refúgios de tranquilidade, vêm sendo sistematicamente transformadas em palcos flutuantes de festas movidas a música altíssima, bebedeira coletiva e total ausência de controle. O que deveria ser exceção virou regra — e o pior: com uma total conivência de quem deveria coibir.
O problema não está apenas no turista mal-educado ou no barco que aluga um som potente. A raiz é mais profunda e tem nome claro: corrupção e leniência do poder público.
As embarcações ancoram a poucos metros da costa, com caixas de som que fazem tremer a areia, e nada acontece. Os passageiros despejam lixo no mar, promovem algazarra que ecoa por toda a península, e nenhuma autoridade aparece. Não há blitz marítima eficiente, não há monitoramento, não há multa que doa no bolso — porque, quando há fiscalização, ela é facilmente contornada com o velho e conhecido "jeitinho".
Quem frequenta Búzios sabe: muitos desses passeios irregulares operam com total desfaçatez, pois contam com a proteção de uma rede de interesses que envolve desde agentes públicos omissos até esquemas organizados de propina. As leis existem — há normas municipais sobre poluição sonora, limites de embarcações e restrições ambientais, mas não servem para coibir. Na prática, a sensação é de que quem pode pagar, pode tudo. E quem cala, consente, lucra ou ocupa um cargo que não honra.
Enquanto isso, moradores perdem o direito à paz em suas próprias casas, pousadas veem hóspedes encurtarem estadias, e o turismo de qualidade — aquele que sustenta a economia local com respeito — começa a debandar para outros destinos. E o meio ambiente também paga muito caro: com a fauna marinha afugentada e ecossistemas frágeis violentados em nome do "lazer" sem regras.
Búzios não é — e não pode ser — uma terra sem lei. A corrupção que vem permitindo esse escárnio flutuante precisa ser exposta e combatida com rigor.
A sociedade civil deve exigir transparência, investigação e o fim da impunidade que alimenta essa festa podre que alguns pagam.
Porque o som que ecoa desses barcos não é só de uma música alta: é o terror do som da fiscalização que foi comprada e de um descaso que já está durando há muitos verões.
José Carlos Alcântara foi Secretário Geral - AGEBRÁS Associação Brasileira de Agentes de Exportação, Rio de Janeiro; Consultor Técnico - FUNCEX Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior, Rio de Janeiro; Diretor de Marketing - BRASIL EXPORT New York, Dallas, Atlanta, Miami, Los Angeles e Chicago; Diretor Superintendente - ABC TRADING Comércio Exterior, Rio de Janeiro; Vice-President - The First National Bank of New York (SAFRA, NY-USA); Assessor Internacional da Presidência - ACRJ Associação Comercial do Rio de Janeiro; Redator de editoriais e artigos no Jornal Primeira Hora, Armação dos Búzios.




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