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Barra Mansa,09/06/2026

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    Carlo Simi

    O MERCADO QUE DEVORA OS SEUS — E PORQUE O FUTEBOL NÃO PODE SER CÚMPLICE.

    O vício que opera no escuro


    O MERCADO QUE DEVORA OS SEUS — E PORQUE O FUTEBOL NÃO PODE SER CÚMPLICE.

    O MERCADO QUE DEVORA OS SEUS — E PORQUE O FUTEBOL NÃO PODE SER CÚMPLICE.

    Por Carlo Simi

    Sei calcular a probabilidade de ganhar numa bet. Mas sei também o que os números realmente significam — e o que o Brasil está perdendo enquanto normaliza essa indústria.

    "Como que meu irmão tinha gastado R$109 mil numa plataforma e nada foi feito? No dia que eu enterrei meu irmão, eu falei: vou fazer um alerta nas redes sociais.

    E aí eu descobri que meu irmão era só uma estatística".

    — Irmã de vítima de vício em apostas online, em depoimento público.

    Esse relato não é exceção. É padrão. E é por isso que preciso escrever este texto não apenas como cidadão indignado, mas como alguém que conhece a matemática do mercado — e é exatamente esse conhecimento que torna o problema ainda mais grave do que parece.

    I. O que os números realmente dizem:

    Sou matemático. Sei que existem métodos estatísticos que permitem, em tese, operar com lucratividade nas apostas esportivas. Gestão de banca, análise de odds, controle de variância — tudo isso é real. Não estou aqui para dizer que é impossível ganhar.

    Estou aqui para dizer o que esse "possível" significa na prática: cerca de 3% dos apostadores — aqueles com capital suficiente, frieza emocional e formação técnica —conseguem transformar apostas em fonte de renda sustentável. O mercado foi arquitetado para que essa minoria exista. Ela é a vitrine. O produto são os outros 97%.

    O mecanismo é brutalmente elegante: a possibilidade real de ganho legitima a indústria socialmente.

    A probabilidade real de perda financia o modelo.

    E o vício é o motor silencioso que garante a retenção.

    Brasil em números - O retrato do mercado:

    l R$ 37 bi/ano - Volume movimentado em apostas no Brasil — um dos maiores mercados mundiais de plataformas online;

    l R$ 150 bi é a estimativa de recursos retirados do comércio e redirecionados às bets — cerca de 1% do faturamento do varejo para cada R$ 1 bi apostado;

    l 22 milhões brasileiros cadastrados em plataformas de apostas — mais de 200 operam legalmente no país;

    l 11 milhões de pessoas que apostaram em nível capaz de gerar problemas emocionais, familiares e financeiros — quase 7% da população.

    l 270 mil famílias que entraram em situação de endividamento diretamente ligado a casas de apostas.

    l 1,4 milhão de pessoas em nível clínico de vício — diagnóstico psiquiátrico configurado

    l 15 × é maior a chance de comportamento suicida entre viciados em jogos de azar, segundo estudo psiquiátrico recente

    l R$ 40 bi/ano de custo social estimado — saúde pública, desemprego, afastamentos, vidasperdidas (Agência Brasil)

    O balanço que ninguém apresenta: o Estado arrecada tributos sobre as bets. Mas paga R$ 40 bilhões por ano em custo social gerado por elas.

    Antes de qualquer debate ideológico sobre liberalização ou proibição, este cálculo precisa estar na mesa transparente, auditado, público.

    II. O vício que opera no escuro

    Uma característica que distingue as bets de outras formas de jogo historicamente presentes no Brasil — Mega-Sena, quina, jogo do bicho, corrida de cavalos — é a invisibilidade do consumo. O apostador não precisa sair de casa. Não precisa interagir com ninguém. O celular basta.

    Isso tem uma consequência que os dados capturam mal: o vício se instala no silêncio familiar.

    A pessoa que perde R$ 109 mil numa plataforma não anuncia. Esconde porque sabe que está usando dinheiro que era da família. Esconde porque não consegue admitir a perda de controle. E quando a dívida chega ao limite do insuportável, frequentemente não há mais rede de proteção — porque a rede de proteção foi consumida junto com o saldo.

    Uma a cada três pessoas que desenvolveram vício já pensou em tirar a própria vida. Uma a cada oito já tentou. O irmão daquela mulher foi uma dessas oito. Quantos não chegam a viralizar?

    III. O futebol capturado — e a armadilha do patrocínio

    Aqui está o nó mais difícil do debate. E preciso ser honesto sobre ele.

