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    Carlo Simi

    O NORDESTINO: 32 ANOS DE UMA VOZ QUE SE RECUSOU A SE CALAR

    Um jornal, uma ferramenta de resistência, memória e afirmaçã


    O NORDESTINO: 32 ANOS DE UMA VOZ QUE SE RECUSOU A SE CALAR

    O NORDESTINO: 32 ANOS DE UMA VOZ QUE SE RECUSOU A SE CALAR

    Por Carlo Simi

    Mais do que um jornal, uma ferramenta de resistência, memória e afirmação da identidade nordestina no Rio de Janeiro

    No dia 17 de maio deste ano, o jornal O Nordestino completou 32 anos de existência.

    Trinta e dois anos podem parecer apenas um número. Mas, para quem conhece a história da comunidade nordestina no Rio de Janeiro, representam muito mais do que isso. Representam resistência. Representam pertencimento. Representam a coragem de um povo que ajudou a construir esta cidade e que, muitas vezes, precisou lutar para ter sua voz ouvida.

    Vivemos numa época em que jornais nascem e desaparecem com rapidez. Em que a informação circula em segundos e desaparece na mesma velocidade. Por isso, completar 32 anos é um feito extraordinário. Ainda mais quando se trata de um jornal comunitário, criado não para servir ao poder, mas para servir a uma comunidade.

    O Nordestino nasceu em 17 de maio de 1994, idealizado pelo jornalista Gilberto Costa. Mas sua história começa antes da primeira edição impressa. Ela começa na mobilização de homens e mulheres que se recusaram a aceitar que a tradicional Feira Nordestina de São Cristóvão fosse retirada do lugar onde havia se transformado em símbolo da presença nordestina no Rio de Janeiro.

    Muita gente talvez não saiba, mas houve um tempo em que a permanência da feira não era uma certeza. Era uma batalha.

    Naquele espaço pulsava muito mais do que comércio. Ali estavam a cultura, a música, a culinária, as lembranças da terra natal e a esperança de milhares de migrantes que chegaram ao Rio trazendo pouco dinheiro, mas uma imensa disposição para trabalhar e construir uma vida melhor.

    A Feira de São Cristóvão nunca foi apenas uma feira.

    Ela era um pedaço do Nordeste plantado em solo carioca.

    E foi nesse contexto que surgiu O Nordestino.

    Não como um observador distante dos acontecimentos.

    Mas como participante da luta.

    Como instrumento de mobilização.

    Como voz de uma comunidade que muitas vezes era lembrada apenas pelos estereótipos e esquecida em suas contribuições.

    O jornal ajudou a divulgar reivindicações, registrar mobilizações e fortalecer o sentimento de identidade coletiva. Não foi o único responsável pelas conquistas alcançadas, porque essas conquistas pertencem a milhares de nordestinos anônimos. Mas certamente foi uma das vozes que ecoaram essa luta.

    E talvez esteja justamente aí a grandeza de O Nordestino.

    Ele não se limitou a noticiar fatos.

    Ele preservou memórias. 

    Registrou histórias.

    Valorizou pessoas que dificilmente encontrariam espaço nos grandes veículos de comunicação.

    Enquanto muitos olhavam para celebridades, O Nordestino olhava para o sanfoneiro da feira, para o cordelista, para a cozinheira que mantinha viva uma tradição familiar, para o pequeno comerciante que sustentava sua família com trabalho digno.

    Contou histórias que os grandes jornais não contavam.

    E, ao fazer isso, ajudou a preservar uma parte importante da história do Rio de Janeiro.

    Porque é preciso dizer uma verdade que nem sempre recebe a devida atenção: não existe Rio de Janeiro sem a contribuição nordestina.

    Os nordestinos ajudaram a construir prédios, estradas, bairros, escolas e hospitais. Ajudaram a movimentar a economia. Enriqueceram a cultura. Trouxeram sotaques, sabores, ritmos e tradições que hoje fazem parte da identidade carioca.

    O Rio também é nordestino.

    E O Nordestino compreendeu isso desde o primeiro dia.

    Por isso, ao celebrar seus 32 anos, celebramos algo maior do que um jornal.

    Celebramos a memória de uma luta.

    Celebramos a preservação de uma identidade.

    Celebramos a força de uma comunidade que nunca aceitou desaparecer.

    Em tempos de intolerância, preconceito e tentativas constantes de apagar histórias coletivas, a existência de um veículo dedicado a preservar a cultura nordestina é mais necessária do que nunca.

    Que venham muitos outros aniversários.

    Porque enquanto existir O Nordestino, continuará existindo um espaço para lembrar às novas gerações que a história da Feira de São Cristóvão, da cultura nordestina e da própria cidade do Rio de Janeiro não pode ser contada sem mencionar os homens e mulheres que vieram do Nordeste e ajudaram a construir esta terra.

    Parabéns ao jornal O Nordestino.

    Parabéns a Gilberto Costa.

    E parabéns, sobretudo, ao povo nordestino, verdadeiro protagonista dessa história.

    São 32 anos de jornalismo.

    Mas, acima de tudo, são 32 anos de compromisso com a memória, a cultura e a dignidade de um povo.

    E permitam-me uma reflexão final.

    Num país que tantas vezes esquece seus trabalhadores, seus migrantes e suas raízes populares, a existência de O Nordestino é uma lembrança permanente de que a memória também é uma forma de resistência.

    Povos que perdem sua memória tornam-se mais vulneráveis à invisibilidade, ao preconceito e ao esquecimento. Já aqueles que preservam sua história preservam também sua identidade, sua autoestima e sua capacidade de lutar por um futuro melhor.

    Por isso, a missão de O Nordestino vai muito além do jornalismo.

    Ela toca a cidadania.

    Ela toca a cultura.

    Ela toca a alma de uma comunidade inteira.

    Quem registra a trajetória de um povo presta um serviço inestimável às gerações futuras.

    E quem preserva a memória de um povo ajuda esse povo a continuar existindo.

    Por tudo isso, os 32 anos de O Nordestino não pertencem apenas ao jornal.

    Pertencem a cada nordestino que chegou ao Rio carregando sonhos.

    Pertencem a cada família que encontrou na Feira de São Cristóvão um pedaço de sua terra natal.

    Pertencem a todos aqueles que acreditam que a cultura popular merece respeito, reconhecimento e proteção.

    E pertencem, acima de tudo, àqueles que nunca desistiram de fazer sua voz ser ouvida.

    Porque algumas instituições informam.

    Outras fazem história.

    O Nordestino, há 32 anos, faz as duas coisas.

    Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




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