    O futebol brasileiro está financeiramente capturado pelas bets.

    Não é patrocínio periférico — é a espinha dorsal econômica de grande parte dos clubes. Camisas, naming rights de estádios, transmissões, campeonatos. O produto mais popular do país está umbilicalmente ligado à indústria mais predatória do momento.

    Isso coloca os clubes, as federações, os atletas e até os torcedores numa posição moralmente incômoda — e economicamente real.

    Qualquer proposta de regulação severa que ignore essa dependência é retórica, não política pública. Os clubes não vão recusar o dinheiro enquanto não houver alternativa viável.

    Mas isso também não pode ser argumento para a paralisia. A indústria tabageira também financiou esportes por décadas.

    A publicidade de cigarro em eventos esportivos foi proibida. O esporte sobreviveu. O modelo mudou. E a saúde pública ganhou.

    A questão não é se a transição é viável — é se há vontade política de construí-la, e em quanto tempo.

    IV. O Congresso, os influenciadores e a normalização

    Há uma segunda camada de captura que precisa ser nomeada com clareza: a captura do sistema político e da esfera pública.

    Bilhões circulam por ano para patrocinar não apenas festivais e reality shows, mas influenciadores com audiências de dezenas de milhões de pessoas.

    A função desse investimento não é apenas publicidade — é normalização. É fazer com que apostar seja tão mundano quanto pedir delivery.

    E no Congresso, o lobby das bets é robusto. Não é por acaso que a regulação aprovada em 2023 não incluiu mecanismos efetivos de proteção ao apostador compulsivo, limites de depósito ou restrições à publicidade voltada a populações vulneráveis.

    A regulação existente legalizou o mercado. Ainda não o disciplinou.

    V. O que pode — e deve — ser feito

    Não sou proibicionista ingênuo. Mercados de apostas existem em todo o mundo e existirão independentemente de qualquer lei brasileira. O que se pode e deve regular é o grau de dano social tolerado.

    Eis quatro frentes concretas:

    Proposta 01:  Balanço fiscal obrigatório e público

    O governo federal deve publicar anualmente o balanço entre arrecadação tributária gerada pelas bets e custo social mensurável — saúde, previdência, segurança pública, sistema judiciário.

    Sem esse dado, o debate permanece ideológico. Com ele, torna-se econômico.

    Proposta 02: Teto de depósito e mecanismos de autoexclusão obrigatórios

    Plataformas devem ser obrigadas a implementar limites mensais de depósito por CPF, com possibilidade de autoexclusão imediata e irrevogável por até 5 anos. Modelos equivalentes já existem no Reino Unido e em Portugal — e reduziram indicadores de vício sem colapsar o mercado.

    Proposta 03: Fundo de reparação social financiado pelas plataformas

    Uma parcela do imposto sobre a receita bruta das bets deve ser carimbada para um fundo destinado exclusivamente ao tratamento do vício em jogos e ao apoio às famílias afetadas.

    O custo social não pode ser inteiramente socializado enquanto o lucro é inteiramente privatizado.

    Proposta 04: Restrição progressiva da publicidade

    Proibição imediata de publicidade de bets em horário nobre televisivo e plataformas com audiência majoritariamente infantojuvenil.

    Prazo de três anos para extinção do patrocínioem uniformes de clubes de futebol, com programa de substituição gradual articulado com as federações — exatamente o modelo usado com o tabaco nos anos 1990 e 2000.

    Para não fechar os olhos: A irmã que enterrou o irmão e foi às redes sociais não está pedindo compaixão. Está pedindo responsabilidade coletiva. E tem razão em exigir.

    Eu, como matemático, posso explicar por que o mercado funciona como funciona. Mas precisamente porque entendo os mecanismos, não consigo fingir que a desigualdade de informação e de capital entre a plataforma e o apostador comum é uma condição natural e aceitável. Não é. É um design.

    O futebol que amamos, os estádios que frequentamos, os ídolos que admiramos — parte de tudo isso está sendo financiado pelo endividamento de 270 mil famílias e pela dor de 1,4 milhão de viciados. Isso não significa que devemos virar as costas para o esporte.

    Significa que devemos exigir que o esporte vire as costas para esse modelo de financiamento — e construir outro.

    Enquanto isso não acontece, cada compartilhamento de publicidade de bet é uma escolha.

    Cada voto em parlamentar comprometido com esse lobby é uma escolha. E cada silêncio diante de uma família destruída também é uma escolha.

    Escolha bem.

    Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.



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